Visões de Realidade e Fantasia em ‘Closer’

closer-movie
Por: Eduardo Sergio de Carvalho.
Um filme pode conter, de maneira proposital, diversas camadas de temas que se sobrepõem, permitindo várias leituras sobre a obra. Através desse artifício, o autor do filme – o roteirista ou o diretor – estrutura o tema ou personagens, de modo que determinados conteúdos psíquicos apareçam em uma camada interpretativa secundária, fazendo com que o espectador identifique-se com ele, atraindo-o inconscientemente para dentro da tela. Por tal ponto de vista, o filme pode ser visto sob um prisma onírico, onde seu conteúdo manifesto  – imagens por vezes sem sentido, situações irreais – esconde seu verdadeiro significado no chamado conteúdo latente, escondido. Podemos notar tal artifício desde Um Cão Andaluz de Buñuel,  na obra de Fellini, até o cinema comercial americano, mesmo em alguns trabalhos de Spielberg.

Em um segundo aspecto, os temas relativos à psique são apresentados sem a intenção consciente por parte do autor. Aqui, torna-se mais difícil identificá-los, e apenas o olho do indivíduo preparado, ou identificado subjetivamente com o tema latente, poderá apontar e levantar questões pertinentes a ele. Alguns cineastas podem ser considerados autores, justamente por apresentarem variações sobre um mesmo tema, seja consciente ou não, ao longo de suas carreiras – vide Clint Eastwood e sua visão sobre a culpa em sua fase madura, revelando-se essencialmente católica em Menina de Ouro – , e proporcionarem essa identificação junto ao público. Podemos correr o risco de dizer que um filme não existe para o público se não houver essa identificação psíquica.

Tal identificação pode mesmo levar a interpretações profundamente pessoais sobre filmes com intenções muito claras. Parece ser este o caso de Closer – Perto Demais, um filme franco e aberto que discute as relações homem-mulher na sociedade contemporânea. Adaptado pelo dramaturgo Patrick Marber de sua própria peça teatral, o filme de Mike Nichols é um grande e elaborado discurso sobre o tema, questionando de modo ácido que lugares ocupam a mentira e a sinceridade nos relacionamentos, e até que ponto conseguimos discernir onde a verdade sai e dá lugar ao embuste, à fraude. Falando francamente de fraquezas humanas, o texto tem todas as chances de causar impacto no público. E é o que faz.

Em uma das várias discussões acerca de Closer, fui alertado para um aspecto que não notara. Uma pessoa que assistiu ao filme, identificada com Dan (vivido por Jude Law), viu a fita como uma criação literária do personagem: aquilo que vemos na tela em Closer seria O Aquário, o livro de Dan que não deu certo. Para este espectador, o filme todo não passa da realização fantasiosa de um escritor frustrado, que trabalha fazendo obituários em um jornal londrino. É uma leitura plausível: o título do livro – um grande tanque d´água, onde seres vivem expostos aos olhos do público – pode remeter a emoções expostas, porém limitadas às paredes do tanque; à psique aprisionada que quer manifestar-se (a água é um símbolo onírico associado em geral ao inconsciente, bem como às emoções e fantasias). Em suma: Closer é a fantasia de Dan – um alter ego de Patrick Marber ? – exposta na tela, tal qual um aquário.

Uma interpretação absurda, você dirá, mas perfeitamente possível para a pessoa que relatou-a a mim. O indivíduo em questão possui conhecimento da área psicanalítica, é extremamente ligado às artes, em especial à escrita. Li textos belíssimos de sua autoria, nunca editados e apreciados por um público mais amplo. Seu desejo de talvez seguir uma carreira literária fez com que se identificasse com Dan, e seu trânsito entre mundos subjetivo e objetivo levou-o a tal interpretação, unindo real e imaginário sem fronteiras bem determinadas. Não cabe dizer se é certa ou errada; é apenas uma visão pessoal, que poderá variar conforme características e conteúdos inconscientes de cada indivíduo. Uma stripper ou garota de programa, ou quem possua tal fantasia, poderá identificar-se com Alice (Natalie Portman), e enxergar o mesmo filme sob outro ângulo; alguém viciado em chats de sexo poderá ver-se como Larry (Clive Owen); casais em diversas fases no relacionamento, indivíduos manipuladores ou que se deixem manipular facilmente verão outras facetas na mesma obra.

Assim como o inconsciente, o filme jamais se esgota, proporcionando múltiplas visões sobre o mesmo e sobre quem é tocado por ele. Levando essas questões para o ambiente da clínica, um filme como Closer transforma-se em um instrumento notável para a compreensão das relações do sujeito com o outro e consigo próprio.

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4 comentários em “Visões de Realidade e Fantasia em ‘Closer’

  1. Com esse texto do Edu, inaugura-se mais uma Sala aqui no Blog. A: ‘Mais Um Olhar’.

    Assim se o Filme já estiver no Acervo um novo texto sobre ele irá para ela. Mas sem ser preciso a Ficha técnica, já que essa constará da primeira análise.

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  2. Brigadão, Lella!

    Um filme recente que vi e onde Mickey Rourke me surpreendeu (bem) foi “O Lutador”. Assim que der um tempo, escrevo sobre ele.

    Beijão!

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