Gran Torino (Gran Torino. 2008)

gran-torinoClint Eastwood é uma das figuras adoráveis de Hollywood. Mesmo quando faz filmes medianos, como este Gran Torino, é inegável o fato de que as pessoas adoram vê-lo rosnando, como um velho rabugento (papel que poucos fariam tão bem). E é engraçado como sabe mesclar essa face ranzinza ao homem de bom coração – o que leva tempo para demonstrar. Clint é um dos diretores com idade avançada do cinema americano que ainda conseguem inacreditável flexibilidade e aderência a temas variados. Sua maneira de dirigir, sempre deixando esvair um espírito intimista de seus personagens, é um de seus pontos altos. Provou isso quando, em 1992, lançou Os Imperdoáveis, filme que dava novos contornos ao gênero western e, por isso mesmo, de suma importância (é bom lembrar que nenhum filme do gênero realizado depois conseguiu superá-lo, e já fazem quase vinte anos). Ou seja, Clint pode se dar ao luxo de escolher os filmes que dirige, migrar em gêneros e, quando bem entender, estar também à frente do elenco.

Em “Sobre Meninos e Lobos” ele apenas se lança como cineasta; depois, no excelente “Menina de Ouro”, faz um técnico de boxe durão, que ganha uma nova “filha”; seus trabalhos posteriores (dois filmes de guerra em 2006, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, assim como o recente “A Troca”) não contam com sua figura adorável em cena. Eis que Gran Torino, para uma total surpresa – já que Clint continua surpreendendo – não poderia ter sido encabeçado por ninguém menos que ele próprio. O filme, em sua totalidade, foi escrito para Clint, inclusive o papel principal: o duro ex-combatente de guerra Walt Kowalski (o mesmo sobrenome de Marlon Brando em “Uma Rua Chamada Pecado”, outro polaco briguento). Por outro lado, esse filme escrito para ele poderia ser dirigido por outro cineasta disposto a contar uma história que outros vários filmes já haviam explorado antes – inclusive, com vários temas que Clint havia abraçado em seus longas mais famosos.

Logo após perder a esposa, Kowalski está sozinho em seu bairro, um subúrbio que foi invadido por imigrantes. Ele e alguns poucos outros são os remanescentes de um bairro que, segundo as análises desse velho rabugento, não é mais o mesmo. Mas não são as pessoas que mudaram, ou a presença de outras raças; as mudanças ocorreram na medida em que os jovens, uma nova geração que impõe o ódio no local, não sabe como exorcizar seus demônios e, freqüentemente, acabam inclinados à bandidagem. Essas dualidades, entre jovens e velhos, violência gratuita e permissão para matar (como na guerra), não só dão luz a um palco perfeito para Clint assumir sua velhice (o que é louvável), mas também figuram um pouco do que os dramas americanos já se desgastaram recorrendo. Kowalski é aquele tipo de homem que não suporta ver as mudanças na nova geração sem que ao menos solte uma rosnada; trata melhor sua cachorra que os netos, que, como uma adolescente obcecada por seu intacto Ford Gran Torino 1972, apenas desejam que a herança do avô seja repartida após sua morte. A fusão do personagem ao drama central – a relação com os filhos, ou melhor, a não relação, está em um plano secundário – dá-se no encontro do velho homem com o prazer da confraternização e amizade gerada pelos vizinhos orientais. Após uma confusão na frente da casa destes, Kowalski saca sua espingarda e coloca alguns arruaceiros para correr; seria o início de muitas confusões.

Ao representar um ex-combatente da Guerra da Coréia, o astro concede praticamente um pedido de desculpas a comunidade oriental estabelecida nos Estados Unidos. Mesmo tendo matado uns 13 soldados do lado oposto, em 1952, Kowalski está aberto ao perdão, à redenção e à paz de espírito após a necessária confissão ao padre (Christopher Carley). É um personagem destinado a discutir a vida e a morte, a questão da paternidade, o espinhoso preconceito, assim como a rejeição da própria família – ou seja, todos temas que já havia abordado no oscarizado Menina de Ouro. Até mesmo sua amizade com um rapaz mais jovem e seus comentários sobre como é matar um homem, remetem a diálogos de Os Imperdoáveis (sem a mesma reposta sobre a questão). Mas o que chama a atenção em Kowalski é sua maneira real em lidar com as pessoas e sua falta de medo; é quase como soubesse – e talvez saiba – que, de uma forma ou de outra, encontrará seu fim em breve. Somente um ator do calibre de Eastwood poderia controlar tão bem essas emoções e conferir ao personagem tanta humanidade, mesmo preso às explicitas dualidades já citadas.

Fator que incomoda no personagem é o modo como quer ensinar o jovem vizinho oriental (Bee Vang) a ser um “macho”. Ao lado de sua bandeira americana, posta na frente de sua casa, Kowalski ainda é aquele tipo de homem que recorre à violência como meio de resolver as coisas; pode ser descrito, também, como alguém à moda antiga, que gosta de tomar sua cerveja na varanda e que não resiste em lavar seu carro – sim, aquele velho e bonito Gran Torino. E por que a religião é sempre um tema – praticamente uma dívida – nos últimos bem sucedidos filme do diretor? Os personagens dos filmes de Clint estão sempre em busca de suas próprias almas, em dívida com algo maior e, por isso, dispostos a matar ou morrer por algo significante.

Apesar de ter sido apontado como um novo “Dirty” Harry Callahan, Kowalski é alguém de intenções variadas, com humanidade e disposto – mesmo com certa dificuldade – a aprender algo com outras pessoas e povos distintos. Em suma, é alguém que pode ser dobrado. E o que fará isso com ele é a amizade com a comunidade oriental de seu bairro, a forma de dar as mãos a pessoas de uma cultura distante, e que, há tempos, perseguiu na Guerra da Coréia. O texto não abre mão de qualquer resquício do velho durão americano, louco por uma arma e por um significado na vida; mas, felizmente, também não abre mão de unir diferentes pontos extremos, estes que, em épocas mais remotas, dificilmente seriam abordados de tal forma. O melhor de tudo é a capacidade de Clint em se assumir como realmente é, como um homem de idade avançada e cujos papéis lhe caberão se for, apenas, para atingir a verdade desejada. E esta, aqui, diz respeito à maneira americana de ser, ou, como sugere Clint, aos 78 anos, a boa maneira americana de ser.

Por: Rafa Amaral  Blog: Pensando Cinema.

Gran Torino (Gran Torino). 2008. EUA. Direção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood (Walt Kowalski), Christopher Carley (Father Janovich), Bee Vang (Thao Vang Lor); Cast. Gênero: Ação, Crime, Drama. Duração: 116 minutos.

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