VOLVER

volverAlmodóvar e seu universo feminino. Onde ele transita tão bem. Aliás, passeia. Deleita-se com suas personagens, que mesmo entre traumas e mortes, conversam e resolvem seus problemas entre si. Uma tela de horrores como “Guernica” poderia sintetizar quanta coisa ruim ocorre com elas. Mas não há sofrimento expresso. E sim a capacidade delas de solucionarem as manchas ocorridas. Os homens não existem. São até negados na sintomática cena do velório da tia. Um deles, o marido da Raimunda, parte dessa para melhor (ou pior?) depois de rápida aparição. Estamos numa cidade cheia de ventos. Mudanças na vida de Sole. Soledad é sozinha, um quadro expressionista de Dali, como “Mujer com cabeza de rosas”, trabalha em seu salão acochambrado e se depara com o fantasma da mãe.

A mãe é a espetacular atriz Carmen Maura. Essa é um quadro de Velásquez, “As Meninas”, meu predileto. Ela retrata a Espanha escura, machista. E por isso pinta seus cabelos e põe cor em sua vida e de suas filhas. Como no quadro supracitado, ela vai consertando e equilibrando os triângulos deixados. Sua relação com a filha predileta, Raimunda, seu desvelo com a filha “certinha-mas-apagada” , a Sole. E o reencontro com a neta, que tem os mesmo olhos do pai.

Aliás a jovem mulher Yohana Cobo, que faz a filha de Raimunda, está ótima. Sem essa de adolescente, que é um povo desenxabido e consumista. Ela é uma menina que explode em mulher. Com cabelos soltos e revoltos, e com uma atitude feroz diante da agressão que sofreu. Sua pintura? “Imaculada Concepción” de El Greco.

E a soturna Agustina? Tratando de uma velha, sofrendo calada um câncer, quase se expondo em um programa de TV sensacionalista. E ainda assim tenta solucionar o que está entalado na sua garganta. O paradeiro de sua mãe. Apesar de levar cacetada de todos os lados, permanece íntegra e ainda fumando um baseadinho básico… Ela é “A Quinta” de Miró, uma igrejinha, um quintal, o regador, a árvore, tudo do dia-a-dia que ficou perdido.

Por último Penélope Cruz. Quadro de Goya, “La Maja Desnuda”. Repintado e imitado milhares de vezes, e ainda assim: único. Raimunda está esplêndida. Corpo voluptuoso, mulher trabalhadeira, decidida, linda em sua simplicidade. Suas roupas lhe caem tão bem que quando a vejo, vejo-a somente nua.  A tomada por cima, no decote farto e convidativo, é espetacular. Seu andado, suas decisões, até quando dubla a canção “Volver” interpretada pela Estrella Morente, são de uma firmeza incrível. De uma naturalidade sensual rara em mulheres. Especialíssima. Interpretação ímpar. O filme foi feito para ela e com ela. Apesar de carregar consigo o pior dos tabus ocidentais, vive bem e espalha simpatia e sorrisos.

O final é muito bom. Aliás esta obra do Pedro tem começo, meio e fim. Diferente do último. Não pense que é triste ou que perpassa um realismo fantástico. É um filme de mulheres em que todos os homens deveriam assistir calados e aplaudir.

O que há de bom: Penélope Cruz, em todas as cenas

O que há de ruim: os homens toscos, de preto, e a velha Espanha machista de Mancha…

O que prestar atenção: Almodóvar cita vários títulos de filmes anteriores seus, na boca das personagens

A cena do filme: as quatro juntas, avó, mãe, irmã e filha, nada as detêm ou derrota

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.

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