Deadgirl (2008)

deadgirl-poster-fullsize_9Y6F

Embora alguns possam rotular este como um filme de terror medíocre, senão mesmo ruim, eu o considero um bom drama, excelente objeto para algumas reflexões acerca da bestialidade humana – tema tão explorado por mim em meu blog e mesmo em outras análises da sétima arte.

Em Deadgirl temos dois amigos problemáticos e não-sociáveis com o mundo. Na escola não interagem com ninguém. Não obedecem regras do mundo. São invisíveis perante a existência. Entretanto, o vandalismo é a forma que encontram para dizer ao universo “Ei, estamos aqui!”, visto que o próprio sol e a própria lua viraram de costas para ambos.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

Um dia, como tantos outros, os dois resolvem matar aula para se divertirem. J.T – o que mais aceita a sua condição de esquisito e de abandonado por todos – sugere à Rickie – este não se vê como alguém esquecido, embora seja tanto quanto o seu amigo – que eles visitem um hospício abandonado.

Ao chegar ao local, os dois se embebedam e começam a destruir as coisas por pura diversão. Entre quebra de vidros e cadeiras arremessadas, os dois ouvem um barulho proveniente de um corredor. Um cachorro ameaça atacá-los, então eles correm e acabam por entrar numa sala onde uma mulher está deitada, amarrada e, aparentemente, viva!

Diante da cena, Rickie fica preocupado e deseja ir embora. Aquela mulher ali poderia representar problemas para ambos. Porém J.T. fica fascinado ao observar a mulher amarrada, em total submissão e sem poder fazer nada, com um olhar mórbido e cansado. Ao fazer um exame mais minucioso, J.T. acha a mulher bonita e começa a se excitar com a imagem.

Rickie deseja ir embora, porém quando J.T. começa a tocar a mulher, Rickie tenta impedi-lo e acaba levando um murro de seu melhor amigo. É o fim da amizade. Rickiei vai embora e J.T. fica sozinho com a mulher amarrada.

No outro dia na escola, J.T. diz que Rickie precisa voltar com ele ao local para mostrar algo indizível com palavras. Convencido, ambos voltam ao hospício e Rickie observa a mulher com o pescoço quebrado, porém ela ainda se mexe.  Sem entender, J.T. pega a arma de Rickie e dá três tiros na mulher. Ela continua movendo-se. Então J.T. explica que a mulher não morre – que na noite anterior ela começou a gritar e ele quebrou o seu pescoço por três vezes, porém ainda vivia.

Deadgirl

Ao saber que não há um limite para o fim da mulher, J.T. se excita cada vez mais com a tortura. Na contramão, Rickie está cada vez mais horrorizado e rompe em definitivo com o seu ex-amigo. As cenas de tortura não saem de dentro de si, ele pensa constantemente em libertar a mulher dos abusos sofridos. No dia em que planeja fazer isto, encontra um outro colega da escola transando com a pobre mulher amarrada, enquanto J.T. apenas observa, anestesiado pelo sofrimento da mulher morta-viva.

Na escola, Rickie arruma uma briga com o namorado da menina que ele é apaixonado. No meio da uma surra, Rickie oferece a oportunidade de ver algo único e leva o cara para ver a mulher no hospício. O fortão fica com medo, porém com a pressão de J.T. e de outros dois colegas da escola, ele vai manter relações com a defunta, que já está com o pescoço quebrado, com três buracos de bala no corpo, e cheia de hematomas. Acaba mordido por ela. É a vingança de Rickie através da mulher morta.

No outro dia, porém, o brigão começa a falecer e acaba por morrer. Eles então adivinham que a mulher é uma espécie de zumbi: quem ela morder também fica num estado semelhante ao seu. Então J.T. decide transformar uma nova mulher em zumbi para fazer de objeto de desejo junto com a outra.

Eles acabam por pegar a menina que Rickie está apaixonado. Rickie consegue salvá-la enquanto seus amigos morrem, porém ela é ferida. Antes de sair do hospício, Rickiei manifesta o quanto ele a ama. Porém ela repudia este amor e pede apenas para sair dali. Então J.T., ferido e a beira da morte, diz que ainda havia tempo para transformar ela num zumbi também, que ele poderia ter ela por todos os dias naquele mundo. Que no mundo real eles jamais conseguiriam algo assim por que eram rejeitados.

Ao término do filme vemos Rickie feliz na sala de aula. Ao término, ele se direciona para o hospício e lá está a garota de seus sonhos presa como a mulher anterior. Ele acolheu o conselho do falecido J.T. e aceitou o seu estado de invisibilidade.

Por incrível que pareça, este filme tem um objeto de crítica semelhante à uma grande obra, tanto da literatura quanto do cinema: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Os mesmos demonstram o quão cruel pode ser o homem numa situação onde as leis, a ética e a moral não se aplica. Quando não há nada que possam repreender o homem, eis que ele revela o seu lado mais insano.

Neste filme o que observamos é exatamente isto. Se de um lado o mundo nunca deu bola para J.T., por que ele se importaria com regras agora? Se o caminho que eles trilharam até então era o mesmo dos outros, por que eles não eram aceitos por todos? Neste contexto, suas ações eram justificadas pela aceitação da negação de sua existência perante o universo. Neste caso, não há busca de construção de nada, apenas destruição, alívio e prazer imediato.

No “mundo real” ele era controlado, em seu mundo ele controlava: a punição da mulher morta era a punição para todos aqueles que lhe esqueceram. Era a raiva contida colocada para fora. Era a afirmação que ele precisava: se ninguém se importa eu também não preciso me importar. Adeus condutas leais, adeus leis. Temos o retrato da moral ao avesso.

Se no Ensaio Sobre a Cegueira o tema é tratato de forma filosófica e sociológica, neste Deadgirl o tema é tratado de forma antropológica. Aqui temos a vingança de um homem só. A criação de uma realidade única e exclusiva para o ser solitário arremessado num mundo despreparado para recêbe-lo. Embora Rickie não acreditasse em J.T. e embora ele quisesse mudar a forma como era vista por todos, ao término Rickie descubriu que J.T. tinha razão: eles não pertenciam aquele local.

Neste contexto, quem são os os loucos,  aqueles que estão do lado de fora ou aqueles que estão do lado de dentro desta bolha imensa chamada vida?

Enquanto filme o desenvolver é lento e por vezes cansativo, embora não menos instigante (é aquele filme que você deseja ver o final à todo o custo, embora visualize o visor algumas vezes para saber se ainda falta muito para acabar). Porém enquanto instrumento ele é muito bom. Neste caso, se não houver muitas opções para assistir, fique com este que você não irá se arrepender.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0896534/

Deadgirl. 2008. EUA. Diretor: Marcel Sarmiento. Roteiro: Trent Haaga. Charlotte Frogner, Shiloh Fernandez, Noah Segan, Michael Bowen, Candice Accola, Andrew DiPalma, Eric Podnar, Nolan Gerard Funk.

Anúncios

6 comentários em “Deadgirl (2008)

  1. Olá Valéria! Quanto tempo, não? Aproveitei este final de semana extremamente gelado para escrever algumas coisas, pois estou em falta não só com este blog, mas também com o meu particular.

    Enfim, dizer que J.T. é um psicopata pode ser uma interpretação plausível e coerente, entretanto a transformação de Rickie em J.T. me fez analisar as coisas pelo outro lado do prisma, afinal Rickie em nada é psicopata, porém no fim acaba como o “amigo”. Ou seja, o fator principal da mudança, neste caso, é o próprio meio que lhe rejeita.

    Então optei por uma linha onde J.T. inicia o filme conformado com seu mundo e observamos como Rickie – aparentemente tão distante – acaba tendo o mesmo destino.

    Curtir

  2. Talvez, para Rickie o T.J seria o único que o aceitasse como ele era. Ele queria mesmo, era ser aceito pelos ‘normais’.

    Evandro, esse gênero de filme, eu não curto muito. Mas seus textos me faz ficar com vontade de assistir 😀 só preciso de mais coragem.

    Curtir

  3. Vi o filme recentemente, e acho que foi até por ter lido parte deste texto que fiquei curioso para vê-lo.

    O filme tem algumas partes pesadas, algumas cenas gore e de tortura, não é para estômagos fracos, porem como o Evandro ressaltou em sua critica, o filme serve como um objeto para discussões sobre antropologia, vida em sociedade, e permissões.

    Colocando-me no lugar daqueles garotos, com a testosterona a mil, e rejeitados pelas garotas, de repente encontram uma mulher só para eles. Enquanto um avalia se pode ou não, o outro já pensa por que não? Eu faria as duas perguntas, claro, se o susto por encontrar um quase cadáver não me fizesse correr dali. Porem inserido nos principios morais e no convívio social, acabaria pesando mais a primeira pergunta. Mas compreendo J.T.
    Ali ele tinha o mundo dele. A garota dele e dali ele extraiu os seus mais obscuros sentimentos, como por exemplo, a sodomia.

    O filme pode vir a ter um final frustrante para alguns já que ele não responde a pergunta que é feita quase que o filme inteiro. Porem para mim, foi até melhor deixar na nossa imaginação o que aconteceu com a garota morta.

    Curtir

  4. Olá!!!
    Tudo bem???
    Legal este blog.
    Ontem assisti Deadgirl e gostei bastante. Eu o vejo como uma história gótica.
    Acho que o ritmo do filme é acertado para podermos perceber as transformações nos personagens, mas por outro lado, acho que a falta de atores mais experientes acaba afetando algumas partes, mas nada que atrapalhe a diversão.
    Achei interessante a nova abordagem dada ao tema “zumbi”. Diferentemente do que se pensa, é um gênero que ainda pode render bons filmes.

    Curtir

Seu comentário é importante para nós! Participe! Ele nos inspiram, também!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s