Vidas Sem Destino (Gummo. 1997)

Filme difícil de digerir, um tanto quanto denso. A experiência não é das mais agradáveis. De fato, durante a projeção fiquei tentado a desistir de chegar até o final – não pela temática do projeto, mas pela maneira que o filme é conduzido. Uma sensação de mal estar é quase que inevitável durante os 89 minutos que nos encontramos em frente à tela.

O responsável pela façanha é o cultuado Harmony Korine, que estrou no cinema ao assinar o roteiro de um outro filme perturbador: Kids. Em Gummo, ele estreia como diretor e faz algumas experiências bizarras no controle das câmeras.

É um exercício penoso tentar elaborar uma sinopse para este filme, porém se eu tivesse que identificar um protagonista para a história (se é que podemos dizer que há uma história) seria a caótica cidade de Xenia, em Ohio. Ao mesclar ficção com fatos reais, Korine nos apresenta a um lugar pós-apocaliptico após um tornado ter devastado à cidade em questão.

Muitos morreram, pessoas foram dizimadas e famílias despedaçadas.Já não há mais adultos e agora as crianças e adolescentes sobrevivem por eles mesmos. Neste contexto, como seria a vida destas pessoas? Harmony Korine traz uma visão niilista em sua película: há uma desconstrução de padrões difícil de suportar. A cidade é imunda e desorganizada – não há uma única cena que não seja extremamente poluída (entenda sujeira, brinquedos despedaçados, pernas de boneca penduradas, camas desarrumadas, louça sem lavar, água preta, carros quebrados, roupas velhas, unhas sujas, entre outros).

O filme não tem uma história central. Ele começa sem um início e termina sem um fim. Simplesmente somos arremessados para dentro da cidadezinha de Xenia. Como uma espécie de guia turístico, o diretor nos convida a conviver por alguns minutos com a rotina de seus moradores. Somos introduzidos para a escória do submundo humano – vamos participar da antivida de seus habitantes e mesmo querendo fechar os olhos, vislumbraremos apenas como se dá a sobrevivência daqueles que, de alguma maneira, já estão mortos.

Dentre estes habitantes, temos um núcleo inspirado no White Trash – ou Lixo Branco, termo utilizado para pessoas brancas de baixíssimo estatuto social, cultural e econômico. Equivale a chamar as pessoas de selvagens ignorados pela civilização. De fato, é isto que encontramos. Pessoas esquecidas que cultivam a sua própria imundice, como num movimento que diz “é isto que vocês querem? Então é isto que vocês teen!” – um freak show depressivo, onde encontramos a podridão da humanidade concentrada num único local.

O mais irônico, e talvez este seja o ponto que Harmony Korine pretenda chegar, é que por mais distante que este mundo pareça estar de nós, encontramos nele tão somente o que encontramos no nosso dia-a-dia. Não há nada de novo, senão repetição do nosso cotiano. Talvez seja por isto que nos sentimos tão perturbados: quando encontramos à nossa imundice espelhadas diante de nós, sentimos repulsa – quando não vergonha – de quem somos.

Basta pegar os elementos tratados em Gummo e comparar com nossa vizinhança – ou mesmo dentro de nosso lar: suicido – há relatos desesperados pelo fim do tormento que é esta vida sem sentido, nem razão; prostituição – há pessoas que vendem seus próprios entes para se prostituirem em troca de algum dinheiro; abuso sexual – pais que estupram filhos e pessoas que forçam uma relação; racismo; dependência de drogas; tortura de animais; violência pró-diversão; doença; preconceito e homofobia.

Tudo isto manifestado por jovens menores de idade. O tapa na cara é forte. A discussão é hiper-real justamente por que não sabemos o que seria da vida caso estivéssemos nesta posição surreal. Existe o real, evidenciado pelas situações acima, ofuscada por um fictício, que é o universo proposto por Korine. Quando pegamos todos os elementos e jogamos num liquidificador temos uma sociedade hiper-real: não falsa, não fantasiosa, mas real em um determinado nível de modo que não podemos alcançar esta realidade – por isto hiper-real.

Filme de alto teor culto e reflexivo, porém na mesma proporção encontramos a melancolia, pessimismo e desânimo. Fora a trilha sonora que te leva entre músicas calmas dos anos 50 para o Trash metal mais pesado possível. Isto atenua ainda mais o mal estar, como se lhe jogassem para cima e para baixo sem freio nem remorso.

Eu, particularmente, não pretendo revisitar o filme, a não ser em minha mente, onde ele está bem vivo, principalmente algumas cenas chocantes que insistem em permanecer. Termino esta resenha e vou direto tomar uma aspirina, para curar a dor de cabeça, e um energético, para me trazer disposição e – quem sabe? – um sorriso. Korine pegou pesado demais neste trabalho. Porém eu bato palmas de pé para o diretor e irei acompanhar os seus outros trabalhos, afinal ele atingiu o seu objetivo apenas ao trazer o espelho para a tela de projeção.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0119237/
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=35Hg8bIFu-A

Gummo. 1997. EUA. Direção e Roteiro: Harmony Korine. Jacob Reynolds, Chloë Sevigny,  Nick Sutton, Jacob Sewell.

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29 comentários em “Vidas Sem Destino (Gummo. 1997)

  1. boa a sua resenha…uma analise pertinente sobre o filme….mas acho vc muito delicado…existem filmes bem mais fortes e cruéis….o que quero dizer é quue vc deve ser uma pessoa super sensivel, pq há coisas bem piores meu caro…ademas sua resenha é coerente…

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  2. Adorei sua resenha pude perceber melhor o filme depois de ler, acho que não sofri ao ver o filme porque assisti pensando em da risadas, como se fosse uma comédia e tudo que me afligia eu tentava encaixar na vida real, os pés sujos!

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  3. Vale contar que o diretor usou os mais sombrios tipos de música para a trilha sonora desse filme (como, por exemplo, o dark ambient). O próprio trailer já dá um pedaço da música de dark ambient do projeto de black metal Burzum, cujo o líder, Varg Vikernes, assassinou um de seus amigos e ainda queimou várias igrejas na Noruega. Além disso, o vi também que o filme usa outros tipos de black/viking metal satânicos (como Bathory, por exemplo).
    Esse filme parece bem interessante e perturbador, da próxima vez eu assisto com meus amigos fãs de black metal norueguês, ehehuehue

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  4. Eu morrendo de procurar alguma informacão sobre/se os animais nesse filme sofreram algum tipo de sofrimento/maus-tratos , n me incomodo nenhum pouco de ver um filme pesado desses , a não ser q algum tipo de animal tenha sofrido , ai eu passo mal mesmo .-.! Alguém sabe?

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    • Apesar de hiperrealista (muitos utilizam também o termo “pós-modernismo”, mas não como significado de superação ou posteridade da realidade, mas como intensificação dela), em “Gummo” não houve realmente maus tratos aos animais (notadamente aos gatinhos… e, por extensão irônica, aos seres humanos). Se você prestar atenção, bem no final dos créditos há uma nota falando que a produção do filme foi acompanhada de uma instituição/ONG/órgão, não sei ao certo, que fiscalizou o uso de animais (utilizando, em muitas cenas, apenas bonecos que o representavam). O filme é realmente impressionante e nos incomoda até o limite de nossas próprias hipocrisias. Parabéns à autora do blog pela resenha. Boa sessão de cinema a todos!

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      • Marco Aurélio,

        O Blog a princípio era como meu caderno de notas onde eu guardaria meus textos que eu postava em fóruns no Orkut. Mas depois com participações como a sua me levou a convidar outros autores para a construção desse acervo.

        Numa gama de um pensar diferente, mas sobretuto um pensar próprio, sem sair copiando críticos já consagrados, foi o ponto de partida para o convite. Sem que tivessem pressão com regularidade. Ciente de que seria por puro prazer. Foram aceitando.

        O Evandro Evanâncio autor desse texto, para a felicidade de todos nós, é um dos que aceitaram em compartilhar seus textos.
        Agradecemos também asua participação!

        E querendo ser mais um de nós, deixe um sim por aqui, que conversaremos por email.

        Saudações cinéfilas!

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        • Olá, Valéria, como vai? Antes de mais nada, parabéns pelo seu Blog, e me desculpe por atribuir a você um texto que não é de sua autoria (este especificamente de “Gummo”). Meu cérebro neandertalense às vezes gera essas confusões, justamente por não possuir traquejo, um blog próprio, Facebook ou Twitter capazes de me afeiçoar às tecnologias. Risos! Tenho 30 anos e gosto de máquinas de escrever (Royal, Hermes, Smith-Corona), acredita? Assisti a um documentário sobre o Woody Allen recentemente, e nele ele mostrava seu “editor de texto”: uma Olympia antiga, papel, tesoura e cola! Risos. Digo isso apenas para demonstrar minha inépcia para esses assuntos muito modernos, apesar de ter um Ipod. Contraditório, não? É a idiossincrasia humana: até Umberto Eco, do “Não contem com o fim do livro”, tem seu Ipad de viagem! Enfim, eu me perdi naquilo que gostaria de dizer a você, e preciso voltar ao assunto, sob pena de você me achar um chato pedante… Não sou autor, escritor nem blogueiro, apenas tenho o hábito de escrever religiosamente (sem religiosidade) em meu diário. Adoro filmes e assisto a eles de montão, desde “Sinédoque, Nova York”, passando por “Gritos e sussuros”, “Contos de Tóquio”, “Amarcord”, “Esse obscuro objeto do desejo”, “Paisagem na neblina”, até “Clube dos cinco”, “Up – Altas aventuras”, “Scott Pilgrim contra o mundo”, “A origem” e “(500) Dias com ela”. Hoje eu vi “Gummo” e busquei impressões do pessoal, caindo aqui no seu blog. Confesso uma coisa ridícula: eu me emociono com resenhas, acredita? Risos! Já chorei com muitas delas ao lê-las (exemplo: “Babel”, “A vila”, “O escafandro e a borboleta”, “Amores brutos”, “Beleza americana”, “Onde vivem os monstros”), refazendo o filme cena por cena sob um outro ângulo, lembrando-me da trilha sonora, do olhar do autor/diretor/roteirista/resenhista, pois o resultado final é o filme em nós mesmos. Eu adoro esse fenômeno da identificação, de poder encontrar a voz e as mesmas impressões minhas em alguém. Mesmo que NÃO sejam as mesmas impressões, sendo até contrárias, esse embate dialético é necessário, pelo menos eu acredito que o seja. Numa onda nacionalista, assisti também a “A febre do rato” e “Ainda orangotangos”. Enfim, há muita coisa, e acho que me empolguei demais escrevendo. Coloco meu e-mail a sua disposição para trocarmos cartas, e se eu puder contribuir com algo dessa minha cachola besta, será de imensa satisfação para mim. A resposta para a sua pergunta e/ou convite é “o número 42”, aliás, é um simples “sim”. Saudações cinéfilas!

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  5. Achei um comentário muito interessante sobre a metáfora do menino coelho no filmow

    Rômulo Reis Vieira:

    Entre tantas, chamou-me a atenção o simbolismo niilista (ironicamente mítico) da figura do “coelho”. Creio que retrate, no contexto do filme, o “silêncio de Deus”.
    Afinal, o coelho a partir da industria cultural, representa a pascoa, isto eh, a ressureição, a subida de Cristo ao céu. Vejamos: o menino coelho abre o filme em cima de um viaduto (único personagem que aparece olhando de cima, acima do chão), aparece ora de costas, ora cuspindo, outras mijando em quem esta embaixo dele ( sera q nao seja isso que o filme nos passa em relação a Deus? de cima ele mandou um tornado que devastou a cidade, a familia e assim geracoes amputadas, a falta de sonhos). O menino coelho (ou menino Jesus) abre os braços – como se numa cruz imaginária-seja na abertura, em q esta nas grades, seja andando de skate em uma das poucas (senão a única) cena que sugere certa liberdade a um personagem.
    O menino coelho, em certo momento, para o deleite de crianças furiosas, finge morrer, ser assassinado, ao passo que os demais personagens do filme fingem em toda projeção (ou por toda sua errante vida) estarem vivos: uma contradição, uma antítese como tantas que surgem no filme que encerra com a musica, ingenua dentro do contexto, que diz “cristo nos olha e isso que importa, jesus me ama” para logo em seguida dar lugar e ser superado por um thrash metal fodido.
    Interessante que no final, o menino coelho encontra o gatinho sumido. Entretanto, ele o entrega morto, isto é, um desejo morto, uma felicidade incompleta, castrada. Ele esboça um sorriso., mas não entrega Às irmãs (que nao aparecem na cena), não, ele entrega para nós, estende o braço com o gato morto para nos espectadores desse American Way realista. Ele esboça um sorriso de recompensa, de um pretenso e irônico dever cumprido (morto, incompleto) para nós telespectadores, que, de uma forma ou de outra, também pertencemos a este mundo sujo, caótico e contingente.

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  6. Só assisti esse filme uma vez na televisão, e me lembro que achei ele muito estranho.Apesar de acha-lo esquisito, não tirei os olhos da televisão, e consegui mesmo achando que aqueles personagens não tinham sentido algum, entender a mensagem de reflexão ou de critica que o filme pretendia passsar sobre o lado negro da vida e do mundo.

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  7. Ótima resenha, porém devo-lhe corrigir somente em uma coisa: a maior parte da trilha sonora é composta por músicas do gênero Black Metal e não Thrash Metal (você colocou como trash). ;p

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  8. O começo já causa incomodo, decorrer e final idem. Não existe amor, perspectiva de futuro e solidariedade na cidade, sobrevivem apenas isso, conformados com a miséria jogada na cara o tempo todo. Quem aprecia as produções comerciais, melhor ficar longe, porém caso tenha interesse em duras realidades este é o filme, porém perturbador do começo ao fim. A trilha sonora tem até o Mystifier do Brasil e outras bandas de black ou death metal junto com baladas lentas. Racismo, preconceitos, brutalidade são vozes gritantes na dor dos personagens apáticos, brutos e infelizes. Interessante eu achei quanto aos poucos negros que aparecem no filme, situação inusitada e única.

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  9. Eu tinha esse filme original em VHS, quando vi o trailer fiquei com muita vontade de assitir. Procurei em praticamente todas as locadoras da minha cidade na época em Santos, mas só consegui encontrar em Maringa no Parana uma vez que fui visitar uns parentes. Perguntei pro dono se ele venderia o filme, e me vendeu por 30 reais, ele disse que quase nao tinha saída. Outro filme muito bom que me lembra um pouco Gummo, é The Butcher Boy (Nó na Garganta). Nao tenho mais eles em VHS, dei toda minha coleçao de VHS pra um primo que acabou vendendo. Já faz um tempo que to procurando ele de novo, essa semana achei uma pessoa vendendo cópias dos 2 no mercado livre por 10 reais cada. Vou comprar, mas vou atras deles originais tb, mesmo que seja americano. Gummo é um filme muito louco, mas nao sei porque eu gosto muito desse filme, acho que sao as cenas. Mas é isso ai. Valeu.

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