À DERIVA (2009)

A-DERIVA_posterHeitor Dhalia depois de Nina e o Cheiro do Ralo, vem como diretor e roteirista do filme À Deriva que  tem uma riqueza de detalhes digna de uma reconstituição arqueológica e também escarafuncha nossa alma através do drama alheio, ao nos colocar frente à uma realidade que de uma forma ou de outra conhecemos, seja por termos vivido, seja por termos ouvido em comentários ou em tom de desabafo de algum amigo e por que não, amiguinha de infância.

O filme nos remete a vários pensamentos e passa de uma forma se não contundente, muito tocante a mensagem de que não devemos julgar com precipitação, pois nem tudo o que nos parece é. Tudo isso embalado por belas imagens, fotografia linda, ângulos bonitos e uma trilha sonora eficiente. O filme se passa numa casa de praia, com uma família até então prefeita em temporada de férias. Mostra uma grande turma de adolescentes e suas descobertas, mas tem cenas internas escuras e algumas tomadas da praia tem um contraste do cinza dos rochedos e um certo tom pastel como que a mostrar que nem tudo é alegria nos momentos que deveriam ser felizes.

O bacana desse filme é que vamos descobrindo todas as coisas junto com as personagens. É surpreendente, por isso não dá pra achar chato, como alguns que o viram antes de mim comentaram.

Podemos nos questionar com relação até que ponto somos responsáveis pelo que nossas atitudes vão gerar em nossos filhos. Qual o limite das coisas que devemos dividir com eles. O quanto eles podem saber sobre nós sem que percebamos e o quanto eles idealizam sobre nós sem que saibamos.

Crescer dói e a história universalíssima deste filme nos informa que chega um momento na nossa vida que não dá para nos recusarmos a crescer e este processo uma vez iniciado, não terá fim jamais e nós, por mais que tenhamos uma idéia do que queremos ou de para onde desejamos ir, estaremos sempre à deriva. À Deriva é um filme emocionante, por ser verdadeiro.

a-deriva_laura-neivaFilipa (Laura Neiva, em seu primeiro trabalho – descoberta pelo diretor através do Orkut, flerta feroz e displicentemente com a câmera que ora mostra uma menina, ora mostra uma quase-mulher, sempre um rosto anguloso gostoso de ver) está se descobrindo como mulher. E nós sabemos que isso significa: Querer ao mesmo tempo que não se quer. Querer para não saber o que fazer quando conseguimos… Ela exercita seu poder e influência, sobre Arthur ainda que não saiba exatamente o tamanho da sua “autoridade”. Filipa julga seus pais a partir das suas descobertas, segue investiga, observa e se no início aparece apegadíssima ao pai, para o qual parece dirigir um olhar ligeiramente incestuoso, pouco depois “compra o barulho” da sua mãe até perceber que precisa ter seus próprios problemas, até ouvir o chamado da sua própria vida. Não sei se intencionalmente, mas este filme parece dizer que existe mais de uma forma de ouvirmos este chamado.

a-deriva_debora-blochA mãe de Filipa, Clarice – na interpretação equilibradíssima de Débora Bloch afoga as mágoas em duas pedras de gelo e muitos dedos de whisky chegando a comover pela insanidade em que se move, apesar do mau exemplo que dá aos filhos. Ela tem a árdua tarefa de definir uma situação difícil, reveladora de sua natureza e que acaba por decidir com o raciocínio pressionado pela emoção, sem se reconhecer na decisão. Clarice está à deriva boiando à superfície dos seus sentimentos e na expectativa de outros sentimentos não seus.

O irmão mais novo de Filipa faz um contraponto que mostra a total inexistência ou inutilidade do filho do meio, neste filme uma filha.

a-deriva_vicente-cassel Seu pai, Mathias (Vincent Cassel), um escritor francês nos aponta os caminhos do nosso pragmatismo, do quanto podemos estar errados ao julgar a partir do que vemos. Do quanto a nossa cultura nos leva a preconceber julgamentos que jamais se concretizarão dentro de uma razoável razão. É ele quem vai nos mostrar o quanto podemos ser capazes de nos renovar mediante certas situações, o quanto isso pode ser inútil e quanto o aceitar uma opção na qual não estamos incluídos pode nos fazer mudar nossos conceitos. É diante do inevitável fato consumado que Mathias entende o pensamento prático de Clarice vendendo os direitos do seu livro para um diretor de TV que não admira. A separação tem disso: Nos mostra uma força que não sabíamos que tínhamos e uma coragem que não sabemos de onde veio. Algumas descobertas  levam alguns  pelo caminho mais egoísta e tornam outros mais ternos.

Esse filme tem as tintas exatas de todo um cenário de revolução de sentimentos, desejos, interesses e costumes de uma época e de algumas fases que passamos ou poderemos passar. Tem um clima de mistério de quem está descobrindo o mundo, a vida, a morte, a violência, o corpo, amor. Com muitas cenas aquáticas, sempre temos a impressão de que algo de grave virá após tantos mergulhos e bater de pés. Tem figurinos perfeitos, muito bronze, cenários paradisíacos e atores excepcionalmente bem escolhidos. Dá pra ver se não a nossa vida, nossos medos passando na tela, de uma forma que deixamos de dar importância à gaveta revirada e arma desaparecida, afinal Mathias, está tão ausente da família exatamente por estar inteiramente submerso e flutuando nela.

Por: Rozzi Brasil.

p.s: Visitem o Flickr de Alexandre Ermel para ver muito mais fotos do filme.

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2 comentários em “À DERIVA (2009)

  1. Caramba! Você sabe fazer a gente querer ir ver um filme! Não sou fan do cinema brasileiro, nem com a já famosa “retomada”, mas já sei que quando vc comenta um filme é porque gostou dele e é fato que ainda não me decepcionou: O que vi só por causa do seu comentario achei bom (documentário do Simonal)
    Ás vezes tenho dúvidas se as pessoas veem o mesmo filme que o diretor filma…
    Esse À Deriva me surpreende pelo que vc fala ele parece totalmente diferente de tudo o que o diretor fez anteriormente e esse diretor é reto e sem floreios (sei pelas entrevistas – como não sou fan de filme brasileiro não iria jamais ver um treco com o pavoroso nome de cheiro de ralo!!!! cruzes! Arrepia só de pensar!).
    Enfim vou tentar assitir esse À Deriva gostei de saber que aborda situação de familia e filhos.
    Parabéns pela resenha e pelo blog sempre ótimo!

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