E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht. 2007)

E Buda Desabou de VergonhaQueria mostrar o efeito da guerra sobre as crianças. Se vivem essa violência, a copiam e acham que é o correto.” (Hana Makhmalbaf)

Eu fiquei na dúvida em qual caminho seguiria para iniciar a falar de ‘E Buda Desabou de Vergonha‘. Se já pelo drama da pequena protagonista, ou se pelas brincadeiras de criança que também estão na trama, mas por conta do que citaram nela vi que os adultos influenciaram nisso.

Assim, parto da fala acima da Diretora. Que me fez pensar nas crianças de todo o mundo, já que a violência urbana não se restringe a poucos países. E mesmo dentro de um mesmo país há nichos que quando vemos alguma é muito mais pela mídia. Sendo que as crianças que convivem de perto com essa violência serão mais testadas na sua essência. Como nas favelas, enquanto algumas crianças brincam inocentemente, outras já tenderão para o lado do crime.

Dai, me pergunto se as brincadeiras na infância teriam mesmo grande influência na formação do caráter da criança? Lembrei-me de quando quiseram impetrar um politicamente correto em simples cantigas de rodas. Cantei muito a ‘Atirei o Pau no Gato’, e nunca me vi motivada a machucar um.

Acreditar, ou melhor, creditar que todo o caráter já nasce com a pessoa seria também dizer que não há recuperação para todos que seguem o caminho do antiético. Algo vem de berço sim, mas também uma parte é formada nesse início de vida: na infância. E é onde entra o adulto: em passar boas lições, como também observar as atitudes das crianças. Porque pode haver certos indícios na infância para um desvio comportamental futuro. Como pistas a seguir, mas que por vezes passam despercebidas.

afeganistaoA história do filme se passa no local onde a grande estátua de Buda foi destruída pelos talibãs, em Bamiyan, no Afeganistão. Onde uma população mais carente foram viver nas cavernas que ficaram após a destruição. Uma favela afegã. Um povo que convive, ou que vive num estado de guerra.

Dentro de uma dessas cavernas vive a pequena Baktay (Nikbakht Noruz), com a mãe e uma irmã ainda bebê. Com a ida da mãe até o rio para lavar roupas Baktay fica tomando conta da irmãzinha. Algo tão comum em muitos lares no mundo inteiro.

Na caverna ao lado, vive o pequeno Abbas com a sua mãe. Abbas ao fazer o seu dever de casa, lê o texto em voz alta. Baktay, meio irritada porque se a irmãzinha acordar, lhe dará mais trabalho, o repreende. E nessa discussão, ela descobre que se aprender a ler, conhecerá muito mais histórias. Decidindo então a ir para a escola.

Então iremos acompanhar toda sua saga ao querer estudar.

Primeiro, ela terá que conseguir comprar o caderno. Não é nada fácil. Ela nos leva a acompanhá-la com coração apertado. Noutras, nos leva a sorrir. Ou que por conta dessa dificuldade na compra, nos entristece ao ver com o que fazem com o caderno dela.

Depois, o drama em conseguir uma escola que aceite meninas. A única que existe fica bem distante. E no meio desse caminho… um grupo de meninos brincando de talibãs. A fazem de refém. Mais tarde eles brincam de soldados americanos.

meninos-brincando_vovo-moinaAqui, temos algumas reflexões. Crianças gostam de brincar de mocinho e bandido. Copiando filmes, livros, ou até o meio em que vivem. E isso não é indicador de algo ruim. O que irá pesar sim, será aquilo o que o adulto dirá sobre tais fatos. A criança será um mero repetidor. Nem estou contando com as que já mostram uma tendência sociopata.

Nesse filme, se vê uma população bem carente de recursos. Assim, esse grupo de meninos podem ter aprendido pelos livros escolares, ou mesmo por curiosidade, perguntando aos adultos do porque daquela destruição toda. Conhecendo a História mais recente do seu país. Mas a fala que faz referência ao Vietnã denota um peso maior, e que foi recebido por adultos. Então foi algo lido, ou ouvido, e não algo visto.

Se naquela região há um tipo de conflito, se nas nossas cidades o narcotráfico é que gera a violência, claro que quem mais irá sofrer as consequências serão as crianças. O direito de brincar nas ruas, ficará impraticável.

e-buda-desabou-de-vergonha_01Com tudo isso, para mim, o conflito maior em ‘E Buda Desabou de Vergonha‘, foi a dificuldade para a mulher estudar. É algo da cultura deles. Que são poucos os que permitem. No filme, se vê que há muitas mais turmas de meninos. Baktay teve também que disputar por um lugar para sentar. E com aquela professora… aquela turma de meninas não irão longe nos conhecimentos.

A atriz que faz a Baktay é um doce de criança. Não tem como não se apaixonar por ela. O que faz o Abbas, também. Ele será o pequeno grande herói para ela. Muito embora ela seja muito mais corajosa que ele, por ser mais destemida. Mas ele se mostra mais centrado. Mesmo que aos olhos de muitos possa denotar medo, era a solução mais acertada para escapar do cerco…

Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Eu gostei do filme. De querer rever. Mas o filme poderia ter sido muito melhor. Não sei se o vi com um olhar mais feminista, dai pesar contra esse tipo de cultura onde a mulher fica à sombra dos homens. Então, se o que a Diretora quis foi somente mostrar os malefícios das guerras perante as crianças, acabou se perdendo. Ou, eu me perdi por focar mais na dificuldade da menina em estudar. Nesse contexto sim, o filme foi excelente.

Bravo Baktay! Por ser uma criança que também gosta de brincar! Além da sede por querer aprender a ler e escrever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht). 2007. Irã. Direção: Hana Makmalbaf. Elenco: Nikbakht Noruz (Baktay), Abbas Alijome (Abbas), Abdolali Hoseinali (Talib boy). Gênero: Drama, Guerra. Duração: 84 minutos.

P.s: A ilustração dos meninos brincando, trouxe daqui: Histórias da Vovó Moina.
http://vovomoina.blogspot.com/2009/06/as-aventuras-da-dupla-dinamica.html

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