ZELIG

“A existência humana precede sua essência.” Jean-Paul Sartre

“Eu queria ser qualquer outra pessoa.” Woody Allen

A elegância, o charme, o carisma, a criatividade, o humor, são marcas registradas do artista Woody Allen.

Zelig é um dos filmes que ainda não havia assistido desse genial diretor, e depois da sessão senti-me premiada pois é uma obra-prima incontestável.

Woody Allen criou o personagem Leonard Zelig fora dos padrões, digamos, normais. Zelig é imprevisível, podendo aparecer em qualquer canto do mundo que quiser, tomando formas ou características humanas a seu bel prazer, transformando-se em chinês, índio, magro, gordo, negro, branco, pobre, rico… só não tomou forma feminina; e sob várias personalidades psicológicas. É um personagem-camaleão com essa habilidade de mudar de características mentais e físicas de acordo com o seu interlocutor.

Zelig foi realizado na década de 80, e é um dos 40 filmes de Woody Allen, um dos diretores mais ativos da atualidade, produzindo um filme por ano. Os cariocas foram contemplados pelo Centro Cultural Banco do Brasil com a retrospectiva completa desse ícone da sétima arte. De fato, alguns filmes são difíceis de se encontrar, até mesmo os dessa mostra, algumas preciosidades em película, uma das cópias que conseguiram na Espanha, infelizmente a alfândega não liberou a tempo, e tiveram que passar a em DVD para que o expectador não perdesse a viagem, óbvio.

Leonard ZELIG é um pseudo-documentário nada convencional que hora transita pelo mundo real, hora pelo ficcional, e é isso que torna a obra brilhante e especial. O próprio Woody Allen faz o papel-título  supracitado homem-camaleão, capaz de aparentar e agir como qualquer pessoa que estivesse por perto. Capaz de adquirir características físicas e comportamentais, idem. Zelig tira qualquer um literalmente do sério.

Cheguei à conclusão que somos um pouco Zelig, tanto no mundo real como no virtual. No mundo real, certamente adquirimos características comportamentais de acordo com o ambiente. Apesar de achar que o ambiente não influi no nosso modo de agir, mas nós é que influímos nele, pode acontecer o inverso, ou seja, agirmos de acordo com o ambiente que nos cerca, e somente naquele momento, depois voltamos pacato para a nossa rotina. Entenda-se que isso não é regra. Um fato interessante para ilustrar essa história de comportamento e que virou caso de polícia recentemente nos noticiários, são de pessoas se passando por profissionais da saúde (dando consulta, medicando): vide alguns pseudo-médicos e pseudo-advogados saindo algemados de seus respectivos “consultórios”.

No mundo virtual isso é mais freqüente de se constatar. Atrás de uma tela de um PC, o interlocutor anônimo pode tomar a forma que quiser, poder ir muito além de Zelig, transportando-se de uma anatomia física e mental masculina para uma feminina. Duvida? No mundo virtual quase nada é impossível.

Somos talvez uma ilha cercados de ZeligES por todos os lados.

Ele é a tentativa de construir a própria identidade a partir do outro e das relações sociais e o contexto em que está inserido. O modo de agir ou de se relacionar em cada espaço social podendo ser o familiar, na escola, trabalho, igreja, nem sempre é igual. Alunos agem de uma forma na escola e outra em casa, por exemplo… tornou-se algo corriqueiro no meio cultural. Também noticiário rotineiro, o quebra-quebra e o vandalismo nas escolas e ruas e a “santidade” em casa.

Há pessoas que mudam radicalmente de personalidade, preferências, gostos constantemente é fato. Constroem sua identidade ao longo da vida ou da noite pro dia.

Zelig conseguia essa façanha. Poderia ser quem bem quisesse e quando bem entendesse. Era o objeto de estudo de muitos. Até que apareceu uma psiquiatra, a Dra. Eudora Fletcher (Mia Farrow) que tentou “estudá-lo” e curá-lo, e assim resolveria seu próprio problema de auto-estima. Ao lado da médica, ele também se torna um psiquiatra. Mesmo assim, ele aceita ser objeto de estudo e tratamento dela. E em uma das sessões Zelig, sob hipnose, consegue-se algum início de tratamento. Ele diz que se sente mais seguro pegando formas emprestadas daqueles que encontra. Diz também que a ama que gostaria de dormir com ela e que ela é adorável. Acaba saindo verdades que talvez ela não quisesse ouvir; algo do gênero “Você cozinha mal; as suas panquecas são ruins, quando você não está olhando, eu as jogo fora”. A psiquiatra consegue desvendar o mistério aos poucos. Em uns dos diálogos isso fica evidente que ele adota esse mecanismo que lhe permite mudar de forma para se fundir com o seu ambiente imediato, a fim de se proteger, uma autodefesa do mundo que o circunda. Formidável!

Dra. Fletcher: “ O que você entende por seguro?”

Zelig: “É mais seguro ser como os outros.”

Dra. Fletcher: “ Você quer estar em segurança?”

Zelig: “Eu quero ser amado.”

A história acontece entre os anos 20 – 30, e ele é considerado um herói. Todos querem conhecê-lo e saber a sua história. É um filme grandioso, considerado excepcional pela crítica. Tem apenas 79 minutos de duração. Filme obrigatoriamente indispensável.

Karenina Rostov

*****

Como documentário, há presença de um narrador tipo cobertura jornalística completa a cada passo dado pelo personagem.

Zelig recebeu as melhores críticas no ano de lançamento e ganhou o Prêmio Pasinetti no Festival de Veneza.

“ Woody Allen harmonizou todos os seus talentos e fez um filme que finalmente merece a honra dos enciclopedistas e a condição de obra-prima.” Leon Cakoff, Folha de São Paulo, 1984.

SINOPSE

A história (fictícia) de um homem camaleão, Leonard Zelig, inseguro e neurótico, que se obriga a imitar física e mentalmente qualquer pessoa que esteja em sua companhia. Tenta um tratamento com a Dra. Eudora Fletcher, mas vira celebridade nacional e aparecem manchas do seu passado, como furto e bigamia.

FICHA DO FILME

Título original: Zelig
Diretor: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Woody Allen, Susan Sontag, Saul Bellow, Irving Howe, Garrett Brown, Michael Jeter
Gênero: Comédia
Duração: 79 min
Ano: 1983

Por: Karenina Rostov.  Blog: Letras Revisitadas.

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2 comentários em “ZELIG

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