O Exorcista (The Exorcist. 1973)

o-exorcistaOs anos 70 realmente foram importantes para o cinema. Lá foi divisor de água na vida de Martin Scorsese, fez um panorama de um mundo em crise, em guerra, e claro, com medo. O cinema fez um estudo completo do que foi aquela década, contando histórias que vão da superação (como Rocky) à solidão (como Táxi Driver). Mas lá no meio de tantas obras primas, havia um terror que chegou chegando, invadindo a cabeça e a mentalidade de uma nação fervorosamente religiosa e que estava passando por uma crise tenebrosa. O Exorcista conseguiu ir além de um filme de terror.

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William Peter Blatty precisava pagar as contas, e durante a faculdade, escreveu o que seria o seu Best Seller e consequentemente o passaporte definitivo para o cinema. Do livro que escreveu, construiu um roteiro que podemos sem medo dizer que é a xérox do original. O filme chegou às mãos de William Friedkin, um diretor que estava em alta no começo da década com filmaços como Operação França, pelo qual recebeu um OSCAR. O filme pronto foi como um choque na sociedade. Tratar de um tema tão delicado, que envolvesse religião e dúvida quanto a fé poderia ser arriscado. Tanto que até hoje, polêmicas em cima de polêmicas cercam o filme. Só que O Exorcista não deve ser visto apenas como um filme de terror.

Chris MacNeil (Ellen Burstyn) é uma atriz de muito sucesso. Alugou uma casa em Washington, que está servindo de locação para seu novo filme, um musical dirigido por um excêntrico e beberrão diretor, Burke Dennings (Jack MacGowran). Ela levou junto o casal de empregados, a secretária de todas as horas Sharon (Kitty Winn) e a filha de 12 anos Reagan (Linda Blair).

Na casa tudo está ocorrendo bem, tirando as piadas de humor duvidoso por parte de Burke dirigidas a Karl, um dos empregados. Chris e Reagan tem uma relação que vai além da paternidade e amizade. Mas algo mesmo assim mantém elas distante uma da outra. Na solidão da pré adolescência, Reagan encontra conforto numa mesa de ouija, um jogo onde ela pode conversar com espíritos. Os dias vão passando e barulhos estranhos começam a rondar a casa, Reagan começa a demonstrar um comportamento estranho, profere palavrões e protagoniza cenas bizarras em casa. Preocupada a mãe procura ajuda médica.

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Começam um tratamento que não surte muito efeito a principio, Reagan começa a tomar remédios controlados e seu estado só piora. Ela se transforma num monstro, e quando tudo começa a ser ligado a esquizofrenia, as suspeitas de possessão demoníaca começa a ser evidente. Chris que nunca acreditou nisso começa a procurar desesperada a ajuda de tudo e todos.

Do outro lado há o padre Damien Karras (Jason Miller), uma versão católica de Rocky Balboa, tanto na fisionomia quanto no psicológico. Ele perdera a mãe recentemente e tem passado o tempo duvidando da própria fé. Há também o padre Lankester Merrin (Max Von Sydow), que há muito tempo (história contada na bela porcaria Exorcista o Início) enfrentou o demônio e crê que ainda há contas a serem acertadas entre ele e o demônio, o Pazuzu.

As coisas começam a piorar depois que o diretor Burke é brutalmente assassinado e o intrometido Tenente William F. Kinderman (Lee J. Cobb) parte para a investigação. E também Reagan demonstrando seu lado demoníaco de maneira mais que assustadora, com voz engrossada, força sobre humana e mais ofensas.

O demônio é mentiroso e usa disso para brincar com as pessoas, e o caminho até o exorcismo será marcado por espinhos e pedras. O padre Karras e o padre Merrin terão problemas tanto com o demônio quanto com sua própria fé. O mesmo para Chris que passará pelo mesmo aperto.

Presente em todas as listas de “Melhores filmes de terror do cinema”, O Exorcista é um filme que consegue ser imparcial ao que tange o tema da religião. Em nenhum momento o filme defende ideologias e nem faz pregações sobre o tema. Apenas mostra o que tem que mostrar, a interpretação do lado religioso cabe ao espectador ver, e com isso, o filme alcança o seu maior triunfo. William Friedkin, conseguiu criar um suspense incrível em cima de um tema que geraria polêmica atrás de polêmica. E ele conseguiu se sair bem e ainda por cima superar as espectativas.

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Baseado no próprio livro, William Peter Blatty nos oferece detalhes incríveis de uma situação que vive no imaginário das pessoas há muito tempo. Baseado em uma história verídica, ele criou toda a sua trama conseguindo agradar vários estilos. O filme infelizmente engoliu alguns, mas conseguiu com uma precisão cirúrgica explorar outros de forma magistral. O drama constante e o suspense marcado por pouco grito e muita coisa chocante, criam um clima perfeito para o enredo e com muita competência, Friedkin conseguiu repassar isso na tela.

A direção é ágil, beirando a perfeição. Ele se agarra aos elementos técnicos e cria um espetáculo visual tremendo. Que fotografia linda! O uso de luz, principalmente na seqüência do exorcismo chega a ser perfeito.

O som é outro estouro, ainda mais na versão restaurada de 2000 (aquele telefone ainda me deixa de cabelos em pé). Os barulhos deixam tudo mais tenso e essa jogada consegue deixar as cenas com uma tensão deliciosa, coisa que as desnecessárias continuações esqueceram de ter.

Mas uma coisa que me deixou muito apavorado foi os rostos do Pazuzu que aparecem em certos pontos do filme. Note que não há som que indique a aparição deles (se fosse hoje em dia teria uma música e o filme perderia uns 20% da graça), o silêncio é o que causa o tau susto. O melhor é a sensação que deixa. Por umas semanas andei vendo aquele rosto pela casa e claro, fiquei apavorado. Ainda bem que os deuses conspiraram ao meu favor e isso acabou, mas veja o que um bom filme de terror causa. Duvido que outra produção de terror consiga deixar essas sensações por algum tempo.
Outro ponto que não poderia deixar de destacar é a construção da trama e das personagens. Mesmo que paralelas, conseguem andar juntas e entregar um resultado maravilhoso. Com uma montagem caprichada, o filme parece contar 3 histórias: Chris MacNeil e seus probelamas com a filha e a morte de Burke Dennings, Padre Karras e seu dilema com a fé, e Padre Merrin e seu inimigo, o Pazuzu. E tudo se junta ao final do filme, as três histórias e seu desfecho que para uns é o esperado e para outros ainda surpreendente.

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Atuações perfeitas e muito convincentes completam o filme. Dez indicações ao OSCAR, o primeiro filme de terror a ser indicado (merecidamente) a melhor filme e vencedor em duas categorias: Roteiro Adaptado e Som.

Um filme histórico, e certamente um dos melhores do gênero.

Nota: (não poderia ser outra) 10 e com aplausos em pé!

The Exorcist, 1973 (EUA)

Direção: William Friedkin
Atores: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran
Duração: 123 min

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4 comentários em “O Exorcista (The Exorcist. 1973)

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