Central do Brasil (1998). Lendo o Brasil


Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Acabo de assistir ao filme “ Central do Brasil” e venho para casa com a alma esfrangalhada. Que país, meu Deus! que país! E entrando na garagem do meu edifício pergunto a um funcionário o que houve com o filho de um dos trabalhadores do condomínio. Ouço que morreu por descaso num de nossos hospitais, e que para enterrá-lo o pai teve que passar uma lista entre os moradores.

Que país! Não sei o que é pior, se o que eu vi na tela ou o que me impingem no cotidiano.Será isto realmente um país?

“Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento”.

Terei que publicar continuamente certos poemas denunciadores, sobretudo um intitulado “Sobre a atual vergonha de ser brasileiro”?

Saio do filme do Waltinho com uma cena cravada na cabeça. Entre tantas, tão cruelmente brasileiras, uma, rápida, rapidíssima, instala-se em mim como uma bruta metáfora da brasilidade. É aquela em que o vagão do trem de subúrbio é filmado vazio e, de repente, pelas suas janelas, mais que pela porta, despeja-se uma horda de bárbaros barbarizados, Entram com velocidade e perícia, como atletas da miséria cotidiana, e ocupam, em silêncio, imediatamente todos os lugares.

Imagino, diante disto, o pasmo dos alemães que deram o prêmio a esse filme em Berlim. Devem ter pensado que era um truque surrealista do Waltinho para impressioná-los. Não é assim que se entra num trem. Nem mesmo quando ele vai para Auschwitz. E aquele, ia. Imaginem o que sentiriam os gringos se tivessem sido filmados os malabaristas suburbanos que fazem “surf” no teto dos trens desviando-se das “ondas” de fios elétricos.Waltinho foi discreto, só filmou aquele assassinato a sangue frio do pivete, que faz contraponto com o assassinato a sangue frio, por bandidos, nesses dias, da estudante Ana Carolina e do comerciante alemão na Barra. A vida aqui não vale nada. Mata-se como quem pisa em baratas ou se expreme formiga com os dedos.

Este é um país onde se entra pela janela. Ou porque a porta é estreita ou porque não há lugar para todos no vagão. O Brasil subverteu um versículo bíblico, que diz : “Entrai pela porta estreita que largo é o caminho da perdição“. Aqui se a porta não dá, arromba-se a janela, tanto no vagão quanto no serviço público, ou na lei eleitoral, do mesmo modo que se ultrapassa pelo acostamento e se enriquece construindo edifícios de areia.  Essa a nossa bíblica e histórica perdição.

Tenho ouvido pessoas dizerem dos momentos que mais as emocionaram nesse filme. Ele é rico de cenas miseráveis. Mas o que é pior para nós, é que o diretor não faz demagogia nem comício. É a força pictórica do que é mostrado com cruel perícia, que nos toca. Há uma tristeza, uma fatalidade, um remorso, uma denúncia naquelas cenas de multidão compacta marchando para o nada, diariamente, nos vãos e desvãos da Central do Brasil. Da mesma maneira que há uma solidão, um exílio, um desgarramento da história naqueles ônibus que vão para o interior levantando poeira e desesperança. Nesse filme a paisagem seca nos assola e a arquitetura nos oprime. Nos oprime a arquitetura social da Central do Brasil, nos rebaixa a arquitetura dos conjuntos habitacionais de ontem e hoje.

Mas será que o Brasil é só isso?

Estou na Sala Cecília Meireles assistindo ao suave e belíssimo concerto do “Les arts fleurissants”, onde a música barroca de Haendel sublima o drama pastoril da ninfa Galatéia e do pastor Acis perseguidos pelo monstro de um só olho Polifemo. Ali estamos, beatificamente também, com um só olho. Somos uns previlegiados. O olhar mostruoso, o deixamos na miséria humana que recomeça tão logo saimos do teatro. Por isto, tento prolongar o estado de beatitude comprando vários discos do conjunto, para enfrentar as balas do cotidiano .

Deve haver um outro Brasil, que não aquele corporificado no filme.É preciso urgentemente que haja esse outro país. Na esteira da “Central do Brasil” que conta (também)a estória de analfabetos que pedem à personagem de Fernanda Montenegro que escreva cartas aos seus familiares, vejo nos jornais que o governo FHC não resolve os problemas da educação, não tem sequer projeto para os chamados “analfabetos funcionais”.(Aliás, teve, mas jogou-o criminosamente na lata de lixo, conforme a história do Proler).

E porque acho que a leitura é que pode transformar esse país, vou a Juiz de Fora e faço à Bioblioteca Municipal Murilo Mendes, a doação de cerca de mil livros do meu acervo.Vou também para a inauguração de uma rua com o nome de meu pai, que aprendeu a ler sozinho e sozinho aprendeu francês e esperanto. Na agora  rua Jorge Firmino de Sant’Anna, a presidente da associação de moradores diz, espontaneamente, que quer instalar ali uma sala de leitura. E,  coincidentemente, um ex-colega de ginásio, o agora doutor Ronaldo Tourne , ali me conta uma estória comovente. Há tempos começou a comprar livros para seus pacientes, e constatando que isto fazia bem à saúde deles, fez uma pequena biblioteca. E coisas surpreendentes começaram a acontecer. Ia, por exemplo, dar alta a um paciente e este lhe pediu  para adiar a alta porque precisava saber o fim de uma estória que estava lendo. O médico achou interessante o pedido, mas alguém chamou sua atenção comentando que aquilo parecia mentira, pois o referido doente era analfabeto. Ronaldo, então, vai a ele, pergunta-lhe se é analfabeto e o doente confirmando se explica:-” É doutor, sou analfabeto mesmo, mas o paciente do leito 12 lê para mim… e eu  leio na leitura dele”.

A doença do Brasil é da falta de leitura. A dos analfabetos, a dos analfabetos funcionais que não sabem ler e, sobretudo, a dos políticos e da elite que lêem errado o país.

Por: Affonso Romano de Sant’Anna. Em 24.04.1998-O Globo. http://www.affonsoromano.com.br/

Nota do Autor (Jan/2010): Esse texto estará no próximo livro: LER O MUNDO.

Central do Brasil. 1998. Brasil. Site oficial: http://www.centraldobrasil.com.br/front.htm

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4 comentários em “Central do Brasil (1998). Lendo o Brasil

  1. Belo texto!

    Enquanto alguns abrem Bibliotecas, levam livros para os hospitalizados… A Biblioteca Municipal de Irajá (RJ) foi fechada para dar lugar a um comitê de um político. Uma lástima!

    E a história do Dr. Ronaldo Tourne… é comovente!

    Novamente, meus agradecimentos ao Affonso Romano pelo apreço a esse blog!

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  2. Val, num momento em que falamos tanto de livros e idas aos teatros e cinemas não pode ser uma mera coincidência esse texto aqui, num “quintal tão meu”, onde por mais absorvida que eu esteja com meu trabalho é certo que o iria ler! Não, coincidências não existem e quando existem são apenas coincidências!
    Num momento em que eu achava que deveria desistir por sentir-me tão sozinha a colher e recolher livros, vídeos e contar histórias, encontrar essa mensagem é um alento.
    Então que insistirei que vale a pena e dará certo, uma a uma as cabecinhas de fósforos pensantes e incendiárias farão fogo de verdade nesse país!
    Agradeço a quem? A você ou ao seu mais novo amigo AFRS?
    Beijo nos 2.

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    • Rozzzi, eu também pensei na Coleção Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, que já está aqui, esperando você – Casa da Vida -, para levar para as criancinhas. Por saber que os livros estão em boas mãos 🙂

      O agradecimento vai a todos nós que também queremos um Brasil mais culto.

      Beijão,

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  3. O texto realmente é belo e o filme é uma obra de arte.

    Uma pena que não posso dizer o mesmo da história contada em CENTRAL DO BRASIL – retrato fiel do nosso país mostrando o farrapo humano que é o nosso povo e me faz sentir impotente, de mãos atadas, já que doze anos depois de seu lançamento, notamos que nada mudou e a tendência é piorar. Com a questão de aprovação automática o município do RJ despejando toneladas de crianças exibindo seus certificados de analfabeto. Pais mandando seus filhos para que não percam o bolsa-família e parindo cada vez mais já que cada criança matriculada, VALE.

    O filme poderia até se chamar ANALFABETISMO NO BRASIL; CENTRAL DA MISÉRIA. CENTRAL DO ANALFABETISMO etc…

    Triste ainda a professora ter que se humilhar escrevendo cartas para ganhar uns trocados e tentar sobreviver.

    Bem que queria viver em um CENTRAL DO BRASIL que pudesse encostar no travesseiro sem me preocupar com o dia seguinte, com problemas que os governantes deveriam fazer isso por mim…

    Acho que viajei… [:D]

    Adorei o texto do Affonso!

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