AVATAR: ” EU VEJO VOCE “

Avatar_2009_posterPor: Affonso Romano de Sant’Anna.
Quando terminou a sessão do filme “Avatar“, meu vizinho de cadeira, com certo ar de superioridade intelectual comentou com sua mulher: “-É… Interessante….“. Tive vontade de lhe dizer: “Cara, é só isso?“.

Na verdade, o filme é interessantíssimo… apesar de seus chavões e lugares comuns. Claro que é a repetição clássica da luta do bem contra o mal. Mas há algo mais. Talvez se pudesse dizer que uma das chaves do filme é a frase pronunciada por aqueles seres estranhos, que ao invés de dizerem: “eu te amo” dizem “eu vejo você“.

Reconhecer o “outro” e dar a ele o direito de ser “diferente” é a essência dos tempos atuais. Quem ama, re/conhece, vê o outro na sua singularidade, ao invés de querer transformá-lo no idêntico.

No fundo, “Avatar” é também um filme contra o complexo industrial/militar dos Estados Unidos. E embora alguns pensem que é uma simples condenação da era Bush, o diretor James Cameron revelou que começou a fazer o filme na época de Clinton. É expressamente contra “milicos” imperialistas, contra o colonizador autoritário.

Coincidentemente, neste dias revi “E o vento levou” numa edição em que há um longo e precioso “making off”. Pois enquanto o filme de Selzenick tirado do romance de Margareth Mitchel é um deslavado reforço ao conservadorismo sulista norte-americano, esse “Avatar” de Cameron é crítico dos desmandos imperialistas americanos ontem e hoje. Se “E o vento levou” retrata a ideologia do antigo Sul dos Estados Unidos, “Avatar” pretende ser o Norte mais esclarecido e crítico.

Há uma certa esquizofrenia na vida americana que o filme retrata, por isto, alguns dos personagens americanos mudam de lado e vão defender os primitivos “avatares”. É como se além do “bom selvagem” tivéssemos agora o “bom civilizado”. São os idealistas, o utopistas envolvidos em batalhas sacrificiais defendendo os mais fracos e a ecologia do planeta. Nisto se opõem aos personagens cínicos, como aquele encarnado estupendamente por Clark Gable de “E o vento levou”- o jogador, o investidor, o dândi que tira proveito de tudo e que, para consolo da platéia, tem até alguns gestos humanitários.

Cameron ao fazer “Avatar” apropria-se do mito do herói predestinado, que tem uma marca original/originária: seu herói é um cadeirante. Apropria-se de outros mitos, como o da “árvore da vida” de que trata o livro de Gênesis. E insere-se nas lutas ecológicas pela salvação da “Mãe Natureza”. Por outro lado, a dupla amorosa, repete estruturas do romance do século 19. A cena de encontro da par romântico, lembra o encontro de Iracema/Martin  e Peri/Ceci.

É um evidente avanço tecnológico e ideológico em relação aos filmes de  fantasia científica de Spielberg. Enquanto os filmes de ficção científica anteriormente especulavam  sobre outros planetas, este é uma alegoria sobre o que ocorre na terra. Alguém poderia até estudá-lo em relação ao “Planeta dos Macacos”. O macaco é o nosso pré-avatar, já o avatar é o macaco imaginário de amanhã.

Há muitas leituras possíveis deste filme “interessante”. Suas origens remetem para a internet que criou seres artificiais chamados de  “avatares” explorando uma “second life”. Mas o filme de James Cameron, em 3 D, procura uma outra dimensão ideológica,  inverte a situação e nos põe de volta na realidade.

De resto, se poderia também dizer que o filme reconstrói ingredientes clássicos dos contos de fada com reis, rainhas, príncipes, figuras mágicas da floresta, etc. Enfim, pode ser muita coisa. Menos simples e pobremente um filme apenas “interessante”.

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3 comentários em “AVATAR: ” EU VEJO VOCE “

  1. Tardiamente encontro um comentário que tanto procurei.Após assistir Avatar,independendente de Oscar ou não,quis gritar aos 4 ventos que é um grande filme.Não encontrei eco;qdo muito esse seu :”È,interessante”.È um grande filme! Quem não viu isso ,não tem conciência ou tão entendeu nada.Com tecnologia de ponta ( que bom),daqui há 100 anos ainda será lembrado ,assim como …”E ..o vento levou”.
    “Eu vejo voce”é muito mais do que Eu te amo.
    Obrigada por essa oportunidade Affonso Romano de Sant’Ana.

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  2. Dentre muitas coisas de belas e interessantes que vi nesse formidável filme, a frase “Eu vejo você” foi o que mais chamou a minha atenção, desde que a ouvi não saiu da minha cabeça, e sempre tive a curiosidade, bem mais do que isso, queria saber o motivo pelo qual essa frase tão simplória, mas que guarde em si uma um significado tão provocativo em nossas mentes. Bem, vendo o seu texto, sobre o filme, e, em especial, sobre a frase em questão agora entendo o motivo, graças a sua visão apurada, me fez ter a resposta para aquilo que eu já sabia, mais não sabia me expressar. obrigado!

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