Danificado pela Educação (An Education. 2009)

Estreando agora, no Brazil, “Educação” é um daqueles filmes que nos dá impressão que a gente já assistiu, mas que não deixa de ser interessante. Segundo a crítica, a grande “atração” do filme é Carey Mulligan, que antes desse filme, eu apenas a tinha visto em Orgulho e Preconceito (2005), e recentemente esteve no remake Brothers (2009). Sim, ela é uma graciosa atriz e tem uma bela atuação como a estudante de 16 anos seduzida por um homem mais velho.

Recentemente, li o livro “An Education” (originalmente lançado como um artigo pessoal de Lynn Barber, na revista “Granta” e depois foi expandido e se tornou em seu livro de memórias). Na verdade, o roteiro de Nick Hornby tem como fonte o pequeno artigo da revista (Aqui se tem uma noção.), e não no livro de memórias.

Como se sabe, a narrativa literária nos dá uma plenitude profundamente detalhada, descrevendo os eventos, a repetição de diálogos e assim por diante. O leitor varia em sua capacidade de interpretar um texto, usando a sua “imagem mental de palavras“ (Chatman 40). Por tal, sou consciente dos problemas que a termo fidelidade evoca. Optando ver um trabalho de adaptação como tradução, e o que ele sugere “[como] um esforço de princípios de transposição inter-semiótica, com inevitáveis perdas e ganhos típicos de qualquer tradução” (Stam 62). Assim, vejo que o roteiro de Nick Hornby traduz a proposta de Barder, nos fazendo refletir sobre nossos valores pessoais, atitudes e escolhas.

Na primeira cena do filme, Jenny (Carey Mulligan) está na chuva em uma parada de ônibus com o seu cello. A cena serve de pretexto para o judeu charmoso e sofisticado David (Peter Sarsgaard) lhe oferecer uma carona. Da primeira vista, achei que a chuva acabou deixando o “óbvio” que Mulligan tem traços faciais, os quais me deixaram claro que ela não convenceria como uma estudante de 16 anos, mas isso logo foi abafado com uma boa maquiagem, e uma dose de talento da atriz nas cenas seguintes.

Tenho que admitir que o filme me envolveu. Me fez refletir sobre a vida assim como Lynn Barber relata sobre sua apredizagem com Simon (no filme, o personagem se chama David): “aprendi a não confiar em pessoas, eu aprendi a não acreditar no que elas dizem, mas ve o que elas fazem. Aprendi a suspeitar de que toda e qualquer pessoa é capaz de “viver uma mentira”. Cheguei a acreditar que outras pessoas – até mesmo quando você pensa que conhece bem – são, em última instância irreconhecíveis.” Por tal motivo, achei que o fio condutor para essa história de liberação feminina (nos anos 60), é o personagem interpretado por Peter Sarsgaard. David é uma espécie de Ripley (personagem criado por Patricia Highsmith), no meu ponto de vista. Ele é charmoso, mentiroso e mesmo assim verdadeiro. Quando ele começa a se complicar é facil notar a insegurança também. É um papel muito difícil e Sarsgaard faz com que pareça fácil.

Não apenas os pais de Jenny parecem seduzidos com o charme e as mentiras de David, mas, creio que quem assistir ao filme também vai ficar. Aqui nos Estados Unidos se tentou criar uma polêmica em torno do fato que David (trintão!) seduz uma estudante de 16 anos, simplesmente porque o filme nos fazer acreditar que não pode haver nada de errado em um cara mais velho querer mostrar as coisas boas da vida (música de bom gosto, jantares em restaurantes finos, viagens para lugares encantadores como Paris e Roma, e outras coisinhas) para uma jovem sem recursos financeiros. Quando Jenny complete 17 anos, ela tem que pagar a sua dívida de jantares e viagens, e isso só poderia ser pago com a sua virgindade. A sugestão de praticar o ato com uma banana me pareceu até engraçado!.

“Educação” é um filme tímido e não ousado. Lone Scherfig (parte do Dogma 95), não fez um filme para causar polêmica. Por exemplo, quando os pais de Jenny descobrem a verdadeira identidade de David, eles parecem cegos e que tudo para eles, foi como um erro do destino.

Tal como na fonte original, sabemos da vida de David através dos olhos de Jenny. A câmera mostra-nos o que acontece e nos diz a verdade assim como vivido por Jenny. Scherfig mantém a simplicidade da prosa Barber, cobrindo todos os eventos do texto, sem diminuir o centro da história. O filme oferece uma reflexão sobre como a gente pode ver o mundo, revelando um foco entre o que é certo contra o errado. O poder da independência e o conceito de trabalho honesto contra o caminho mais fácil.

“Educação” também se enriquece com o trabalho de Paul Englishby, que escreveu cinco faixas lindas para a trilha sonora. Além disse, as canções escolhidas para embelezar a narrativa são incríveis: vai das faixas marcantes como “Sweet Nothin’s”, o tema de “A Summer Place” e “A Sunday Kind of Love”, até as duas faixas originais (a balada “You’ve Got Me Little Wrapped Around Your Finger” – que aparece com destaque no trailer, cantada e escrita por Beth Rowley, e a balada mais dramática “Smoke Without Fire,” na linda voz de Duffy.

Como bonus, Educação é um filme raro que demonstra tantos aspectos diferentes da vida de uma mulher. A mulher fácil interpretada pela linda Rosamund Pike; a diretora antipática vivida por Emma Thompson, que não quer aceitar a razão que Jenny prefere casar com David, do que continuar seus estudos em Oxford; a professora que tanto se preocupa com a jovem estudante, interpretada por Olivia Williams; a mãe vivida pela talentosa Cara Seymour e Sally Hawkins, a esposa mal amada (adoraria que esse papel tivesse sido mais desenvolvido!).

Apenas lamento que nas premiações desse ano, Sarsgaard e Alfred Molina (maravilhoso como o pai de Jenny) não receberam a mesma atenção que tem sido dado a Mulligan.

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3 comentários em “Danificado pela Educação (An Education. 2009)

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