Ilha do Medo. “…que bom é o amor, que ninguém partilha…”

Ilha do Medo (Shutter Island. 2010) não é um tipo de filme que eu tenho interesse em assistir. Por exemplo, se fosse dirigido por M. Night Shyamalan, eu jamais iria ao cinema (esperaria para ver o filme quando saísse em DVD). Entretando, assinado por Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, tive que ir ao cinema logo na estréia aqui, nos Estados Unidos.

Sabia que o enredo tinha como pano de fundo a tal ilha do título, que funciona como uma instituição mental. Logo na primeira cena, DiCaprio está lavando o rosto, e já dá uma noção que o clima do filme vai ser pesado. De repente, nota-se que ele está indo para tal nebulosa ilha, a qual me fez lembrar Alcatraz e logo me veio a mente: “Um estranho no Ninho.” Quando o “ferryboard” vai chegando no local ao som altíssimo da musica “Fog Tropes”- pensei que barco iria afundar a lá Titanic.

Na verdade, “Ilha do Medo” é um filme muito intenso, com algumas imagens muito preocupante, inclusive crianças afogadas, campos de concentração nazistas, pilhas de corpos, sangue, corredores escuros e bizarros da prisão, pesadelos e alucinações. Contém ainda forte, mas não generalizada, linguagem chula, e tabagismo. Com algumas surpresas e reviravoltas, nos lembra que as coisas podem se transformar drasticamente a qualquer momento.

Scorsese ainda adiciona personagens assustadores. DiCaprio, em outro excelente desempenho (e de vez, perdeu a cara de bebê, e parece um homem!), tenta resolver o caso do desaparecimento de um dos prisioneiros (paciente!) como é enfatizado pelo o médico chefe do hospital interpretado por Kingsley, enquanto é perseguido por seus próprios demônios horripilantes. O personagem tem momentos difíceis, mas DiCaprio habilmente carrega todas as dores nas costas. O resto do elenco também é muito bom, incluindo: Kingsley e Max von Sydow (a voz mais intensa do cinema mundial!), Ruffalo como o parceiro de compreensão suspeita, que concorda com tudo que o personagem de DiCaprio diz, e repete: “boss” a todo instante; Michelle Williams como a esposa maníaco-depressiva (em algumas cenas, não aguentei o olhar de “peixe morto”, que ela usou) e em breve, mas memorável aparições de Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Hayley e Ted Levine.

Martin Scorsese mexe com o cérebro do espectador – em todos os níveis. Ele não trata de resolver um mistério como em alguns instante, pensei que “Ilha do Medo” fosse um primo-irmão de “O Sexto Sentido” ou “ Os Outros.” Apenas no final, notei que o filme é mais sobre a resolução da loucura, mas também não é como “Um estranho no Ninho” (fazendo uma crítica sobre os maltratos dos pacientes nos hospitais psiquiátricos!). O horror do filme intriga sem enganos, sem sobressaltos, sustos, e tece uma leitura sobre o assombro da insanidade. Os ângulos que Scorsese ilustra o filme são maravilhosamente impactantes, que vão se encaixando nos detalhes no decorrer da narração. Cada quadro é bem articulado pela surpreendente fotografia de Robert Richardson e a edição sempre perfeita de Thelma Schoonmaker.

Quando saí da sala de cinema, fui perguntado por meu amigo: “o que achou do filme?” Tive que parar e pensar no que iria dizer, pois ainda estava na minha mente a pergunta feita por Teddy Daniels (Dicaprio), no final do filme, algo como: “É melhor para se viver e ser um monstro, ou morrer como um homem bom?.” Eu, em vez de responder sobre o que tinha achado do filme, repeti a pergunta do personagem de DiCaprio para o meu amigo. Ele disse: “esse filme é uma loucura, e pode ter certeza que vai ser um fracasso!.” Ele, norte americano, já foi logo justificando que o povo daqui (Estados Unidos) não vai apreciar um filme como “Ilha do Medo.” Apreciando ou não, o filme toca em feridas (acho que eles não vão nem prestar atenção), tais como as sugestões de vários medicamentos experimentais, e anti- depressivos. Um exemplo simples, pode ser visto nas escolas públicas do país, onde alunos, (já tão jovens, vivem na base de anti-depressivos). O transtorno bipolar aqui já é algo tão comum quanto ser de credo ou raça diferente. Ainda, não sei dizer o quanto gostei da “Ilha do Medo.” O filme me fez refletir em tantas coisas, principalmente pelo fato como as drogas (legais!) tem tomado conta do dia-a-dia das pessoas daqui.

Muitos elementos fortes são ilustrados por Scorsese ou pelo roteiro de Laeta Kalogridis. Por tanto, esse filme é não uma diversão para um final de semana! Não me importo em repetir que esse não é tipo de filme que gosto de ver. A primeira hora é tão perturbadora como qualquer filme de terror que evito assistir. No final, me senti perdido sem saber o porquê. Então ontem a noite, fui rever o filme querendo realmente saber se Teddy Daniels (DiCaprio) é vítima de uma conspiração elaborada, é esquizofrenico ou ele está apenas enganando os médicos e ao mesmo tempo, nos enganando. A loucura perturbadora illustrada neste filme me deixou a sensação, que ela é sim, contagiosa!.

Ah, tenho que admitir que a trilha sonora do filme é espetacular !. Não é um trabalho orIginal, mas Robbie Robertson selecionou um material extraordinário para o filme. No fim, temos a voz da Dinah Washington cantando “This Bitter Earth” “entrelaçada” com a linda música de Max Richter “On The Nature Of Daylight,” em que ela canta algo como:

…que bom é o amor
que ninguém partilha…
Senhor, esta terra amarga
Sim, ela pode ser tão fria
Hoje você é jovem
Em breve você é velho
Como minha vida fosse como um pó…

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7 comentários em “Ilha do Medo. “…que bom é o amor, que ninguém partilha…”

  1. Olá, Rogério.
    Vi hoje, a Ilha do Medo.
    Amei a trilha sonora, mas ao filme fiquei indiferente.
    Ele também me lembrou Um Estranho no Ninho, mas sem o impacto da época. Sabia nada sobre ele, mas em um hora de projeção já havia “matado” a charada.
    Até o momento, acho apenas curioso. Talvez, a hora em que escrever sobre ele, ache outras coisa, descubra outras leituras.
    Mas tem uma coisa que não perdoo (principalmente) no cinema americano: a luz. A luminosidade nos corredores (sem energia elétrica) do cárcere C é satisfatória (?), mas o personagem de DiCaprio insiste em ficar acendendo palitos de fósforos com watt suficiente pra iluminar a cela…

    T+
    Joba

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  2. Oi, Joba

    Entendo o seu ponto de vista, porem, qual “charada” vc destaca? Aquele final em aberto praticamente fez com que a “charada” nao fosse apenas um fim de um misterio, mas questionamentos sobre a sanidade humana. Mesmo sem saber o quanto gostei do filme, o achei interessante e sem duvida, eh o melhor filme lancado no mercado Americano ateh agora!.
    Sim, o problema de iluminacao nao creio que seja apenas problemas do cinema americano, mas do cinema em geral. Nem mais dou atencao esse detalhes pequenos!
    Valeu pelo comentario!!!
    Forte abraco!
    Rogerio

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  3. eu realmente saí do cinema sem saber se ele era esquizofrênico, se era vítima de um complô ou nenhuma das opções anteriores … achei que o diretor quis deixar a questão na cabeça de cada um.

    tb fiquei muito tensa o filme inteiro pelas cenas bizzarras, pesadas e surreais … algumas vezes não olhava p tela … principalmente qdo haviam crianças mortas e ensanguentadas.

    adorei a trilha sonora e a fotografia … fantásticas!

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  4. Sarah K,

    Concordo contigo, Scorsese realmente deixou a respostas do misterio na cabeca de cada um!

    Eh um filme forte como eu disse e para ser refletido com cuidado. A trilha( gostei tanto que ja comprei!) e a fotografia sao expectaculares( alem do trabalho de direcao de arte e edicao!)
    Valeu por seu comentario!!!

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  5. Achei o filme ótimo! Aborda de forma espetacular a evolucao da psiquiatria… o inicio da abolicao de tecnicas medievais de tratamento (como o isolamento total e a lobotomia) e a introducao de drogas que modificaram o curso da doenca psiquiatrica, a clorpromazina em questao… O local é sim, alem de um “manicomio presidiario”, um centro de estudos e DiCaprio interpreta uma pessoa extremamente traumatizada, que surta, vivendo um classico transtorno postraumatico… No filme ficou claro o beneficio da droga, que fez com que DiCaprio enchergasse a realidade (como ficou claro na cena final no farol) e parasse de fantasiar e dissociar sobre os acontecimentos que levaram ele a “fugir” do problema que ele enfrentou no passado… tanto que estava tudo pronto para nosso protagonista retornar ao continente e retomar a vida normal… O sensacional do filme, pra mim, foi mostrar que DiCaprio ficou tao lucido, mas tao lucido, com o beneficio do medicamento, que viu que nao valia mais a pena viver com as memorias que ele tinha… sabendo que, por mais controlado que ele estivesse, viveria como um monstro… nao tendo mais o porque “inventar” um cenario que fosse possivel levar sua vida, simplesmente optou por se passar por um louco refratario ao tratamento e realizar a lobotomia, o que faria morrer como um homem bom, ou, pelo menos, sem a sensacao de ser um monstro…

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  6. Rodrigo… tu simplesmente “dissecou” o final do filme, eu andei lendo em outros locais, e as pessoas não compreendiam o final, de tanto ler, até pus em duvida o que eu pensava, mas o teu esclarecimento tornou claro. A Frase final dita… Que faz com que percebemos que… Finalmente,e le aceitou os fatos que ocorreram, mas enfim, para que viver com um passado desses, teus filhos mortos por tua esposa, e tu vir a matar o grande amor da tua vida… afinal, que sentido teria… Então… ” O que poderia ser pior? Viver como um monstro (Andrew Laeddis) ou morrer como um bom homem (Teddy Daniels)… Concluindo… Após o final do filme retornando lá ao inicio.. Ele imaginava que tinha chego a ilha de balsa… “Eu apenas, não consigo ficar perto da agua” (Prova o trauma que ele teve com os filhos sendo assassinados no lago).

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