KOLYA (1996). O Exército Conquistado

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A metáfora do filme ‘Kolya‘ é forte no sentido social e político com o que ocorreu com a antiga Checoslováquia. A invasão russa foi uma das causas da estruturação de políticas de controle social, de possibilidades e impossibilidades do livre arbítrio, e da presença de tropas militares internas no país. Já o nome dado no Brasil, ‘Kolya, Uma Lição de Amor’, na minha opinião é outro tipo de lição que não se escapa ao amor de fato, mas a um outro aspecto da afetividade.

A partir de um estado de direito destroçado, entre a guerra fria, e a tomada de poder por linhas comunistas extremamente mecanizadas, a Checoslovaquia passou por um processo de aculturação do que seria uma irmandade eslava. Os valores culturais, desde a tradição e sua manifestação estavam ameaçados, pode-se dizer que não se podia ser quem se era.

Se por um lado a burocracia é chamada de feminina em sua ordenação gradual para se atingir um resultado, por outro na burocracia a utilização desse mecanismo é masculino em sua evidência atroz. A invasão russa traz consigo velhas querelas e preconceito, põe em cheque a união eslava, no sentido de que a linguagem muito próxima se desintegrava em sua manifestação cultural.

Kolya traz consigo o significado de um exército vencedor, o nome representa a conquista. Essa conquista fica implícita no filme e se define pela inocência de uma criança russa que de certa forma quer ser checa, ela deseja resgatar a alegria da expressão da língua eslava e de sua retificação através da cultura.

A história é simples, e passa em 1988, conta que Louka um violoncelista que fora despedido da orquestra por questões político-partidárias e de poder estando desempregado se obriga a enterrar significativamente os seus mortos. Ele toca em funerais. O desejo de um carro que pudesse facilitar o transporte de seu instrumento e de possibilitar melhores ganhos para a sobrevivência o põe em uma situação de ansiedade.

Solteiro convicto aceita um pacto de se casar com uma mulher refugiada russa para que esta obtenha a cidadania e assim adquirir o dinheiro para a compra de seu objeto de sonho, o carro. Ela de fato consegue esse direito e imediatamente foge com seu namorado para a Alemanha e deixa o filho com a avó para que logo voltar e buscá-lo. A avó morre e os familiares entregam o menino a Louka.

A situação é estranha para aquele que deseja se manter na sua singularidade de artista sem família. No momento que aceita Kolya, ao mesmo tempo reintegra-se à sua origem eslava, e ao mesmo tempo encara a sua situação política, e sua decisão de favorecer uma mulher russa refugiada, e ao mesmo tempo põe e risco a vida de um inocente, e assim necessita se recompor como um homem de responsabilidade universal, isto é livre e capaz.

O filme mostra a marcha da Perestróika, e a desintegração do bloco soviético. A conhecida Revolução de Veludo que processou a redemocratização do país. Kolya e Louka buscam se entender, aprendendo uma linguagem irmã que se fortalece com a amizade ao mesmo tempo que questões sociopolíticas.

Com a mudança da política interna, Kolya pode retornar à mãe que vive no oeste da Alemanha, eles se despendem na estação de trem como velhos amigos. Louka retorna a seu país e à orquestra.

Kolya une linguagem, cultura, política, direitos num só movimento representado pela inocência da criança. O menino sem pai, na verdade é “sem pátria” que possui a mesma raiz etimológica. Mais que todas as forças Kolia é o exército que conquista a paz, o vencedor.

Curiosidade: Em 1993 a Tchecoslováquia deixou de existir com a dissolução da federação formando a República Checa e a Eslováquia.

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Um comentário em “KOLYA (1996). O Exército Conquistado

  1. Exelente filme, eu recomendo e se segurem pra não chorar, apesar de uma cultura totalmente diferente os interesses e politicas sociais são quase os mesmos…
    nota 10!!

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