Mary e Max – Uma Amizade Diferente. (2009)

Para quem conhece meus textos já sabem que dependendo da estória do filme, minha preocupação maior é com o público infantil, e ou, adolescente. No caso, sendo o filme para maiores de 12 anos, o foco será neles. Gostaria muito que esse filme fosse levado à sala de aula. E que na presença de Professores, e até de um Psicólogo, fosse então debatido. Há vários temas em ‘Mary e Max – Uma Amizade Diferente‘ que carece desses jovens serem confrontados. Além de muitos acharem engraçado tripudiar de um coleguinha “diferente”… há no filme o bem que faz uma amizade verdadeira.

Para um público com mais… diria que com mais anos em Filmes, hão de se lembrar de ‘Nunca Te Vi, Sempre Te Amei‘. Detalhar muito, traria importante spoiler. Dai, fico com o que nos é contado na sinopse, de uma troca de cartas entre duas pessoas que não se conhecem. Com um Oceano de distância entre eles. E que atravessaram longos 20 anos.

Mas se naquele a diferença de idade nem era tanta, entre Mary e Max há sim. O filme começa na década de 70. Num tempo sem internet. Mas como atualmente os casos de pedofilia estão vindo mais a público, para uma galerinha Teen é sempre bom o acompanhamento de um adulto, para que não entre em nenhuma roubada caso resolva se corresponder com um desconhecido. Claro que sem um patrulhamento ostensivo. Se há liberdade entre você e esse menor, é bem provável que lhe conte o que anda fazendo. Esse é um dos motivos para um adulto assistir junto esse filme.

Começando com Mary. Filha única. De um pai ausente, e de uma mãe alcoólatra e cleptomaníaca. Na escola sofre com o bullying. Por ser gordinha; por usar óculos; e até por um sinal de nascença em sua testa. Tem por amigo, um galo. Seus brinquedos foram criados por si: como cópias dos personagens de seu desenho favorito. Sua pequena mesada vem de um serviço que presta a um vizinho que perdeu as pernas na Guerra, e que sofre de agorafobia. Com medo de sair de dentro de casa, ela pega para ele as correspondências. Esse vizinho, terá um papel fundamental na vida de Mary. Um outro vizinho também, um menino grego. Que também é um excluído pelos colegas, por ser gago. Mary tem uma sede de aprender. E além de chocolate, adora leite condensado. Gostaria de ter uma amiguinha com quem pudesse conversar e brincar.

Sobre os pais de Mary. Primeiro, fica a ideia de que grande parte do caráter de uma pessoa, é nato. Depois que, mesmo que o meio em que vive lhe é desfavorável, sendo alguém moralmente ética será difícil corrompê-la. Mary é um doce de ingênua, mas possui uma intuição que lhe mostra o que é certo, do que está errado. Assim, mesmo vendo a mãe roubando mercadorias no comércio local, pressente que é algo errado. Numa dessa saídas com a mãe, ela vê um catálogo telefônico dos Estados Unidos. Sua cabecinha curiosa em saber cada vez mais, fica pensando, enquanto folheia, até que para num nome… É quando entra em cena o Max… Mary decide escrever para ele. A princípio, achando que ele também é uma criança.

Mas ainda com os pais dela. Além de cleptomaníaca, sua mãe passa o dia a beber, a fumar, ouvir rádio… Nem um simples botão, costura. Em vez disso coloca pregadores de roupas nas roupas. O pai quando chega em casa se tranca num galpão onde se dedica ao seu hobbie: taxidermia. Transparece no filme que tiveram Mary tardiamente. Mesmo ela sendo um encanto de menina, eles não levam o menor jeito para pais.

Sozinha em casa, sozinha na escola. Mary acredita que pelo menos por cartas conseguirá um amiguinho de verdade. Gentil, além da carta, envia uma barra de chocolate para Max. E fica contando os dias pela resposta. Que vem, mas é interceptada pela mãe. Acontece que o destino estava a seu favor… Ciente de que não mais poderia receber as cartas do Max em sua própria casa, pede que Max envie para a do seu vizinho.

Com a primeira carta de Mary, Max entra em pânico. Mas devido ao seu problema… Um pouco do perfil de Max: tem 44 anos de idade. Vive sozinho na companhia de um periquito, um gatinho que perdeu um dos olhos por maldade de crianças, alguns caracóis e um peixinho que devido ao pânico de Max… Bem, peixinho morto, peixinho posto. Além de uma vizinha que é cega, mas não está nem ai para isso. O problema é que não admitindo ser cega acaba não se adequando a sua realidade. Ocasionando certas situações… Max padece de Síndrome de Asperger. Mas um problema ainda desconhecido na época. Dai era tido como maluco.

Eu passei a ter conhecimento dessa Síndrome, vendo ‘Ben X – A Fase Final‘. Onde podemos ver o quanto sofrem, mas com a zombaria e até agressões físicas dos colegas de classe. Para Max, além do bullying por conta disso, também por ter sido judeu.

Devido ao Asperger, tudo que saia da sua rotina o deixava em pânico. Dai, com a carta de Mary, não foi diferente. Mas devido a um quase ‘seguir as regras’, pelas visitas ao psiquiatra, depois ele deu retorno. Do pânico para a ansiedade de enfim ganhar um amigo humano fora um pulo. Agora, dá para imaginar os tipos de perguntas de uma criança!? Se por vezes embaraçam a nós, que dirá para a cabeça de alguém como Max. Que preferia questões sobre lógicas. Mas isso não fazia parte do imaginário de Mary.

Max tinha um outro problema: um comedor compulsivo, e de coisas doces. Chocolate, era o seu ponto fraco. E nas reuniões dos Comedores Anônimos, era assediado por uma das participantes. Acontece que, mesmo sendo um quarentão, também era como um menino ingênuo. Só passando a perceber algumas coisas, com as indagações da Mary.

Assim, com muita ingenuidade de ambas as partes, um foi ajudando o outro naquilo que o machucava mais. Era um olhar com óculos-cor-de-rosa!? Até pode ser, mais era o olhar de um amigo. Que entendia mais a fundo o drama de cada um.

O tempo foi passando… Muita coisa foi acontecendo para os dois… O desejo de Mary conhecer o Max continuava… A amizade teve até uns abalos. Ora, por conta do destino. Noutra, por querer “consertar” o amigo. Mesmo que a intenção fosse boa, o melhor a fazer é aceitar a “diferença” do outro. A menos que a pessoa procure por amigos meras cópias de si.

Mary e Max – Uma Amizade Diferente‘ é um filme que deixa uma vontade de uma análise mais detalhada. O que traria spoilers. É daqueles filmes que machucam, mais ainda por ser baseado numa estória real. É lento. Indicado também para quem gosta de ouvir a estória de vida de uma pessoa. Embora triste, nos leva a amá-los.

Num tempo onde o 3D virou uma febre, talvez uma animação com personagens de massinhas, e meio toscas, não irá atrair o grande público. Pena! Pois estarão perdendo um excelente filme! Com um final emocionante! Assistam!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mary e Max – Uma Amizade Diferente. 2009. Austrália. Direção e Roteiro: Adam Elliot. Elenco/Vozes. Gênero: Animação, Comédia, Drama. Duração: 92 minutos. Filmado com a técnica stop motion, em que cada cena é fotografada quadro a quadro. Baseado numa estória real.

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26 comentários em “Mary e Max – Uma Amizade Diferente. (2009)

  1. Um dos filmes do ano. É de 2009? De 2010? Nem sei, sempre me perco em relação aos anos, ainda mais para nós, brasileiros, cujas produções da sétima arte sempre chegam atrasadas. De qualquer forma, fica entre os 10 melhores filmes de 2009/2010.

    Depois de ‘As Bicicletas de Belleville’, talvez o desenho mais triste e de causar comoção de todos os tempos. Imperdível e excelente resenha.

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    • Oi Eduardo!

      Eu me baseio para a Ficha Técnica pelo IMDb. Colocando o ano de Produção do Filme. Há até os que cheguem no Brasil fora dos Festivais, entrando no circuito mais comerciais com dois anos após serem lançados em seus países de origens.

      Esse, o ano de produção é sim de 2009.

      E grata por participar!
      Volte sempre!

      Abraço,

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  2. Olá!

    Conheci por acaso esse filme, assisti e achei simplesmente genial. Desde criança soui fã de animações feitas em stop motion, mas nunca pensei que uma história tão emocionante pudesse ser contada dessa forma. Sou professor, e estou passando esse filme para os alunos. Nunca vi uma turma ficar tão silenciosa, rsrs. Eles gostaram muito. Estou tratando do tema amizade com eles, e esse filme encaixa perfeitamente no tema! Seu texto está ótimo!

    abraço

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    • Oi Tiago!

      Eu gosto muito dessa interatividade com Professores e alunos. Até por saber que terão alguém a guiar nesse debate.

      E com esse filme também poderá ser abordado o bullying.

      Parabéns pela escolha do filme!

      Volte mais vezes!
      Outro abraço,

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  3. Típica pérola cinematográfica perdida em um oceano de animações deslumbrantes em técnica, mas pobres em enredo…

    Quando olhamos com lupa a vida de pessoas ditas “fracassadas”, nem imaginamos o quanto de sublime e sagrado pode habitar a mais prosaica existência.

    Triste e poético ao mesmo tempo, o filme parece as vezes que foi animado por Edgar Alan Poe…mas ao menos existe certa redenção nessa história.

    ótima resenha

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  4. Oi Lella Td bem?

    Há uns 3 anos iniciei um pequeno acervo de filmes originais, e nesse acervo há um pouco de tudo..filmes raros, superproduções e filmes independentes. Descobri que tenho preferência por aqueles que não caem no gosto do grande público. Mary e Max é uma daquela histórias que não nos sai da cabeça. Vc escreveu brilhantemente sobre o filme…foi como rever os aspectos principais.
    Na última sexta-feira pude assistir o filme com os colegas de trabalho e em seguida refletirmos sobre o filme e nossa atuação (trabalhamos com educação). A segunda carta de Mary escrita na simplicidade de um papel de açougue e, o “filme” que passa por sua cabeça embalado por Whatever will Be, will be nas cenas finais, ainda estão ecoando em minha mente. Sem dúvida a melhor animação que já vi na vida e com certeza reverei muitas vezes. Mais que trabalhar o Bullying nas escolas, esse filme amplia a discussão sobre temas como a inclusão de alunos com deficiência e principalmente a relação professor x aluno.

    Um forte abraço!

    Parabéns pela resenha.

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  5. Olá!

    Gostei muito de como voce escreveu sobre filme, assisti esse filme por acaso, na verdade comprei esse filme ao ver a capa, sempre compro filmes para ver com minha filha de 4 anos, só depois que percebi que não se tratava de fato de um filme infantil. Fiquei encantada com o filme, com as por ter sido baseado em historia real. Ao final fiquei inconsolável pois não teve o final que eu imaginava…
    Recomendo o filme por ser a animação mais surpreendente que já vi.

    Abraços.

    P.S: Encontrei esse site numa busca por comentarios sobre esse filme, preciso explorar bem o cinemaeminha praia. Parabéns!

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    • Oi Sayonara!

      Pois é! Quando vi a Classificação do filme, resolvi começar meu texto por ele. E até porque já houve outras mães por aqui querendo se tal filme poderiam assistir com crianças menores.

      Difícil opinar nesse sentido. Cada criança absorverar o filme de um jeito próprio.

      Esse filme é um primor sim!

      E grata por gostar desse espaço!
      Beijos,

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  6. Gostei dessa sinopse.Já tinha visto esse filme no TC premium(em inglês).O que me deixou mais triste,foi a parte que a Mary e o Max sofrem de bullying.Mas o que mais me comoveu foi a morte de Max.As últimas palavras dele foram: “Vc é minha melhor amiga!” “Vc é minha única amiga!” Max morreu em 1991,e a última carta dele foi enviada em 1990,quando Mary estava prestes a se suicidar e grávida.

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  7. ola!kerido estou enviando meu comentário e dizer que amo este filme por retratar a vida como ela é cheia de altos e baixos e que me identifiquei com os dois persomagens, estou exibindo o filme para meus alunos do ensino medio abordando o valor da verdadeira amizade e os conflitos sociais os quais temos que entrentar diariamente os preconceitos que são impostos pela sociedadee que temos que verdadeiramente eliminarmos da nossa vida ja extou na 20ª exibição do filme e não me canso de assisti!!! a cada exibição faço uma nova releitura juntamente com meus alunos ah! tivemos que assisti em duas partes pois, o tempo de aula e apenas de 60minutos e tenho 20 turmas divididos em duas disciplinas sociologia e filosofia, abraços . cecilia de bv-rr

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  8. Val, esse filme é uma obra de arte, como rara vezes se vê no cinema. Entrou na minha lista dos dez mais. A sutileza da história é simplesmente encantadora… acho que as cenas que mais me marcaram foram quando Mary manda para Max um frasco de lágrimas, e quando ela pensou em se suicidar sem saber que estava grávida. Um personagem: a menininha estranha e solitária. O outro: um judeu obeso com Síndrome de Asperger. O que aparentemente eles poderiam ter em comum um com o outro: nada. E de alguma forma mágica, nos identificamos com ambos.

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  9. Assisti esse filme hoje duas vezes, legendado ( como gosto) e dublado para saber se desse jeito tem o mesmo efeito, porque meus alunos provavelmente decidirão pelo dublado. Já assisti inúmeras outra vezes e sempre caio em lágrimas. Estou listando a possibilidade de temas que podem ser abordados nele, incluindo, claro, o bullying. Encontrei o blog procurando referências sobre o filme e a partir de hoje, irei visitá-lo com frequência. Parabéns pelo trabalho!

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