ILHA DO MEDO: A Volta do Melhor Scorsese

Por: Roberto Souza.
Após uma série de obras decepcionantes ou insatisfatórias para um realizador do seu nível, Martin Scorsese salda uma dívida com seus admiradores no extraordinário thriller psicológico ILHA DO MEDO (Shutter Island), realizado em 2010.

Quarta associação do diretor com o astro Leonardo DiCaprio, a dupla acerta em cheio após os medianos GANGS DE NOVA YORK (2002), O AVIADOR (2004) e OS INFILTRADOS (2006), exemplos adequados de filmes de qualidade “onde falta alguma coisa”.

Não tive a oportunidade de assistir ao filme na telona, mas o recebi há dois dias em Blu-ray e, sem maiores expectativas prévias, senti o prazer de perceber um cineasta de volta à melhor forma, manipulando a expressão visual e os elementos autenticamente cinematográficos no seu caldeirão de poções mágicas, em doses precisas.

O roteiro exemplar de Laeta Kalogridis adapta o magistral romance Paciente 67, de Dennis Lehane (autor, entre outros, de Sobre Meninos e Lobos). No enredo, sem dar maiores detalhes para não estragar as reviravoltas da narrativa, DiCaprio é Teddy Daniels, um agente federal que se dirige a uma afastada ilha, utilizada como clínica-presídio para criminosos com problemas mentais de gravidades diversas.

Sua missão, ao lado de outro investigador (Mark Ruffalo), é desvendar o paradeiro de uma paciente que parece ter se “evaporado” de sua cela, apesar de trancada a sete chaves. Porém logo surgem dificuldades com os diretores do estabelecimento (os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow), que não parecem muito dispostos a colaborar na investigação, parecendo querer controlá-la qual uma sessão terapêutica.

Por outro lado, a maior barreira à solução do enigma reside no próprio Teddy, que carrega consigo traumas emocionais oriundos de sua experiência na Segunda Guerra, além da repentina perda da esposa num recente incêndio doméstico. Em contrapartida, a atmosfera lúgubre da ilha é propícia para exacerbar seus problemas, trazendo-lhe dolorosas lembranças, agudas dores de cabeça e pesadelos recorrentes.

Não foi casualmente que Lehane situou seu romance no ano de 1954. Os EUA viviam ao máximo a insegurança da Guerra Fria com a União Soviética, do Macartismo que caçava comunistas por todos os lados ou do temor de um conflito nuclear devastador.

Assim, a paranóia individual do atormentado investigador anda de mãos dadas com a paranóia coletiva, moldada pelas injunções políticas e ideológicas do período. Ao revirar sua mente em busca de respostas, Teddy realiza uma descida ao inferno interior, percebendo o risco e a temeridade que assolam aqueles que buscam uma verdade, seja de qual tipo possa ser.

Nesse sentido, a direção de Scorsese é absolutamente perfeita, tornando o décor parte integrante do processo, quase um personagem vivo, como já ocorrera na maioria de seus melhores trabalhos (TAXI DRIVER, TOURO INDOMÁVEL, OS BONS COMPANHEIROS e A ÉPOCA DA INOCÊNCIA). Ao transformar o concreto dos muros inexpugnáveis em carne e a atmosfera pesada dos sombrios corredores em sangue, o público é induzido a enveredar numa espiral onde, na melhor tradição do gênero, nada parece ser o que aparenta.

Contudo, ao invés do esperado recurso da surpresa ou de espantosas revelações finais, Scorsese distribui na força de suas imagens a resposta dos mistérios propostos, a chave que abriria todos os cadeados, a ponto de mais tarde o espectador se perguntar: como eu não percebi isso na hora?

Acrescente ao caldeirão ecos da obra-prima literária O Som e a Fúria, de William Faulkner, ou do clássico filme B Vampiros de Almas, de Don Siegel, retratos díspares da incomunicabilidade e dos pavores coletivos, e você se verá diante de uma pura, obra de arte. Uma experiência que o fará enveredar por labirintos e becos sem saída, que lhe negará a luz do sol, numa estilização que conjuga o universo pessimista de Schopenhauer e o conceito fugaz de realidade de Edgar Allan Poe, constituindo um assustador buraco negro ao qual se é atraído indelevelmente.

Imperdível.

Por: Roberto Souza.
– Blog Cal&idoscópio.
– Blog Lanterna Mágica.

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