Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works. 2009)

Woody Allen envelheceu ou melhor, continua velho. Existem coisas que só o tempo pode nos dar. A idade nos permite certas regalias que na juventude são impensáveis. Woody Allen é assim, parece que nasceu velho e por isso critica com o desprendimento de quem não pertence a raça humana. É certo que aquela criatura rabugenta que descrê de Deus e de si mesmo é o próprio Woody. O filme  “Tudo pode Dar Certo” foi escrito há 30 anos, logo Woody há 3 décadas já era “deus”, dono de uma rabugice bem humorada e não acreditava mais na humanidade. Ele ostenta um invejável currículo com 44 filmes, invejáveis elogios e também invejáveis críticas, afinal quem com a crítica fere, com ela será criticado. O que filme tem um título otimista demais diante do original Whatever Works” é uma aula de deboches e sarcasmos, de boas atuações e ótimas piadas.

Boris Yellnikoff (Larry David). Interpelando a platéia cinéfilaDirigindo-se despudoradamente à platéia, no melhor estilo Machadiano, a personagem principal do filme, Boris  Yellnikoff (Larri David), recusa-se a enganar seu cérebro com remédios para depressão e pânico, declara nos minutos iniciais do filme que “este não é um filme alegrinho e se é isso que estamos procurando, devemos procurar uma massagem para os nossos pés e a cada tentativa de suicídio”, encontramos motivos para rir. Ele começa metralhando a humanidade que fez com que “suas melhores idéias como o socialismo e o cristinaismo fracassassem por “pressuporem a idoneidade moral, a decência dos homens”. Certamente que um judeu pode dizer ao mundo que “pais interessados na educação dos filhos, deveriam levá-los para passar as férias num campo de concentração”,  em contrapartida qualquer cidadão pode sugerir que a sua sogra faça um passeio no Museu do Holocausto…

Tudo pode dar Certo”, configura  90 minutos de diversão, onde um velho ranzinza de QI elevadíssimo, quase indicado ao Prêmio Nobel, com ataques de pânico, crises de hipocondria e uma crônica descrença na humanidade e um medo da morte maior que tudo, se dirige a nós, esfregando-nos na cara onde exatamente estivemos errando nos últimos anos ou desde sempre… “Visão global”, inteligência ou esquizofrenia? Jamais saberemos pois nos filmes de Woody Allen, somos todos loucos e também pagantes por uma arte que nos leva a rir do que não pode dar certo.

Boris, quando não está reclamando da vida e conclamando os amigos a entender que tudo está errado e que a vida não presta ou atormentando e torturando os seus alunos de xadrez, dá-se a chance de amar, uma criaturinha estúpida cuja beleza ele vai percebendo no dia-a-dia. No início do filme ele termina um casamento desgastado pelo excesso de possibilidades de dar certo, plausível então, tentar o relacionamento com aquela que teoricamente não oferece a menor possibilidade.

Relaxe, apure os ouvido, se o seu inglês não está lá essas coisas, privilegie as legendas. Assistido sem olhos críticos, o filme é uma deliciosa fábula do quanto podemos ser felizes, quando desenvolvemos a capacidade de nos desapegar dos conceitos que nos fazem infelizes por vivermos numa sociedade que o tempo todo nos pede satisfações sobre nossos atos mais íntimos. No zoológico humano de Wood Allen, tudo realmente dá certo: Tem sempre um jovem lindo e paciente (Henry Cavill) para a loira burra (Evan Rachel Wood) que simples e esforçada leva o gênio a descobrir com simplicidade a própria simplicidade sem modéstia alguma.

Tem a mulher interiorana (Patrícia Clarkson) de meia-idade repressora e reprimida, exercitando os anos 70, que ao descobrir-se artista passa a viver de arte e conviver num casamento triplo. Tem a constatação que muitos são religiosos e membros do clube do rifle, no filme representados por (Ed Begley) por pura falta de coragem de buscar coisas melhores para fazer.

Sim, existe possibilidade de felicidade no mundo, numa grande cidade, o que não existe são cérebros inteligentes com funcionamento perfeito, pois isso é prerrogativa exclusiva do bom e velho Boris que ainda assim, ao final do filme questiona se ainda haveriam espectadores na platéia a assisti-lo. Sim, Boris ficamos aqui, afinal nunca a infidelidade, e morte, a dor e transtornos psíquicos foram tão divertidos.

Se eu tivesse que dar nota para este filme, daria 8 pelo conjunto da obra, mas pelos risos que me provocou, certamente  seria 10… É bom poder rir daquilo que jamais deveríamos ser.

A grande pergunta que me faço: teria Woody Allen, algum dia lido Machado de Assis?

Título original: Whatever Works
Gênero: Comédia, Romance
Direção e Roteiro: Woody Allen
Elenco:Larry David (Boris Yellnikoff), Evan Rachel Wood (Melodie Celestine), Patricia  Clarkson (Marietta), Henry Cavill (Randy James)

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3 comentários em “Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works. 2009)

  1. Tudo pode dar certo

    Wood Allen figura tarimbada em trágico-comêdias nova-iorquinas e temas existenciais psicanalíticos e em criações que encantam e surpreendem os mais desavisados. Agora Allen ataca novamente com mais uma obra prima o filme Tudo Pode Dar Certo, contem excelente tema, muito atual, Wood trabalha com uma perspectiva contemporânea. O filme começa com uma grande discussão filosófica entre amigos, onde Lerry David o Boris Yellnikoff o protagonista da historia relata suas crenças e descrenças. Boris foi professor universitário, lesionava mecânica quântica. Aposentado passa seus dias a pensar sobre o ser humano e suas relações sociais. Boris é extremamente pessimista, descrente na sua visão decadente para com o ser humano, e faz um tratado cientifico e filosófico em torno da vida, observando o que é mais importante para as pessoas normais. Temas engraçados e sérios causando reviravoltas inesperadas.
    Wood baseia-se nas teorias modernas sobre ciência, faz um comparativo com as relações humanas. Qual o sentido da vida? Formula uma teoria do acaso ou do caos, onde tudo tem sua própria ordem. Que ordem é essa, que é problema? Baseado na física quântica, para ser mais exato mecânico quântica, que acredita em uma teoria do fim ultimo e verdadeiro, exedendo-se também, para as obscuras relações humanas. Referente à nossa procura pela felicidade, como procurar, onde achá-la? Porque sempre, alguma coisa sai dos padrões, e nada é como a gente imagina.
    O acaso caso inesperado entre Boris e Melodie, serve de tema ilustrativo, “quando nossa própria teoria nos trai”, e somos pegos pelos pés. Embora Boris saiba que essa relação não vai lhe dar total segurança, e que a disparidade de idade e idéias não se ajusta. Ele embarca na relação, como diz um grande escritor: “embora estejamos adestrados para a vida, existe sempre algo que nos arrebata e nos põem a prova”.
    A partir dessa relação entre Boris e Melodie vai-se bordando as histórias dos personagens, narradas por Boris e seu pessimismo ferrenho e revoltado, devido ao que ele acredita; a enormidade de burrice contida em certos seres humanos. Como sempre Wood surpreende; o texto maravilhoso recheado de teorias científicas filosóficas moldando, o que eu diria; um clássico do cinema nova-iorquino.
    Física quântica, teorias da filosofia moderna, descontinuidades, psicanálise. filósofos como Deleuze, Nietzsche; o psicanalista Guattari, o cientista Wittgenstein. Baseado na Teoria das Cordas e os novos princípios matemáticos utilizados nesta teoria, permitem aos físicos afirmar que o universo possui 11 demissões; 3 especiais – altura, largura e comprimento. 1 o tempo e 7 demissões curvadas como massa e carga elétrica, o que explica as características das forças fundamentais da natureza. De acordo com a teoria das cordas, os elementares do universo não são partículas puntiformes – forma de ponto. Mínimos filamentos unidimensionais como elásticos infinitamente finos que vibram sem cessar. Está teoria propõe que roda a matéria e todas as forças provém de um único componente básico – cordas oscilantes. “Teoria que explica tudo”.
    Com muita filosofia e critica social Wood formata seu filme, criando uma comédia trágico-romântica, de diferentes temáticas, reciclando temas e feituras anteriores, dando uma visão espantosamente nova as questões dos desejos e as decepções humanas abordadas no filme. Tudo isso de maneira inteligente, artística e de bom gosto. Wood mantém seu nível intelectual como bom judeu nova-iorquino, prendendo o espectador até o fim em sua telinha mágica.

    Ass, Golon Byron

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  2. Rozzi, que bom ler sua resenha.

    Ao sair da sala de cinema, após a sessão de “Tudo pode dar certo”, a sua questão seria a minha questão, se já não soubesse que Wood Allen, não só leu Machado de Assis, como dá a tradução de “Memórias Póstumas…” aos amigos, aos filhos.

    O roteiro pode até ter 30 anos, como ele conta, mas, cá para nós, esta obra, em particular, é de um Leitor de Machado de Assis.

    Quem é leitor tanto de Machado, como de Wood Allen, diverte-se absurdamente, concorda? Esse relacionamento entre os dois era questão de tempo…mas aqui se esclarece.

    Em 29.05.10, publiquei no mynaves@twitter.com, algo que também te pode te interessar:

    Manoel de Oliveira, o cineasta português, vai à “Missa do Galo”, filmará agora meu conto ícone, de Machado de Assis.Assim seja.

    Rozzi Brasil, não é uma delícia para os cinéfilos brasileiros?

    Abraço meu,

    Myrian Naves.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sim, Myrian, com certeza uma delícia para os apreciadores brasileiros de filmes! Um motivo de alegria saber que um ícone do cinema com uma obra representativa e consistente tem conhecimento, afinidade e até parceria com manancial brasileiro que é o velho Machado. Imagine Machado de Assis, tantos anos depois a ver seus “alfarrabios” criando movimentos visíveis na telona… De mais, não é?

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