1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2003)

O dia, a água, o sol, a lua, a noite, tudo isso não compro com dinheiro; tudo mais que queremos, compramos.” (Plauto)

A produção cinematográfica dos tempos atuais é imensa; várias nacionalidades e gêneros sendo impossível acompanhar tudo, e a qualidade fica a desejar. Enxurrada de filme descartável. Em três minutos após uma sessão, não nos lembramos sequer do título, com raras exceções. Uma dessas exceções já considero não só um clássico como também cult do cinema brasileiro, ficou pouquíssimo tempo em cartaz, não lotou salas, por isso não está na lista dos campeões de bilheterias, é o  1,99 – UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS. de Marcelo Masagão. Dele, o público brasileiro aprovou e aplaudiu o Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos.

O que me atrai da sétima arte é geralmente um roteiro inteligente, e nada convencional; como diz um amigo “aquilo que não é óbvio” e o cinema brasileiro tem o talento deste cineasta, representando muito bem a sua categoria no quesito roteiro, direção e arte; o dom e a sensibilidade na narração de um conto de fadas à altura de Ettore Scola, por exemplo, na direção de O BAILE, completamente sem diálogos ponto de contato entre ambos.

Os setenta minutos do filme ‘1,99’ se passa dentro de um supermercado completamente branco onde os clientes, oitenta ao todo, vão às compras dos produtos principais dessa loja que são simplesmente PALAVRAS, e lá acontecem situações bem curiosas. Os ‘protagonistas’ deste conto de Masagão são:  o desejo, a angústia e a compulsão que representam a ânsia  que o homem tem de comprar e gastar. Essa idéia de fazer um supermercado estilizado como uma instalação de arte, inteiramente branco saiu da leitura do livro NO LOGO, (em português Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido), da jornalista canadense Naomi Klein. Neste livro a autora faz uma rigorosa e surpreendente análise de como as grandes marcas têm necessidades intrínsecas de se fetichizar ao infinito para sobreviver. O roteiro é instigante. Não só a cor da loja como todos os seus produtos nas comportadas prateleiras da mesma cor; caixas empilhadas apenas com o nome nas embalagens. O que você compraria numa loja de preços populares, ou R$ 1,99 além de amor, saúde, felicidade, compaixão, vida? Interessantes histórias ocorrem neste lugar, onde ninguém consegue sair, a comunicação e totalmente visual, por slogans, palavras e frases soltas espalhadas pela loja; pessoas brigando pelo último mesmo produto, idosos entrando nas geladeiras simbolizando talvez a morte…

O diretor fez combinações formidáveis de imagens impactantes com pequenos textos ou palavras isoladas, espalhadas pelo mercado, entre pacotes e produtos, desafiando os rótulos convencionais, não considerando exatamente um documentário, já que utiliza atores e retrata idéias e não fatos comprovados; e toda obra tem um pouco de ficção.

Loja de 1,99 (preço, precinho, como diz uma propaganda), especializada na venda de conceitos, o valor de uma pechincha ilustrando muito bem o mundo atual com a febre de consumo imediato e tudo que existe e que assola o homem moderno, definindo-o como ‘você é aquilo que possui’; compra-se sem necessidade, coisas que não se precisa que nunca se usará pelo mero prazer do que simbolizam: o status, um estilo de vida sonhado, mas nunca alcançado, já que sua regra básica implica na própria necessidade de querer sempre mais e mais.

Os fregueses deste supermercado de 1,99 pertencem a uma classe social definida como a elite, a classe A e B,  representados pela cor de seus trajes sempre claros; já no lado de fora, há outro tipo de consumidor trajando diferentes cores aguardando o convite para entrar, simbolizando os excluídos. Pessoas de todas as faixas etárias passeiam  com seus carrinhos, buscando entre um corredor e outro, nas prateleiras, o produto desejado. O filme soa familiar, a rotina nossa de cada dia de ir às compras, ao  mercado de preferência, passar pelo mesmo caixa, esbarrar nos funcionários patinadores repondo mercadorias ou em outros afazeres, passar pela cortesia do cafezinho, comprar supérfluo…

“Consumir tornou-se, para a maior parte das pessoas, uma fonte de prazer quase orgástica; e introduzir o cartão na fenda do caixa eletrônico iguala-se, portanto, ao ato sexual em si.”

Se eu fosse dar um Oscar para um filme brasileiro (não que ache isso importante) seria pra este de Marcelo Masagão pela sua originalidade e criatividade. Nosso país vai ganhar, acredite, pois tem potencial para isso, nosso cinema é tudo de bom, idéias brilhantes, e originais tem-se de montão, como também capacidade e boa vontade.

O filme possui uma narrativa com situações bem contextualizadas. E o seu gênero, POESIA MODERNA. E então, que mercadoria deste supermercado você colocaria no seu carrinho?

Considero 1,99 Um Supermercado que Vende Palavras, uma obra-prima do cinema nacional. Não deixe de COMPRAR essa idéia. Assista!

Cotação: *****

Karenina Rostov

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FICHA TÉCNICA
Título Original: 1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras.
Origem: Brasil, 2003.
Direção: Marcelo Masagão.
Roteiro: Marcelo Masagão e Gustavo Steinberg.
Produção: Clarissa Knoll e Gustavo Steinberg.
Fotografia: Hélcio Alemão Naganine.
Música: Wim Mertens e André Abujamra.

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