Beleza Roubada (Stealing Beauty. 1996)

beleza

Por: Rafael Lopes.
Por acaso você se lembra do primeiro beijo? Você lembra-se da sua primeira vez? De quantas vezes suspirou por alguém? Lembra-se de ter se apaixonado, mas se apaixonado como nunca antes? Seria o amor um sentimento ou algo que atiça as mais loucas vontades? O que é amor?

Acho que tudo pode ser respondido em cenas desse filme. Um resumo bem grande desse sentimento louco que nos confunde e às vezes engana. Há o amor entre família, entre casais, entre amigos, entre a arte, amor à vida. As personagens dissertando sobre sexo esquecendo-se do amor só mostram quão ocas as pessoas são em relação a esse tema. E o mais irônico é que o dono da casa esculpe em madeira pessoas. Sua arte é bem mais recheada de sentimento e vida que muita gente.

Um sentimento forte é sentido pelas belas imagens feitas da Itália. E que Itália linda o diretor conseguiu captar. A bela fotografia faz a luz tornar-se intensa, e esse brilho a mais desperta em quem assiste o clima perfeito para acompanhar a história de Lucy (Liv Tyler). Ela com seus 19 anos parte para a Itália com a aparente vontade de reencontrar uns amigos. Mas lá chegando, percebemos que na verdade procura por duas coisas: seu pai e um sentido na vida, já que perdera a mãe, que se suicidou.

E revendo a todos que não via há 4 anos, começa a perceber naquelas pessoas que demonstram uma falta de pudor e exalam sensualidade, aproveitando o que de melhor há na vida, que o que ela procura realmente está ali: seu pai e um sentido na vida. E começa a procura por ambos.

E entre desilusões amorosas, encontros e desencontros, vai mostrar a todos que amor é mais que uma palavra ou um incentivo para incendeio de paixões, amor é sentimento.

Filmado pelas lentes de Bernardo Bertolucci, mestre na arte de falar sobre esse tema sem ser apelativo ou gratuito. O que se vê é a composição perfeita do que é se apaixonar, do que é se conhecer, do que é encontrar seu motivo para continuar. E com precisão e firmeza, sente-se vendo o filme o que é realmente o que ele quer falar. E isso flui de forma tão fantástica, que é impossível não se envolver com o filme.

O passos de Lucy filmados com delicadeza e sentimento. Ela, interpretada pela linda Liv Tyler, que mesmo herdando a bocarra do pai, se mostra perfeita para a personagem. E ela atua direitinho, mandou bem realmente. Sabe transmitir suas inquietações, insegurança, medo. Mas no fundo disso tudo, há coragem, já verdade, há virtudes. Mas claro, isso é inibido, uma vez que, ela, no auge de sua timidez e jeito de menina, está na casa de pessoas tão desinibidas, sem pudor, mas que entendem porque sentem o sentimento. Ou acham que sentem.

E Lucy está nesse lugar para justamente mostrar o que ainda não viram com relação a isso. O casal de meia idade passando pela crise sexual, o casal fogueira que na verdade se mostra de amantes, o velho poeta sem inspiração, o antigo paquera que se mostra um belo mulherengo e seu irmão que a ama, a mulher vivida e um jovem que se interessa por ela, e todos envolvidos pelo que Lucy trás.

E no momento mais memorável do filme, ela os faz ver isso. A cena é linda. É sexy. É amor exalado em frames. Isso é sentido. Mas o sentimento quando sentido, pode produzir outros.

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Seja ele de bem estar, como o casal de meia idade, seja ele de ódio, mas regado à saudade , o que também gera o amor, como o casal fogueira, ou a nostalgia do poeta perto de morrer.

E as descobertas que ela vai fazendo ao longo do caminho, moldam o seu perfil. E quando ela mesmo descobre seu amor, o amor por si ao se entregar finalmente e descobrir aquilo que estava procurando, o filme chega ao seu ápice. Ela encontrando seu pai e sua primeira vez são sublimes. Filmados com uma sensibilidade maravilhosa. E em cada uma, podemos entender sobre as facetas desse louco sentimento que é o amor, e que o diretor está trabalhando ao longo do filme.

Acho que o único defeito está no fato de pouco explorar seus personagens e às vezes inserir outros que de quase nada ajudam no desenvolvimento da trama. Mas isso é perdoável, uma vez que nos brinda com cenas maravilhosas de Lucy escrevendo belas e poéticas palavras que a definam, e logo depois se desfazendo do que escreveu. Tem coisa mais humana? Se desfazer do que ainda não conhece e desacredita. E tenho certeza que ela não mais fará isso, uma vez que descobre aquilo que vinha procurando, e aquilo que vinha apagando.

E o desenrolar da história, misturando a sensualidade e o frescor da Itália com as atitudes e anseios humanos é belo. E essa, creio eu, é a assinatura do diretor. Bem como fez com o eterno O Último Tango em paris ou Os Sonhadores, aqui ele dissertou de forma séria e sem ser repetitivo ou piegas, o que torna seu cinema diferente dos que tentam fazer romance hoje em dia. Sem implorar ao espectador que se envolva ou debulhe em lágrimas, como o lamentável Um Amor Pra Recordar.

E Bertolucci faz do romance um estudo quase patológico de como o corpo e a mente reagem a esse sentimento.
Sem moralismos, sem ser didático, as vezes alfinetando (como numa cena em que uma mulher seduz um homem e logo mostra uma dança onde um está preso aos pés do outro, meio que grudado e inseparável) e sempre eficiente na proposta de falar sobre o amor, suas implicações nos relacionamentos das pessoas e como age. E claro, sempre atinge.

Beleza Roubada é considerado por muitos como uma obra menor do diretor. Mas vejo aqui quase todas as qualidades que fizeram o nome Bertolucci ser tão forte no cinema. É um filme sensível e que fala sobre um tema tão complicado utilizando todos os artifícios ao seu favor. Uma narrativa envolvente, trilha sonora bem encaixada, atuações fortes e marcantes (adorei as cenas de Liv Tyler e Jeremy Irons e todas as aparições de Rachel Weiz), fotografia maravilhosa do iraniano Darius Khondji (que consegue um efeito maravilhoso nos planos abertos e usa a luz de forma linda e sensual) e uma montagem ousada de Pietro Scalia. Tudo funciona. E isso é bem sentido no filme.

Uma bela declaração de amor ao amor.

Nota: 9,5
Cotação: *****.

Stealing Beauty, EUA (1996)

Direção: Bernardo Bertolucci.
Atores: Liv Tyler , Carlo Cecchi , Sinéad Cusack , Joseph Fiennes , Jason Flemyng.
Duração: 114 minutos.

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2 comentários em “Beleza Roubada (Stealing Beauty. 1996)

  1. Eu simplesmente amei este filme,é um de meus favoritos,é sensível e muito meigo. Me identifiquei muito com a Lucy e suas descobertas,afinal quando o assisti também tinha 19 anos. E o que uma garota de 19 anos pode esperar da vida senão o amor?

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