Sem Identidade (Sin Nombre .2009)

No ano passado, quando fui convidado por Lella para escrever neste blog, fiquei um pouco inseguro porque não sou critico de cinema— apenas gosto muito de cinema— e, quando escrevo, sinto que não consigo ser neutro, isto é, coloco muito de mim nos textos.  Escrevo algo. Depois, passo dias longe do texto, e quando me reencontro com o texto, tenho que re-escrevê-lo. Outro dia, tive a ousadia de reler alguns dos textos que escrevi para o blog, e eles não me deixaram uma boa impressão!

Em 2009, assisti grandes filmes, mas apenas dois desses filmes eu considero marcantes: “Sin Nombre”— a estréia do Americano Cary Fukunaga na direção— e, “The Stoning of Soraya M.” — dirigido por Cyrus Nowrasteh, que escreveu e dirigiu o polêmico documentário “The Path to 9/11” (2006). São filmes distintos, e tentei escrever sobre eles, mas entre tantas revisões— cinco  ao todo!—me deixaram insatisfeito, e frustrado, e por tal razão deixei os textos de lado. A primeira revisão foi muito sobre a minha opinião sobre a imigração em “Sin Nombre”, e sobre Islãmismo em “The Stoning of Soraya M“. Achei que não elaborei nada de legal sobre os filmes. A segunda revisão foi o contrário. A terceira revisão foi sobre como esses filmes foram feitos e para quem foram feitos — será que tenho esse direito? Praticamente cataloguei um filme para um determinado público. Me achei tão técnico, e tão arrogante, que resolvi deletar o texto. A quarta revisão foi muito pessoal—usando muito da minha esperiência de vida—, e aí, me envolvi tanto com os textos, que de uma forma, sofri para terminá-los e resolvi parar de revisar, pois tudo estava uma m*rda.

Se passou  alguns meses. Praticamente, esqueci dos textos por achar que não valeria a pena publicá-los. Por acidente, lendo um livro do Roger Ebert, encontrei essa citação:

Um filme não é bom porque ele chega a conclusões que você compartilha, ou ruim, porque isso não acontece. Um filme não é sobre o que ele se trata. É sobre como ele é: sobre a forma como ele considera o seu tema, e sobre como o seu verdadeiro tema pode ser diferente para a quem ele foi provido.”

Achei essa citação tão relevante, que me motivou a rever “Sin Nombre” e “The Stoning of Soraya M.” neste final de semana. Voltei aos textos e os terminei.

“Sin Nombre” começa num cenário lindo, a luz solar de tons dourados. Em seguida, se vê um jovem sem camisa— e, cheio de tatuagens—, segurando um cigarro. Depois, a camera se posiciona nas costa desse jovem—que depois ficamos a saber que o seu nome é Willy/ El Casper (brilhante atuação de Edgar Flores) —, onde podemos ver o cenário etéreo de dentro da casa para fora, e ficamos a saber que esse é o único momento de paz que Casper vai ter.

A estória de “Sin Nombre” se passa em Tapachula, no sul do México. Casper vai levar o seu novo amigo Benito (Kristyan Ferrer, que tem a mais expressiva presença cênica na tela, desde Ravi Ramos Lacerda, em Abril Despedaçado), que inicia sua vida como membro da gangue “Mara Salvatrucha” — gangue criminosa transnacional que se originou em Los Angeles e se espalhou para outras partes dos Estados Unidos, Canadá, México e América Central. O menino de 12  anos de idade é logo “batizado” de Smiley, depois de levar uma surra dos membros da gangue, e soltar o sorriso através das lágrimas.

Nesse meio termo, temos outra enredo: em Honduras, conheceremos Sayra (Paulina Gaitan, também em excelente atuação). Sayra reencontra com o seu pai e um tio distante. Eles se preparam para ir ao Mexico e, atravessar a fronteira e imigrar para os Estados Unidos. A estória de Casper e Sayara vão se mesclar durante uma tentativa de estupro no topo de um trem. E assim, ficamos no meio de duas jornadas: a de Sayra que  é  de chegar ao seu destino ( Os Estados Unidos), e a de Casper que, é de tentar escapar de seu destino. A amizade deles se aprofunda ao longo do caminho e os problemas de Casper com os seus “amigos” da gangue  também. Por um lado temos um estudo de uma cultura de gangues e da corrupção da juventude, por outro lado, “Sin Nombre” é sobre imigração e sobre a dolorosa jornada através da fronteira.

O filme é tão intenso e corajoso como “Cidade de Deus” e em outros pontos, é o oposto do filme de Fernando Meireiles. Cary Fukunaga disse que “uma vez que teve imigrantes reais,  não precisou falar nada para eles- eles sabem como sentar no topo de um trem!,” e assim enriqueceu o seu filme, fazendo o espectador esquecer que esteja assistindo um filme. Ao tratar de um tema delicado como a imigração ilegal, o diretor nos presenteou com uma uma tragédia grega, que é ao mesmo tempo comovente e dolorosa de observar: a mistura de dois mundos obscuros, a viagem para atravessar a fronteira, e os bastidores da cultura de gangues Mara.

Fukunaga também escreveu o roteiro, unindo suspense, e ilustrando a vida de muitos pessoas que se perderam do outro lado da fronteira, o que achei nada menos que chocante! O que é ainda mais chocante é que nós raramente ouvimos falar desses imigrantes, que geralmente são esquecidos, “sem nome.” O fotografo  brasileiro Adriano Goldman me impressionou com as lindas imagens. As cenas dos imigrantes em cima do trem, ou abandonados nos trilhos me pareceu em constante movimento. E, em vez de equipamentos digitais, Goldman fez uma escolha crucial estética que contrasta a miséria gráfica com muitas cores vivas, além da mensagem de documentário impressa na tela. Outro brasileiro que contribui para a riquesa de “ Sin Nombre” foi o musico Marcelo Zarvos— o impacto emocional da sua trilha sonora, que mistura uma orquesta completa, e o som adcional de violão e, acordeão, é nada mais do que perfeita!

Não pude deixar de sentir pena dos personagens do filme. Primeiramente, por ser brasileiro, e por ter vivido fora do Brasil por tanto tempo. Calma gente, eu não cheguei aqui atravessando a fronteira ilegalmente, e nem estou ilegal !. Quando vou ao Brasil sou perguntado por amigos como é a terra do tio Sam, pois eles apenas conhecem os EUA dos filmes, e dos noticiáros. Quando morei na Tailandia, e na Birmania, eu era visto e tratado como um rei, pois para muitos, eu era “americano” e eles tinham a idéia que paraíso na terra, era ir “viver” a cultura “rica” dos EUA, sem querer aceitar a verdade que eu não era, e nunca fui rico, e que nos EUA têm sim, os seus miseráveis. Milhões de pessoas só conhece os EUA, através do que vêem em filmes. Eles não sabem de Nova York, San Francisco, LA ou mesmo a linda Washington D.C como elas são, mas as cidades através dos olhos da cultura dominante. A única imagem dos Estados Unidos para eles é o resultado de uma combinação de uma ilusão, que os americanos podem entender, mas nunca vão sentir.

Tudo que expresso no ultimo parágrafo, não vem do filme “Sin Nombre. Tudo isso eu trago para o filme, porque eu vivi em 3 paises, e convivi com miseria—principalmente, no campo de refugiados na Tailandia, onde todos os birmaneses continuam sem nomes, e sem nacionalidades —, que nunca vão ver os locais que eles um dia viram  através do cinema. O que é ainda mais interessante é que todos esses pensamentos foram desencadeados em mim por um filme: “Sin Nombre”. Aqui está um filme de estréia, dirigido por um americano que apresenta os fatos como eles são. “Sin Nombre” injeta no espectador  a realidade de passar por aquilo que muitos emigrantes experimentam.

Mas, o filme não é sobre imigração e gangues (como uma questão política). É sobre a busca de um lugar melhor. É sobre a natureza humana de buscar um ambiente mais saudável e um melhor ambiente. Não é sobre ir para os Estados Unidos, mas em ir para um lugar mais seguro!

Nota: 10

Diretor: Cary Fukunaga

Elenco: Marco Antonio Aguirre, Leonardo Alonso, Karla Cecilia Alvarado, Juan Pablo Arias Barrón, Rosalba Belén Barrón, Sixto Felipe Castro, Rosalba Quintana Cruz, Marcela Feregrino, Kristian Ferrer, Edgar Flores, Giovanni Florido, Paulina Gaitan, Ariel Galvan, Diana Garcia, Gabriela Garibaldi

Produção: Gerardo Barrera, Pablo Cruz, Gael García Bernal, Diego Luna

Roteiro: Cary Fukunaga

Trilha Sonora: Marcelo Zarvos

Duração: 96 min.

Ano: 2009

País: México/ EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Estúdio: Canana Films

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Um comentário em “Sem Identidade (Sin Nombre .2009)

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