VIP’S (2010)

cartaz

Antecipando o meu comentário sobre este filme: Eu me diverti muito assistindo!
Bem realizado, ágil, tomadas ótimas, o filme Vip’s tem uma série de pontos positivos que de longe superam os aspectos negativos. Wagner Moura sobra nesta personagem emprestando-lhe, energia, carisma, carência, uma tremenda coerência na sua total incoerência.

No início ele era penas “Bizarro”, estudante

É bem verdade que nos sentimos um pouco perdidos em algumas situações, como por exemplo nas aparições do pai de Marcelo quando não sabemos se ele é real ou um delírio, fato que só descobrimos ao longo do filme, mas devo confessar que na minha opinião como “público” de cinema e não “cinéfila”, quando assisto um filme quero justamente isso: surpreender-me, sentir-me envolvida à medida em que o filme se mostra e se desvenda. E foi isso que Wagner Moura me proporcionou ao me envolver absurdamente com o seu absurdo Marcelo! Com aquele rostinho que conversa com a câmera e voz gostosa de ouvir.

Marcelo a princípio apelidado de Bizarro, aquele colega adolescente que todos tivemos oportunidade de ter na nossa sala de aula, o esquisito, imitador que tumultua as aulas. Atenção! É a partir daí que vai se desdobrando a personalidade desequilibrada do rapaz, que tem um sonho e não opta pela maneira correta de realizá-lo.

em busca do sonho…

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Talvez a condução do filme, o tratamento do roteiro decepcione críticos e pessoas que o assistirem buscando as semelhanças com a personagem e os fatos da vida real, mas sinceramente um conselho para quem quiser: Vá para ver um filme, participar de uma história e sairá do cinema feliz ou muito satisfeito. Com cenas aéreas bem feitas, momentos ligeiros de suspense, o roteiro prioriza a aventura em detrimento do drama. Wagner e seu Marcelo que também é Carrera, que também é Dênis, que também é Henrique Constantino vai envolvendo e ficamos numa situação um pouco parecida com a da sua mãe: torcendo para que em algum momento ele “dê certo”, que deixe de ser “um ninguém”. Gisele Fróes faz aquela mãe digna da composição de Chico Buarque, “o Meu Guri”, encarna com perfeição a cabeleireira de um salão de fundo de quintal, mãe de um filho doce e monstro sobre o qual ela não tem nenhum controle e para isso não se esforça, limitando-se a ser o seu porto-seguro, sua cidade, seu cais, o local para onde ele volta para se recuperar e entrar em gestação de nova personalidade. Embora essa personagem ou o tramento dado a ela possa ser  fictício, não está longe da realidade de milhares de mulheres que investem na idéia de que “ser mãe é padecer no paraíso”, ainda que sem nenhum juízo.

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Marcelo como Henrique Constantino e Amaury Jr

Por assistir o filme no seu lançamento e por estar à sua espera desde o dia em que vi o cartaz, simplesmente não li nada a respeito antes, indo depois, em busca de informações e descobrindo que Marcelo Nascimento da Rocha é real, existe e é portador de uma extensa ficha criminal. Descobri que algumas passagens do filme são reais outras não. O roteiro de Bráulio Mantovani, e Thiago Dottori, é baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso”. A antológica entrevista exibida por Amaury Jr (que participa do filme) com Marcelo fazendo-se passar por  Henrique Constantino, filho do proprietário da Gol, aconteceu e dá um molho especial a esta obra que corre o risco de receber a culpa de mais fantasiosa que a realidade.

Roger Gobeth , Juliana Schalch e Wagner Moura

Os comentários que a personalidade real é criminosa e a personagem ficcional é louca, psicótica etc me parecem apenas uma questão de escolha da produção e direção, que se inspira num drama real para criar propostas de segmentos para as  visões de cada espectador. Particularmente achei um mérito mostrar dessa forma evitando apologia à mente criminosa do inspirador da história que Wagner Moura não quis conhecer. Fico cada vez mais fã deste ator e muito feliz com essa personalidade que criada por ele.

Jorge D’Elia, o Patrão e Wagner como “Carrera”

Vi o Marcelo criado por Wagner como alguém verdadeiramente solitário e desprovido de referências, incapaz de encarnar a si mesmo que por si, possui apenas cúmplices arregimentados pelo seu carisma, fascínio e enorme poder de persuasão. Imagino que deva ser complicado para alguém ser apenas filho sem pai, de mãe pobre e cabeleireira, depois de experimentar as deferências da alta sociedade e celebridades para com um VIP, uma vez que não se trata no filme de alguém mau, mas um caráter distorcido numa personalidade fragmentada numa pessoa sem paciência para se preparar para as oportunidades, alguém que precisa, que tem que se dar bem, carregando seus princípios duvidosos e valores contraditórios como: transportar drogas pode, transportar armas não pode.

Os apreciadores e adeptos da psicanálise certamente verão esse filme mais de uma vez. E  confesso que, mais uma vez assistindo me divertirei como na primeira vez!

Fico por aqui na tentativa de evitar os “spoilers”. Largue esse blog, vá ver o filme e volte pra conversarmos!!!

Conexão extra:
O  caderno Sessão Extra do Jornal do dia 26/03/2011 traz matéria sobre o filme com um trecho onde se propõe  mostrar o o que é realidade e o que é ficção:

Realidade:

  • A empresa envolvida na principal farsa criada pelo golpista é a Gol. Marcelo se dizia ser o empresário Henrique Constantino dono da empresa.
  • O carnaval fora de época, conhecido como Recifolia, de 2001, foi o cenário da farsa, e Marcelo foi fotografado por revistas como “Caras” e entrevistado por Amaury Jr.
  • O personagem vivido por Roger Gobeth é inspirado no ator Ricardo Macchi, que ficou “amigo” de Marcelo durante a micareta
  • Numa rebelião no complexo peniteniário de Bagu, Marcelo, que estava preso,  apresentou-se como líder do PCC.

Ficção:

  • O personagem de Wagner Moura é tratado como louco e  e deveria passar por um tratamente psiquiátrico. O Marcelo Real sempre foi visto como um criminoso.
  • No filme, desde pequeno,  o estelionatário  vê  o espírito do pai e conversa com ele. Marcelo perdeu o pai na adolescência e nunca teve visões.
  • Tem um tórrido relacionamento com Sandra (Arieta Correa) que conhece durante  a recifolia.
  • No longa ele se apresenta como cover do cantor Renato Russo. Na verdade, Marcelo fingiu ser guitarrista do Engenheiros do Hawaii
  • Tem o corpo magro do ator Wagner Moura. O real é obeso”

Discordo do item ter “visões” e “ver e conversar com o espírito do pai”.  Vi essas passagens como uma alegoria para  esclarecer o momento casulo ou cabine telefônica de super-herói quando Marcelo começa sua metamorfose em novas personalidades.


Elenco:

Wagner Moura … Marcelo

Juliano Cazarré … Baña
Jorge D’Elía … Patrão
Gisele Fróes … Silvia
Emiliano Ruschel … Fausto
Roger Gobeth … Renato Jacques
Norival Rizzo … Pai de Marcelo
Arieta Correia … Sandra
Amaury Jr. … Amaury Jr.
João Francisco Tottene … Marcelo criança
Direção: Toniko Melo
Produção: Fernando Meirelles, Paulo Morelli, Bel Berlinck
Roteiro: Bráulio Mantovani  e Thiago Dottori
Baseado no livro “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso” escrito por Mariana Caltabiano
site oficial:
www.vipsofilme.com.br


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4 comentários em “VIP’S (2010)

  1. Essa filme é muito bom, apesar de fugar algumas vezes real história do Marcelo, as modificações ajudaram a transmitir a visão de uma pessoa perturbada emocionalmente, e as consequências dos seus atos.

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  2. Gostei do filme- como vc olhei + para as qualidades- tecnicamente bem feito !!!
    Mesmo q tenho um final vago, o filme me surpreendeu!!! Sua leitura eh muito boa!?

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  3. Atrasado demais pra ver este filme, consegui fazê-lo ontem à noite.
    Tinha lido boas críticas, mas ainda assim me surpreendi com seu desenvolvimento. Só não sei se mais por saber que esta história louca do Marcelo é real ou pela atuação cativante de Wagner Moura…que ator! E pensar que no mesmo ano ele encarnaria o famoso Capitão Nascimento do Bope! Bah!
    Muito boa leitura da Rozzi, me apeguei principalmente à parte: “…do inspirador da história que Wagner Moura não quis conhecer “. Fantástico imaginar que tudo aquilo saiu dele, sem conhecer o personagem real das estripolias causadas durante o filme.
    Achei muito sutil o final onde se conectam os fatos do sumiço de seu pai e da foto de sua mãe no carnaval tentando encontrar alguma semelhança entre os possíveis pais de um literal filho do carnaval.
    Se não fosse claro que se trata de uma história real, tenho certeza de que a maioria diria: “impossível o cara conseguir fazer tudo isso…”.
    Nota 8.

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