Curta: Sempre Conte à Sua Esposa (Always Tell Your Life. 1923)

1. “A única maneira de me livrar dos meus medos é fazer filmes sobre eles.”

2. “Sorte é tudo… Minha sorte em vida é ser uma pessoa medrosa. Tenho sorte de ser um covarde, em ter um baixo limiar de medo, porque um herói não poderia fazer um bom filme de suspense.” Alfred Hitchcook

Sempre Conte à sua Esposa (1923) – Always Tell Your Life

Um poeta brasileiro diz em um de seus poemas que a língua portuguesa é a sua pátria, e eu como gosto de pegar carona na fala dos outros, afirmo que o cinema, por não ter fronteiras, é a minha pátria. E o Rio de Janeiro, a cidade que escolhi para viver está elegante, radiante e mais maravilhosa do que nunca. É de fato o centro cultural do país. A razão disso é por estar sediando a maior e a mais completa retrospectiva do artista único e ousado, o inventor de sua arte e divulgador extraordinário e divertido de suas próprias idéias: Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. Não conheço todos os filmes dele, e isso não me tira o mérito de ser sua fã e admiradora incondicional. Ao todo são 59 filmes, 129 episódios de séries de tevê totalizando 8.954 minutos de suspense, além de cursos, debates e eventos para que os amantes do mestre se deliciem.

O maior elogio ao mestre é afirmar que seus filmes continuam tão intrigantes hoje quanto à época em que foram lançados. É o melhor presente dos últimos tempos aos cinéfilos que vivem nesta cidade. Uma pena que o festival ibero-americano de cinema e vídeo esteja acontecendo paralelamente neste mesmo período, isso quer dizer que, nem sempre dá para se assobiar e chupar cana. O cineSUL que está em sua 18ª edição e que este ano homenageia o Paraguai, exibe curtas e longas-metragens de ficção e documentário e produções diversificadas destes dois continentes relacionados ao mundo das artes em geral. Deu para matar a curiosidade e um tira-gosto.

Mas voltando ao meu querido Hitch, o público carioca terá a oportunidade de ver seus 54 longas e três curtas, mais os episódios produzidos para a tevê que o diretor comandou entre os anos 1950 e 1960, além de conferir aspectos menos conhecidos da obra desse consagrado artista. Consegui assistir a alguns dos seus primeiros longas da sua fase young, alguns dos episódios e um curta. Sem dúvida, incomparável ver suas obras preferivelmente em um telão.

Alguns trabalhos dele, literalmente, foram perdidos, como o média-metragem “The Mountain Eagle” (1926) e alguns curtas do início da carreira, por isso ficaram de fora da mostra, o que é uma lástima. Outras raridades dos filmes mudos tiveram sessão especial com acompanhamento ao piano. Muito chique, não?!

Tive o privilégio de assistir ao “O Jardim dos Prazeres“, o primeiro longa de Hitckcock, como também ao fragmento de nove minutos de seu curta “Sempre conte à sua Esposa“, única parte conservada do curta-metragem que ele co-dirigiu em 1923, sendo o trabalho mais antigo a ser exibido nessa mostra. Esse filme foi rodado na Inglaterra, mudo, em P&B, em 35mm, com duração de 20 minutos e guardados em dois rolos dos quais restaram apenas 9 minutos preservados, não sendo possível restaurar a outra parte pelo fato de estar  bastante danificada.

Sempre Conte à Sua Esposa é a história de Jim Chesson um rapaz que se diz apaixonado pela sua mulher e sempre fiel, mas eis que no dia do seu aniversário acontece algo inesperado e ele passa por um grande sufoco, como se diz hoje em dia, uma tremenda saia justa: uma antiga paixão sua reaparece e ameaça contar tudo à sua esposa caso ele não a leve para jantar nessa noite especial. Atordoado, ele começa a planejar uma saída com a ajuda de um amigo, mas a sua esposa a essa altura do campeonato já descobriu parte da história: primeiro ela encontra fotos da ‘ex’ e ele não ‘sabe’ explicar quem é a dita cuja; ele guardava também cartas e outras lembranças mais da ‘finada’, por que será? Ele acaba dando a foto para o seu animal de estimação, um papagaio linguarudo, e que em poucos minutos o bichinho faz um estrago comendo parte dela. A ex manda um telegrama convidando-o para esse dia de comemoração de mudança de idade, e quem recebe a correspondência é justamente a esposa enquanto ele está no trabalho. Jim comenta com um amigo essa sua pulada de cerca e infidelidade e ambos elaboram uma estratégia para que sua esposa não descubra, mal sabendo ele que ela já está a par inclusive recebeu e abriu o telegrama e já contou para uma amiga que foi, por acaso, nesse dia visitá-la em sua casa.

Bem, o que acontece depois só mesmo com a ajuda de uma cartomante ou pondo a imaginação para funcionar porque o que é bom durou esses nove minutos mesmo. Que chato!

Concordo em gênero, número e grau: sempre conte à sua esposa que é a pessoa amada (ou deveria ser, não?) TUDO! Abra o coração e não esconda nada, afinal não é uma vida em comum? A outra metade da laranja com a qual dormimos e trocamos confidências e intimidades na qual nada deve ser escondido, e trancado, onde tudo deve vir à tona, compartilhar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, tudo. Portanto, não esconda nada. O segredo não é receita de bolo para uma vida feliz, muito menos a mentira que tem pernas curtas. Vive-se o admirável mundo novo, tempos de redes sociais do ‘vale tudo’ e tudo  é mostrado, despudoradamente,  o mundo e as carnes expostas como na vitrine de açougue, o big-brother agora pertence a todos, ao alcance de  um click; é a febre do mundo virtual, vive-se o boomm(da) vida privada, transbordando pelos esgotos e bueiros que constantemente explodem pelas ruas da cidade, vitimando, inclusive, pessoas inocentes, trazendo à tona os ratos, o mau cheiro,  os dejetos da podridão humana tudo compartilhado  e a tristeza e o desânimo para alguns.

Afinal como acabou essa história? I don,t know…Teve um final feliz? Maybe… Quem sabe alguém tenha tido a sorte de ter assistido a cópia completa e poderia aparecer por aqui e nos contar?
Por: Karenina Rostov
*
Créditos:
Diretor: Hugh Croise e Alfred Hitchcock
Roteiro: Hugh Croise baseado na peça de Seymour Hicks
Produção: Seymour Hicks
Duração: 20 min , P&B, 35 mm
Distribuição: 1923
Sempre Conte à Sua Esposa (1923)

O curta-metragem mudo de 9 minutos é o primeiro filme de Hitchcock que sobreviveu ao tempo. Quer dizer, sobreviveu em parte: eram dois rolos; um desapareceu. E Hitchcock, na verdade, não foi creditado. Originalmente, ele havia sido contratado como assistente de direção, mas o produtor brigou com o diretor Hugh Laurie, e Hitchcock foi promovido de função. Remake de um filme de mesmo nome de 1914, o curta é apenas uma curiosidade histórica e, ao mesmo tempo, fundamental para a história do cinema.

“Um diretor tão excepcional não poderia ser tema de uma retrospectiva qualquer”, Para quem gosta desse maravilhoso diretor como eu, ainda dá tempo. A mostra está no CCBB do Rio e acaba no dia 15/07. Prestigie!

Anúncios

Seu comentário é importante para nós! Participe! Ele nos inspiram, também!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s