Léolo – Porque Eu Sonho (Léolo, 1992)

A infância pode parecer um período alegre e cativante para muitos dos que preferem lembrar apenas os momentos bons, porém talvez alguns saibam o quanto esse período pode ser difícil. Léolo justamente nos faz recordar a gama de emoções que uma criança pode sentir com acontecimentos avaliados pelos adultos como simplistas. A observação ao seu redor, a descoberta do prazer, a leitura como escape da solidão, o primeiro amor, a culpa, surras, bebidas alcoólicas, iniciação sexual. Os assuntos ali abordados referem-se à vida de um menino comum em plena década de 1980, onde os tabus estavam em alta e as crianças não possuíam acesso a todo tipo de informação e, muito menos, os adultos estavam dispostos a conversar com seus filhos sobre determinados assuntos. Entretanto, apesar de conter tantas denúncias, Léolo pode ser considerado um filme nostálgico sobre a imaginação, o protagonista viaja pelos seus sonhos e, assim, escapa da realidade suja do mundo. Além disso, nós, telespectadores, espiamos por uma fresta os improvisos de uma geração sem internet. Se atualmente as crianças vivem solitárias trancadas em apartamentos, só podemos concluir que naquela época, sim, havia aventuras.

Sinopse: Um pai obcecado com a saúde dos intestinos da família, um irmão cujos exercícios de musculação mal conseguem esconder seu medo das pessoas, duas irmãs que passam cada vez mais tempo em uma enfermaria psiquiátrica, e um avô, o responsável pelo fracasso genético da família. Léolo, o personagem principal, é cada vez mais afundado nessa insanidade. Mas através da liberdade e da imaginação, consegue viver uma vida dentro de si mesmo. Vencedor de vários prêmios, é uma obra-prima poética e um dos filmes mais emblemáticos da década de 90.

“Porque eu sonho, eu não sou”. Essa é frase mais marcante do protagonista e a razão disso é a busca pela identidade. Léolo (interpretado pelo ator mirim Maxime Collin numa excelente atuação) possui uma vida miserável e é através dos sonhos que consegue se vir diferente da condição doente de sua família. Um exemplo disso é a própria origem contada pelo menino, ninguém pode derivar de um tomate, mas ele sonhou com isso a fim de recusar até, certo ponto, sua origem genética. O menino culpa o avô pelo desequilíbrio psicológico da família e é aí onde nós temos uma das cenas mais sinceras, ele tenta matar o avô. Nesse ato observamos toda a descrença do menino no futuro da família possuindo um parentesco com um homem tão vil e que, ainda por cima, possui relações com a garota de quem Léolo gosta. Mesmo que isso ocorresse apenas na imaginação do garoto (informação errônea pois a médica chega a conversar com ele sobre isso), demonstraria a competição sexual existente no universo masculino quando os gostos coincidem por uma mesma mulher.

Porque eu sonho, eu não sou.

O trauma é explorado de forma magistral na trama através do irmão de Léolo, um halterofilista, o qual não consegue superar seu medo de apanhar novamente de outro rapaz, agressor do mesmo na juventude. Em conseqüência, ele não possui bom rendimento na escola e é considerado anormal pela instituição. De fato, Léolo parece ser o mais normal de todos, afinal herdara a força psicológica da mãe, entretanto isso não o torna imune à esquizofrenia e à depressão genética da mesma, logo há certos momentos onde temos certas dúvidas sobre a saúde mental do mesmo, mas jamais é esquecido o fato dele ser apenas uma criança sonhadora e normal como qualquer outra.

Naquele dia, eu entendi o medo que vive em nosso mais profundo ser. E que uma montanha de músculos ou uma centena de soldados poderiam não fazer nenhuma diferença.

A leitura tem uma homenagem profunda no enredo, Léolo começa a narrar sua vida, lida somente pelo recolhedor do lixo (nosso narrador), um verdadeiro Dom Quixote, lendo cartas e livros jogados fora pelas pessoas e influenciando o rapaz a sonhar para escapar daquele lugar. É o único a dar atenção ao que o menino está sentindo, nem os professores importavam-se, deixando os alunos na dúvida quanto às mudanças no corpo. Há uma cena bem inteligente onde Léolo afirma não saber o nome daquilo entre suas pernas. O despertar para a sexualidade do menino é gradativa, observando sua vizinha seminua pela brecha da porta até possuir revistas em mãos, lembrando bastante o livro Complexo de Portnoy, porém com traços surrealistas. Podemos encontrar diversas referências à Psicanálise, tudo sem muitos floreios ou meras mensagens, ela está no cerne de todo o roteiro e, até hoje, é utilizada como instrumento de estudo do filme.

Não é surpresa para ninguém o fato da obra atualmente ser considerada Cult, uma prova de sua genialidade é que não é fácil esquecê-la. Talvez nós, que assistimos, passaremos dias e dias recordando o cotidiano de Léolo, pois o longa é, sem dúvida nenhuma, uma volta à infância com direito ao seu lado obscuro. Numa época onde os filmes com crianças (a exemplo de O Labirinto do Fauno, Hugo Cabret e Onde Vivem Os Montros) possuem a promessa de tocar as pessoas  surge Léolo, um ótimo exemplar sobre a infância masculina, sem apelar para metáforas Hollywoodianas de vampiros, monstros ou qualquer coisa que acabe afastando a pessoa da realidade crua que é o período da infância, recheado de alegrias e tristezas, afinal é o período onde estamos conhecendo o mundo sem o atrevimento adolescente ou a falta de tempo dos adultos, uma fase onde a reflexão é quase proibida para certos assuntos e, por isso, tão curiosa. As cenas ao som de “You Can’t Always Get What You Want” são emocionantes e expressam toda a melancolia da puberdade e o descobrimento dos vícios de uma nova geração perdida num mundo sombrio, mas disposta a se jogar sem pudor no mesmo. Minha última opinião, para encerrar, é de que o filme talvez seja uma oportunidade única de uma das experiências mais marcantes do cinema, merecendo portanto ser mais divulgado.

  • Meu conselho para quem for assistir: deixem de lado abordagens cinematográficas conhecidas e sempre positivas ou ingênuas da infância. Relembrem através de Léolo o que, de fato, representa esse momento.

“Porque eu sonho, eu não sou. Porque eu sonho. Eu sonho. Porque à noite eu me entrego a meus sonhos. Antes que me reste o dia. Porque eu não amo. Porque eu tinha medo de amar, eu não sonho mais. Eu não sonho mais.”

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