Os Acompanhantes (The Extra Man. 2010)

Já se sentiu meio deslocado achando que nasceu em época errada? Ou até que se sentiria mais integrado trazendo um tempo passado para a realidade atual? É meio por ai que temos em “Os Acompanhantes” a busca de um jovem em encontrar o seu “eu” perdido em algum tempo entre o passado e o presente.

Confesso que nas primeiras lidas acerca de “Os Acompanhantes“, até pelo fato dele estar como Comédia, pura e simplesmente, eu pensei que viria nos moldes de “Os Safados” (1988). Mas o filme segue um outro caminho, e que mais seria uma leve Comédia Dramática. Aliás, há trechos meios tristes. Não cai tanto em se ficar penalizados pelos dramas de vida de cada um dos personagens principais porque escolheram levar a vida desse jeito. Como também porque a excelente Trilha Sonora deixou o filme mais leve.

Agora, sem sombra de dúvida, quem nos faz acompanhar atento toda essa história é o carisma do ator Paul Dano. Por mais momentos tristes que há no filme, o seu Louis Ives meio que nos hipnotisa. Embora em certos trechos eu cheguei a pensar no Cillian Murphy em “Café da Manhã com Plutão“, não foi por comparar os dois personagens, nem muito menos as primorosas atuações de ambos os atores, a lembrança ficou mesmo com partes da história de vida dos dois personagens, porque escolheram dar uma outra história paralela para si próprios. Não indo pelo caminho de alguma Bipolaridade, mas sim dando um realce a vida que vinham tendo. Um jeito de não se sentirem tão deslocados no presente mundo.

Em Louis Ives batia uma tristeza tão profunda, que nem se incomodou de ter sido demitido injustamente. Fora pego num flagrante pela Diretora do Colégio onde lecionava Literatura Inglesa. Por uma pequena tara. Nem sei se o termo correto seria esse. Mas o lance também fazia parte dessa sua busca futura, como também a atitude preconceituosa da tal Diretora, era algo a pesar nessa balança. As aparências pesando no julgamento dos outros. O não ter peito para assumir o seu jeito de ser.

Louis ainda leva um tempo para ir morar em Manhattan. Um sonho antigo. Uma cidade que lhe daria não apenas o fato de não se sentir deslocado, como também suporte para transpor para o papel sua fértil imaginação. Queria muito se tornar um escritor do porte de quem muito admirava: F. Scott Fitzgerald. Louis meio que se sentia um personagem de o “Um Grande Gatsby”. Alguém em plena Década de 20. Mas quem?

Embora por caminhos tortos, o destino conspirou a seu favor. Louis vai morar num quarto de um senhor muito excêntrico. Mas que aos olhos de Louis, o apartamento assim como o dono, eram um mundo num tempo onde queria viver. Acontece que essa convivência não seria nada calma. Mas Louis estava disposto a enfrentar aquele Mar das Tormentas. Até porque, de vidinha pacata ele já estava cheio.

Quem faz o tal senhor excêntrico é Kevin Kline. Seu Henry Harrison é um personagem que em outros tempos, cairia como luva para David Niven. E foi por esse pensamento que me perguntei do porque Kevin Kline não fez dele memorável. Competência, ele tem de sobra. Não sei se o casal de Diretores, Shari Springer Berman e Robert Pulcini, travaram-no um pouco. Se sim, foi bobagem. Já que ter os dois – Louis Ives e Henry Harrison -, numa performance soberba, daria ao filme um ingresso direto a um Clássico. Kline atuou bem, mas o seu “Harrison, H” com o tempo se apagará da memória.

Um cavalheiro e seus impulsos devem viver em constante negociação.”

O personagem de Kline, também um professor, é um acompanhante de senhoras viúvas e ricas. Que moram numa das partes privilegiadas de Manhattan: o Upper East Side. Mais que um Personal Friend, esse seu lado B, tem como de ainda sentir o gosto de tudo que já viveu. Pois Henry já fora um rico herdeiro. Mais que “o dinheiro comprando por um homem à mesa de jantar”, é tentar manter e viver o glamour de outrora. Louis quis vivenciar em ser um desses acompanhantes. Mas a oportunidade só veio por um outro acidente do destino.

Enfim, será o peso a se dar a essa situação por um todo. Os dois lados dessa balança. Com que olhos verá o usar e ser usado! Ou, para ser mais romanceado: com que papel se sentirá nessa atual realidade. É a solidão pesando? É se aceitar em harmonia com os seus próprios princípios? Ditando suas próprias regras. Mesmo que elas fujam do convencional? Mesmo que aos olhos de muitos não vejam nada ético no que estão fazendo. Mas se é onde se vê de fato integrado ao mundo atual também pondo em prática o seu lado B, fica um: E por que não?

Os demais personagens, em destaque – John C. Reilly, Katie Holmes, Dan Hedaya, Marian Seldes e Celia Weston -, estão em uníssonos com toda a trama. De certo modo, eles também irão a um encontro consigo mesmo. Onde os dramas de alguns fariam de “Os Acompanhantes” um filme depressivo, mas como citei, Louis Ives é tão cativante que ao final do filme fica uma certa leveza como numa exaltação silenciosa: “Que bom, Louis!” E o peso se dissipa.

Então é isso! Se chegou até aqui, teve uma ideia do que encontrará. É um filme que não agradará a muitos. Mas me arrisco em dizer que será difícil alguém achar que perdeu tempo em assistir. Eu gostei! Como também posso rever um dia. Embora Kevin Kline não roubou o filme, talvez por cavalheirismo, pelo todo é muito bom! E o personagem de Paul Dano ficará por um longo tempo na memória, numa cativante lembrança.

Nota 8,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Acompanhantes (The Extra Man. 2010). EUA, França. Direção: Shari Springer Berman, Robert Pulcini. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 108 minutos.

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4 comentários em “Os Acompanhantes (The Extra Man. 2010)

  1. Acabei de ver o filme. Gostei muito, é de uma enorme riqueza humana, mexendo com “aquilo que somos” versus “aquilo que queremos ser”. O personagem de Kline É, o de Dano quer SER. Daí sua admiração por Harrison, H., apesar de todos seus defeitos. O personagem de Reilly, Gershon (o rude para Gershwin) é também muito bem construído, aquele homem das cavernas com voz de falsete, perdido em si mesmo. Concordo com vc, Kline poderia estar melhor, e isso foi um problema de direção, sem dúvida. Ficou contido, a toda hora o personagem parecia que ia explodir, mas murchou, melancólico. Também acho que o filme foi sobre-editado, deixando muitas deixas em aberto, como o encontro de Harrison com com o cadaver de Vivian – ali poderia ter muita coisa a mais…

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