Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios – 2012

Olá, pessoal. A crítica de hoje é a respeito de um lançamento nacional bem recebido pela crítica do país nesse ano: Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios. Ganhador de vários festivais, o filme é inspirado no livro título de Marçal Aquino e dirigido por Beto Brant com Renato Ciasca, narra a história de Cauby, um fotógrafo bem sucedido residente no interior do Pará. Ele se apaixona por Lavínia, uma mulher sensual e imprevisível, esposa de um pastor local. Em meio à luta de garimpeiros contra uma Mineradora, o casal vive um momento de entrega completa, cada um explorando o ser do outro na descrição para as telas de experiências sensoriais. Entretanto, após ler a obra e assistir ao longa-metragem, o que aparentava ser uma profunda reflexão sobre as sensações de um romance, transforma-se numa das obras mais superestimadas, com direito a idealização deveras machista da mulher, resoluções ridículas de dificuldades encontradas pelas personagens, aparente preconceito contra pessoas interioranas e apelo intelectual.

Camila Pitanta no auge de seu talento

O foco da trama está em Lavínia, idealizada por Cauby, o qual passa boa parte de seus encontros fotografando-a. A promessa do roteiro é fazer-nos apreciá-la aos olhos do protagonista, mas isso não ocorre. Camila Pitanga foi escolhida para dar vida a ela. Na melhor atuação de sua carreira e nos deixando de queixos caídos pelo nível de entrega à ficção, a atriz tem um desempenho maravilhoso, todavia não estamos prestando atenção à Lavínia e, sim, à sua intérprete, detalhe dotado de uma enorme diferença. O problema está na imbecil oscilação comportamental da personagem. Já citei isso nesse site antes, alguns autores utilizam uma espécie de estratégia a fim de tornar sua dama literária totalmente distinta de qualquer outra mulher real, isso ocorre através de atos imprevisíveis com alternâncias repentinas de humor, ações estranhas compensadas pela grande beleza da amada ou bondade revelada. Com Lavínia, a apelação vai além e parte para sua trajetória de vida, criando um passado turbulento e extremamente exagerado causador de pena para despertar uma fagulha de interesse no telespectador.

Cauby em sua idealização forçada

Com nossa visão crítica “esfumaçada” pela narração obsessiva de Cauby em convencer-nos dos motivos que o levam a estar apaixonado, só na adaptação cinematográfica despertamos para os principais elementos com falhas, pois acompanhamos o romance de longe. A amada de Cauby sofre de uma inconstância incômoda, desde seu nascimento já está no fundo do poço e seu amante só nos serve de exemplo para isso por ela estar abandonando sua única chance de recuperação, o pastor. Há momentos de pura histeria, onde Lavínia aparenta ser doente mental, mas para Cauby está tudo muito bem. Em várias partes do longa, o casal faz uso de drogas como se a intenção fosse nos provar o quanto sentiam-se livres. No livro, é revelado um pedófilo assassinado por um morador local, o qual descobriu envolvimento do filho com o aliciador. Todos da cidade comemoram a saída do pai (que matou o pedófilo) da cadeia, apenas Cauby está triste, como se Marçal Aquino nos quisesse provar o quanto seu protagonista possui humildade diante dos outros. Sem falar na parte onde o amante flagra Lavínia lavando sua louça sem avisar, ao questioná-la ela afirma “Eu gosto”.

Optando por um estilo mais alternativo, o longa-metragem é cansativamente lento, acompanhando a febre mundial do estilo “feito para festival”, cujo resultado nem sempre é satisfatório e cria a ilusão de possível inteligência quando, na verdade, é apenas mais uma trama simplória com recursos óbvios de apelação. No elenco só podemos destacar a estonteante e incrivelmente talentosa Camila Pitanga (a atriz merece aplausos em pé) e ZéCarlos Machado como o pastor Ernani, a atuação de Gustavo Machado como Cauby é decepcionante.  Sem fazer bom proveito do contexto histórico, o clímax não consegue construir uma ponte coerente entre os problemas do casal central e a crise do garimpo, provocando um desfecho péssimo onde a vilania e ameaça ao romance foram se apoiar covardemente sobre os ombros das pessoas retratadas no interior. Honestamente, se esse tipo de história constituir a nova fase do Cinema Nacional, então não haverá avanço.

Nos bastidores, Camila Pitanga lê a obra de Marçal Aquino. Ela merece mais do que isso.

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