CURTA CINEMA 2012 RIO DE JANEIRO

Há um fantasma que assombra os festivais de curta-metragem no Brasil: É o terrível espírito do cinema experimental. Nada errado em querer inovar e parecer original na mostra competitiva, mas custa testar o produto de qualquer tentativa ousada, antes de brindar o público com toda a sorte de inovações pretensiosas que precisariam de um longo debate para serem desvendadas, se é que isso seria possível? Por que os novos cineastas não chamam a família e os amigos para uma sessão prévia e pedem uma opinião sincera que poderia mudar o curso de um produto final catastrófico?

Confesso que não vi muita coisa do festival, justamente por ser tão cansativo e desestimulante ter de enfrentar títulos tão pouco atraentes como “Tokyokoro”, “Kaatal”, “Shkurta” ou “Sendai” em estórias sem pé nem cabeça. Na tela, muita imagem distorcida, tremida, difusa e sem nenhum conteúdo aparente como um casal no pasto numa tomada longuíssima de caminhada, cada um com um animal, um beijo e depois o lento retorno. O que diabos o realizador quis dizer com isso?

Num outro curta de Portugal (Alvorada Vermelha – Red Dawn), cenas nauseabundas do mercado vermelho de Macau na China são misturadas com a aparição de uma espécie de sereia na água dos bichos. Assim enguias, peixes e animais abatidos e semimortos convivem com a etérea e estranha criatura aquática no meio do cotidiano sanguinolento da feira. Inacreditável! Nesta linha surreal, o nacional “Dizem que os Cães Veem Coisas” do Guto Parente tenta inovar na fotografia contrastante num evento esquisito na piscina, mas esqueceu de dizer a que veio.

No meio dessa verve pseudocriativa, sempre se salvam pérolas como o nacional “Animador” (Carny) em 35 mm de Cainan Baladez que embora também siga um traço nonsense, tem uma direção segura, um elenco afinado e uma estória atraente. Tudo se passa num parque de diversões (O Playcenter de São Paulo) onde é narrada a rotina de uma estranha funcionária do lugar que ganha a vida se vestindo de coelho. Com uma ideia bacana que renderia num roteiro mais apurado, o filme tem um humor peculiar e é realizado com profissionalismo surpreendente.

Do Egito, “41 Dias-41 Youm” (41 Days) de Ahmed Abdelaziz tem um ator mirim que é simplesmente irresistível na pele de um menino que é obrigado a cumprir um período de luto de morte na família justamente na época da Copa do Mundo. Ele simplesmente quer ver os jogos na televisão e a irmã quer dançar balé, práticas proibidas naquele momento pela severidade da religião muçulmana. As tentativas de burlar a vigilância da mãe austera criam momentos super-hilários que convergem num final feliz.

[Continua em “Amores Passageiros“.]

Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro 2012.

Por Carlos Henry.

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