“As Quatro Voltas” (2010): Uma Reflexão Silenciosa

as-quatro-voltas_2010Por Eduardo Carvalho.

Um pastor. Uma cabra. Uma árvore. Um punhado de carvão. Protagonistas silenciosos de suas estórias. Sem uma única linha de diálogos, o diretor italiano Michelangelo Frammartino faz de “As Quatro Voltas” uma experiência única no cinema contemporâneo. Na quietude da paisagem de uma velha vila do sul da Itália, o silêncio intima o espectador a ficar atento às imagens quase documentais projetadas na tela, corriqueiras caso houvesse uma mínima troca de palavras entre o velho pastor e uma mulher que varre o chão da igreja local. Mas são tais imagens que narram os fatos; se há uma tensão que perpassa todo o filme, esta advém da ausência de um texto – uma narração em off, que fosse – que apontasse para uma estrutura dramática convencional, e da mais banal utilização do elemento visual como fio condutor da narrativa.

as-quatro-voltas_02Mas tal banalidade é apenas aparente. Com doses de humor – a gag envolvendo uma caminhonete desgovernada e uma cerca – e de drama – a cabra que se perde do rebanho –, o diretor conta quatro estórias sobre o início e o fim da existência, e das relações entre os seres. O homem não é apartado da natureza; o ser humano é apenas e tão somente mais um componente finito dentro de todo um processo, igualado aos demais, tão importante e tão insignificante quanto os demais. Frammartino mostra, com a sutileza de sua arte, que a morte de um homem tem o mesmo peso de uma árvore derrubada. E isto sem recorrer a qualquer tentativa barata de persuasão ideológica.

as-quatro-voltas_00Paradoxalmente, “As Quatro Voltas” é um filme visual que simplesmente não explora o visual, ao menos no sentido convencional. Qualquer documentário do National Geographic se utiliza das imagens, com todos os recursos de uma super câmera lenta e de zooms inacreditáveis, de modo sensacional. Se o espectador por acaso lembrar-se da utilização de imagens e silêncios por Stanley Kubrick na primeira parte de “2001”, o filme de Frammartino é quase uma antítese. O prólogo de “Uma Odisseia No Espaço”, denominado “A Aurora do Homem”, faz uso de imagens espetaculares em seus grandes planos, oferecendo um quadro de contemplação aos olhos do espectador. Porém, com cada um de seus enquadramentos precisos e muito bem fotografados, “As Quatro Voltas” propõe um trabalho contínuo de pura reflexão, dada a aridez de cada cena. Se há algum ponto de convergência possível entre as duas obras, é um certo teor místico-religioso presente, onde a natureza (o divino?)  se mostra como o ordenador por trás de cada evento da vida, seja ele decisivo na história humana, seja no cotidiano de uma vila italiana ignorada pelo caos de um mundo urbano.

Michelangelo Frammartino faz um cinema na contramão do cinema, estimulando o sentido da visão sem nenhuma artificialidade. Como se não bastasse, não é complacente e nem crítico da raça humana. Apenas coloca-a no seu devido lugar.

IMDb – As Quatro Voltas.

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4 comentários em ““As Quatro Voltas” (2010): Uma Reflexão Silenciosa

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