Branca de Neve na Arena (2012)

branca-de-neve_2012Por Eduardo Carvalho

Ok, você lê a sinopse e pensa: mais um filme baseado em um conto dos irmãos Grimm? Ou ainda: mais um filme mudo em branco e preto, querendo pegar o embalo de “O Artista”… se você leu algo sobre “Branca de Neve” e pensou assim, não se engane. É uma impressão superficial. Coisa que este filme decididamente não permite.

branca-de-neve_01Espanha, 1910. Antonio Villalta, o maior toureiro de sua época, sofre um grave acidente na arena, que o impossibilita de continuar sua carreira. Simultaneamente, sua esposa grávida, abalada com o ocorrido, morre logo após dar à luz uma menina. Villalta repudia a criança, que passa a ser criada pela avó materna. Após mais uma fatalidade na vida da pequena Carmen, ela vai viver com o pai e a madrasta; aí começa, propriamente dito, seu caminho como Branca de Neve, com humilhações e obstáculos no percurso.

branca-de-neve_02Anões toureiros, um galo chamado Pepe, o mal encarnado na bruxa/madrasta. Elementos do conto original são adaptados e misturados a aspectos da Espanha das touradas. Doses bem colocadas de humor são adicionadas à trajetória de Carmen, numa narrativa visual tomada por total lirismo. A trilha sonora, a fotografia captando majestosamente a luz da arena de Sevilha, a edição mesclando simulacros de truques antigos a cortes precisos – as cenas envolvendo os dois vestidos de Carmen são primorosas – e as atuações marcantes de todo o elenco, fazem o espectador esquecer que trata-se de um filme sem diálogos.

branca-de-neve_03Tal aspecto, aliás, resulta em duas consequências. Uma vez que os atores não têm voz, suas interpretações, levadas a cabo apenas através de seus olhares e corpos, tornam-se superlativas. Macarena Garcia (Carmen), a pequena Sofia Orla (Carmencita), Maribel Verdú (a madrasta Encarna, cuja maldade só está à altura da futilidade), Daniel Gimenez Cacho (Antonio Villalta) e Angela Molina (Dona Concha) dão nova vida aos personagens preexistentes em nossas mentes, agora recriados pelo diretor Pablo Berger. E as poucas legendas deixam cada espectador livre para que ele (re) crie sua própria visão de toda a estória. Por mais que esta seja linear e bem definida, as ausências de cor e de som remetem a plateia à sua infância e aos primórdios do cinema, fazendo do ato de assistir a Blancanieves uma experiência altamente introspectiva e sensorial. Guardadas as proporções, é como se estivéssemos na Paris do final do séc. XIX, olhando uma tela onde um trem chega à sua estação.

Impossível ainda deixar de notar os caminhos trilhados por essa Branca de Neve moderna. Como compreender uma princesa que dança graciosamente o flamenco, e sabe empunhar o pano vermelho e a espada na arena? Cedendo o lugar a Carl Jung, pode-se dizer que Carmem / Branca de Neve percorre um caminho de total integração com aspectos masculinos e femininos de seu ser,  animus  e  anima. A cena em que Carmem rejeita o chapéu feminino que lhe é jogado, dando preferência ao chapéu de toureiro de seu pai, é altamente esclarecedora dessa individuação. Aprendiz das lições que a vida lhe ensinou, ela ao fim amadurece a ponto de não necessitar de um príncipe. Não de um príncipe, ao menos, do modo que se espera que seja.

Concebido com tal estética anos antes de “O Artista”, o filme se beneficiou do sucesso e dos Oscars que aquele ganhou; Pablo Berger tem o bom senso de não negar o fato, pois bem sabe que é o único elemento em comum com o filme francês. Embora não abra mão do embate maniqueísta entre Branca de Neve e sua madrasta, faz de seu filme uma obra altamente original, suplantando os limites de uma estória tão conhecida de todos.

Ao final, o saldo é de puro encantamento.

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5 comentários em “Branca de Neve na Arena (2012)

  1. Sensacional!

    Um filme com um roteiro por demais inteligente.
    É uma obra que nos fala de vaidades, amizades, traição, fantasias. Mas sobretudo de amor e VIDA.

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  2. Val, que ótima diagramação você fez, além das montagens com as imagens. A 3ª montagem praticamente conta toda a 2ª metade do filme. Obrigado e parabéns pelo trabalho!

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  3. Pingback: A Gangue (Plemya. 2014) | Cinema é a minha praia!

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