Clamor do Sexo (Splendor in the Grass. 1961)

clamor-do-sexo_1961RETRATOS SEM RETOQUE

É praticamente impossível rever CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass), de Elia Kazan (Viva Zapata, Sindicato de Ladrões, Um Rosto na Multidão), realizado em 1961, sem sentir um nó na garganta ou no peito. Talvez mesmo nos dois. Mais do que um simples melodrama, do que um estudo sobre a crueldade das convenções, temos aqui um retrato de extrema sensibilidade dos anseios mais preciosos da condição humana, de abrangência universal.

clamor-do-sexoO roteiro original de William Inge (premiado com o Oscar) trata do preconceito e do puritanismo vigentes numa pequena cidade do Kansas, em 1928, onde os desejos deviam ser subjugados pela moral vigente e valores religiosos. A jovem Deanie (Natalie Wood) namora Bud (Warren Beatty), o filho do homem mais poderoso das redondezas. Apesar de apaixonados, ele começa a desejar algo mais na relação, aos poucos a pressionando para a entrega sexual.

Encurralada pela rigidez da mãe, passando pelos conceitos de certo e errado, confrontada pelos próprios desejos e pelo namorado impaciente, ela aos poucos mergulha num processo de esgotamento nervoso. Enfim, sucumbe por não conseguir satisfazer simultaneamente as expectativas daqueles que ama, enquanto vê seus sonhos de felicidade caírem.

A câmera de Kazan vasculha as fachadas respeitáveis, as hipocrisias sociais, sem necessitar tomar partido. Os efeitos de uma severa estrutura social sobre a deterioração mental de Deanie não necessitam de maiores condenações. Por outro lado, os Estados Unidos viviam uma época de euforia, de crescimento desenfreado e, neste panorama, a sexualidade poderia ceder lugar às posturas conservadoras, aos interesses práticos, à riqueza acumulada.

Um castelo de areia preste a desmoronar perante a iminência da crise da bolsa em 1929, que levaria à Depressão Econômica. Algo semelhante ao retratado por Lillian Hellmann na peça “The Little Foxes”, onde a ganância capitalista de uma nação emergente fazia uma mulher matar seu desejo de amor e sexo na busca do poder e da fortuna.

Kazan e Inge são habilidosos ao mesclar o velho e novo, a estratificação e o vigor, num microcosmo onde o encanto é esmagado pelo status, os devaneios são vencidos pelo materialismo. Em contraponto, enquanto o país caminha cegamente para a bancarrota, a força vital e mental de Deanie também são sugadas: a própria engrenagem se alimentava daquilo que causaria sua perdição, exaurindo o futuro de outras formas, através do sacrifício de seres frágeis e indefesos.

Habilíssimo diretor de atores, Kazan extrai desempenhos memoráveis de um elenco de primeira, em especial Audrey Christie (a rigorosa mãe de Deanie) e Pat Hingle (o ambicioso pai de Bud), além do jovem par central (Beatty estreando nas telas, Natalie em seu primeiro papel maduro). Tudo pontuado pela tocante trilha sonora de David Amram, cujos acordes muitas vezes são as batidas do coração dilacerado, e iluminado pela melancólica fotografia de Boris Kaufman, que utiliza a cor como representação de estados emocionais latentes.

A comovente cena final, quando os antigos apaixonados se reencontram, já marcados pelo afastamento e pelas cicatrizes dos anos que transcorreram, é uma das mais belas já captadas em filme. Um primor de abordagem dramática, de utilização da câmera, construindo um ritmo permeado por desencanto e fugazes esperanças.

Um desenlace preciso e emocionante de um drama magnífico, cujo poema de William Wordsworth, de onde é extraído o título original, funciona como o epílogo agridoce do rito de passagem involuntário à maturidade:

Embora nada possa devolver os momentos de esplendor na relva, de êxtase entre as flores, jamais devemos desistir, pois sempre encontraremos forças naquilo que ficou para trás”.

Uma obra-prima sensível, absoluta e irretocável.
Roberto Souza.

CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass), 1961, dirigido por Elia Kazan, estrelado por Warren Beatty e Natalie Wood.

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