A Mulher que Caiu na Terra : “SOB A PELE” Além de Scarlett Johansson

sob-a-pele_2013_cartazPor Eduardo Carvalho.
Uma estória bem contada sempre é uma estória bem contada. A literatura e o teatro valem-se dessa premissa há muito tempo. No entanto, o cinema tem peculiaridades que lhe permitem extrapolar uma estória bem contada. Fotografia, edição, som, quando bem utilizados, podem criar uma linguagem diversa, para gerar uma obra diversa.

scarlett-johansson_sob-a-peleCineastas como Stanley Kubrick, Nicolas Roeg, David Lynch e Andrei Tarkovski, cada qual à sua maneira, souberam explorar uma linguagem que valorizasse a imagem como fio condutor de algumas de suas obras. “Sob A Pele”, de Jonathan Glazer, parece se encaixar nesta categoria. Ao apresentar Scarlett Johansson como uma alienígena que chega à Terra, que se vale da beleza e da sensualidade das formas que tomou para si, a fim de seduzir homens que lhe serviriam de alimento, o diretor opta por uma narrativa que mais sugere do que explicita. Quem quiser saber por que e para que a protagonista está ali, esqueça. Quem quiser saber a exata função dos aliens motoqueiros, esqueça. O filme centra seu foco na figura da bela serial killer extraterrestre, que busca homens solitários para sua empreitada. Entre uma sedução e outra, entre uma morte e outra, a protagonista observa um casal afogar-se no mar, enquanto o bebê órfão chora ao lado na areia. Impassível diante do ser humano e seus dramas, como qualquer ser de outro planeta o faria.

sob-a-pele_2013_cenasPorém, ao conhecer um homem tão diferente por fora como ela é por dentro – o britânico Adam Pearson, que realmente sofre de neurofibromatose, que causa deformidades no rosto –, a predadora começa a apresentar sinais de compaixão. Assim como os homens que destrói, ela também passa a se sentir uma solitária. A partir daí, tenta compreender o ser humano a partir de sensações e rascunhos de sentimentos. Conhece gestos de bondade de que os homens podem ser capazes, se afeiçoa a um deles; passa a enxergar suas formas humanas no espelho com um outro olhar. Sua curiosidade gera mais sentimentos, e estes geram fraquezas. E sua fraqueza gera sua desgraça.

sob-a-pele_2013_fotografiasHouve quem notasse uma semelhança entre seu isolamento e o da personagem Valentina, de “A Noite”, de Antonioni – realmente, o cabelo preto de Scarlett Johansson está muito parecido com o de Monica Vitti. Somos todos seres incompletos e silenciosamente inquietos, e o alimentar-se do outro preencheria esta lacuna insolúvel. Da mesma maneira, as semelhanças entre as imagens de abertura e a de “2001”, bem como o uso de uma trilha sonora de tons enervantes, como em “De Olhos Bem Fechados”, ambos de Kubrick, não parecem ser ocasionais, e não passam desapercebidas. Através de sons e imagens – é ótima a fotografia explorando luz e sombra das paisagens da Escócia – , Jonathan Glazer parece evocar um certo sentimento de estranheza e de não pertencimento que a reflexão provoca no indivíduo, deste e de qualquer planeta.

Dividindo público e crítica, “Sob A Pele” já tem seus detratores e seus admiradores. Lento e bocejante para uns, uma obra-prima incompreendida para outros, o filme está em algum lugar entre estes pólos. Ao misturar, ao menos na superfície, ficção científica a um terror que nunca se evidencia, Glazer cria uma obra aberta, curiosa e única, com camadas de leituras possíveis. “Sob A Pele” torna-se forte candidato a cult movie. O tempo dirá o que aconteceu.

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2 comentários em “A Mulher que Caiu na Terra : “SOB A PELE” Além de Scarlett Johansson

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