Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

los-olvidados-posterEste é, sem dúvida, um dos grandes filmes de Luis Buñuel. Pela sutileza realista e cruel com que representa a exclusão social, pela clareza com que mostra a violência crua à qual estão submetidas as populações periféricas das grandes metrópoles e por tocar no ponto central que gera essa violência. A recorrência da temática social na obra do cineasta espanhol é grande, sendo tema de importantes referências de seu trabalho, como é o caso de O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoise, 1972). Mas em Os esquecidos o que mais me impressionou foi a construção fílmica das situações.

Nenhum personagem é vilão, pois as atitudes individuais são mostradas como resultado da situação social a que estão submetidos. Assim, o jovem Jaibo, líder da gangue de meninos, egoísta e ensimesmado, nos é apresentado como um delinquente, mas sutilmente Buñuel nos faz ver que ele é produzido por um sistema que não visa nem educar nem prover as necessidades básicas das populações pobres, mas reproduzir e reiterar a violência física, simbólica e psicológica em reformatórios.

Da mesma forma, a mãe de Pedro não é compreendida como um desalmada que não liga para o filho mais velho, lhe nega comida, entrega-o à escola agrária e ainda se envolve com Jaibo (que a essa altura já roubou uma faca do patrão do seu filho, pelo qual deixou Pedro levar a responsabilidade). Mas sim, ela é mais uma vítima do sistema excludente e machista, que a obrigou a casar-se aos 14 anos com um homem que a abandonou com os filhos, por quem tem que trabalhar várias horas por dia, sem conseguir lhes dar afeto, apenas o mínimo do mínimo para que não morram de fome.

Pedro quer constantemente “tomar jeito” e trabalhar, já que não consegue estudar, mas as condições de vida o impedem de fazê-lo. Mesmo quando recebe a confiança do diretor da escola agrária, Jaibo aparece para fazê-lo fugir, levando-o para a morte. A violência que permeia todas as relações desenroladas no filmes faz com que possamos entender que ela não é fruto dos indivíduos em si, mas sim, uma imposição de uma força maior que os oprime a todos com constância e firmeza. Assim, as cenas do ataque dos meninos ao cego ou ao aleijado são incômodas na medida em que representam o processo autofágico que (des)ordena a vida e o cotidiano das populações marginalizadas (tanto porque estarem à margem quanto por serem mantidas à margem).

10418155_697084740340223_4893991445148083285_nA qualidade do filme só aumenta quando percebemos, contudo, que não há uma naturalização do recurso à violência como algo inerente à pobreza, através tanto do personagem de Julian, quanto pela origem da grande violência ser sutil e constantemente  apresentada como vindo de cima. Quem sugere um possível agente de transformação é justamente o diretor da escola agrária para onde Pedro é enviado: trancar a miséria em vez das crianças!

Os esquecidos no IMDB.

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