Philomena (2013). “Eu não abandonei meu filho.”

philomena_2013Por Pedro H. S. Lubschinski.
A história narrada pelo jornalista Martin Sixsmith em seu livro, The Lost Child of Philomena Lee (que por aqui recebeu o extenso título Philomena: uma Mãe, Seu Filho e uma Busca Que Durou Cinquenta Anos), nasceu para ganhar as telas de cinema. É uma daquelas histórias que, de tão incríveis, só poderiam ter ocorrido do lado de cá, na vida real. A Philomena (Judi Dench) do título é uma senhora de idade que 50 anos depois de ter seu filho pequeno tirado à força dela e colocado para adoção no convento em que vivia, decide procurá-lo com o auxilio do jornalista Martin (Steve Coogan), com quem embarca para os Estados Unidos onde a criança cresceu ao lado dos pais adotivos.

philomena-2013_stephen-frearsO grande mérito da produção dirigida por Stephen Frears se encontra na abordagem adotada pelo roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope, que contrariando toda a dramaticidade presente na jornada de Martin e Philomena, opta por rechear o longa com um bem-vindo tom de leveza e comédia, que acaba por tornar o longa muito mais eficiente do que seria caso se enveredasse por um dramalhão barra-pesada. Assim, podemos acompanhar a relação entre a personagem-título e Martin ser estabelecida com calma e de maneira gradual, sem apelar para cenas que busquem emocionar o espectador com o drama de sua protagonista. Assim, por contraste, quando finalmente a obra de Frears assume sua dramaticidade, o choque que essas cenas proporcionam se torna maior, resultando em emoção genuína para a narrativa.

E já que mencionei a relação entre a dupla de protagonistas, é inegável que são esses dois personagens tão distantes em personalidade, mas próximos a partir do estabelecimento de um objetivo em comum, a grande força de Philomena. Encarnado com um preciso tom ácido por Steve Coogan (o nome não é coincidência, ele também assina o roteiro), Martin é um homem cínico e incrédulo. Jornalista que há pouco tempo possuía prestigio e um belo cargo em uma grande emissora, o personagem agora surge como um homem deprimido em função de sua demissão injusta e forçado a explorar uma “história de interesse humano”, algo que tanto repudiara em outros momentos. Assim, é interessante como ao longo da projeção Martin se vê mais próximo do drama de Philomena, indo de um jornalista interessado em sua história a um amigo que em um momento de particular desespero não se inibe em abraçar aquela mulher que chora em sua frente. Não que o filme – e aqui reside mais um grande acerto do roteiro – tente nos fazer aceitar que o personagem é mudado pela personagem de Judi Dench. O filme apenas estabelece uma ligação entre aquelas figuras, mas jamais tenta mudar as personalidades dispares que se mantém até o fim da produção.

philomena_2013_01Da mesma forma, a protagonista é devidamente desenvolvida pelo roteiro, surgindo como uma senhora simpática e de bem com a vida – “você é um em um milhão” é seu bordão ao conversar com alguém -, Philomena logo vai revelando marcas de sua tragédia pessoal que não poderíamos supor em um primeiro momento, substituindo seu sorriso marcante por uma expressão fechada e a decepção de que talvez seu filho que tanto procurou, jamais tenha ao menos pensado na existência dela. Além disso, é interessante a relação da personagem com sua própria fé, já que foi num local onde o amor à Deus e ao próximo deveria ser celebrado onde ela sofreu sua grande perda, o que a leva em determinado momento deixar de se confessar, como se percebesse que nem tudo o que um dia lhe disseram ser errado é realmente pecado, algo que, no entanto, não a impede de desculpar uma mulher que tanto lhe causou dor por não querer viver o resto de sua vida com raiva. E agarrando com talento inegável toda a complexidade da protagonista, temos a excelente Judi Dench, que utiliza cada ruga e linha de expressão de seu rosto para entregar uma atuação emocionante.

philomena_2013_02O texto a seguir contém spoiler.
Mas se elogiei à exaustão o roteiro no que diz respeito ao desenvolvimento de seus personagens e das relações entre eles, devo dizer que o texto não está isento de deslizes. Tudo parece fácil demais para a dupla de protagonistas quando eles chegam aos Estados Unidos – toda informação chega facilmente nas mãos deles, as pessoas abrem a vida do filho de Philomena sem questionar a possibilidade dela não ser realmente mão de quem procura e, quando convém uma pequena ameaça ao roteiro, o companheiro do filho de Philomena se faz de difícil em cooperar com sua busca, apenas para ser convencido facilmente pela velhinha. Da mesma forma, a filha da personagem de Judi Dench é esquecida pelo filme, não surgindo nem ao menos para ligar para a mãe preocupada com a viagem que lhe faz atravessar o oceano.

Dirigido com sutileza por Stephen Frears, Philomena apresenta, no entanto, um deslize que acaba por sabotar uma importante cena de seu terceiro ato: a inserção de flashes de vídeos com o filho da protagonista ao longo da projeção castra boa parte da emoção do momento em que a personagem finalmente assiste os tais vídeos. Por outro lado, é digna de aplausos a coragem da produção em retratar o “lado feio” da Igreja e da profissão de jornalista: da segunda, o filme critica, ainda que de maneira discreta, a posição de jornalistas e editores que alheios ao sofrimento de diversas pessoas busca apenas a noticia em acontecimentos trágicos, ignorando os sentimentos dos envolvidos. E da primeira, denuncia e critica as atrocidades cometidas ao longo dos anos com pessoas que tiveram como único erro expressar os próprios sentimentos – e ver Martin questionar a certa altura “por que Deus nos daria desejo sexual se fosse pecado” é algo que serviria para tantas outras questões que algumas partes mais conservadoras da Igreja insistem em atribuir como pecado, negando a própria natureza do amor defendido pelo mesmo Deus que utilizam para oprimir.

Equilibrando-se muito bem entre os extremos do drama e da comédia e oferecendo no caminho uma obra agradável de assistir, Philomena surpreende – ao menos me surpreendeu, já que não esperava nada do filme – ao se revelar uma obra que, se não está entre as melhores do ano, ao menos é um bom filme recheado de qualidades.

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