RELATOS SELVAGENS (2014). Rindo da Própria Desgraça!

relatos-selvagens-2014_cartazPor Eduardo Carvalho.
A vida contemporânea pode deixar a todos com os nervos à flor da pele. Problemas financeiros, emocionais, uma crise no casamento. O descaso do serviço público com o cidadão. Um xingamento aqui e ali, no meio do trânsito das grandes cidades.

Em cima de situações cotidianas, que a princípio poderiam ocorrer com qualquer um, Damián Szifron escreveu e dirigiu as seis estórias que compõem “Relatos Selvagens”. Estrondoso sucesso na Argentina, exagerando cada situação a ponto de deixá-la à beira do inverossímil, o filme faz rir de pequenas tragédias do dia-a-dia que tomam proporções absurdas, por conta da reação explosiva de cada protagonista. E o faz de forma engraçadíssima.

relatos-selvagens-2014_01O prólogo, que se apresenta como um encontro casual num avião, revela-se um maquiavélico plano de vingança do verdadeiro protagonista – que não aparece, mas apenas citado –, um músico erudito fracassado. Em seguida, uma garçonete hesita em executar sua vingança contra o responsável pela morte de seu pai, numa lanchonete largada à beira de uma estrada. O terceiro episódio é um bizarro embate digno de “Encurralado”, de Steven Spielberg, onde um simples xingamento na estrada leva a um duelo entre os motoristas de um Audi último tipo e de um sedã caindo aos pedaços, ao som de um hit romântico dos anos 80. O episódio com Ricardo Darin mostra mais um homem comum, de temperamento explosivo, que se vê às voltas com a burocracia do trânsito, perdendo a paciência e a razão, ao utilizar suas habilidades para se vingar do sistema – o personagem é perito em implosões. O penúltimo episódio, o único com final verdadeiramente trágico e não menos irônico, mostra uma família abastada tentando livrar o filho, que atropelou uma grávida, das garras da justiça, com um jogo de corrupção. Por fim, a última estória mostra uma festa de casamento explodindo de ressentimentos, violência, sexo e sangue, todos misturados no bolo dos noivos.

A simples sinopse de cada estória não é o bastante para revelar o tom mordaz e hilariante que Szifron imprimiu à obra como um todo. O único elemento que liga as estórias é a barbárie, e é o elo que basta. Cada protagonista teve seu ataque de nervos almodovariano – não por acaso, o diretor espanhol e seu irmão produzem o filme –, perdendo absolutamente o controle de suas ações, pois sente que perdeu o controle de sua vida. De modo planejado ou passional, cada um deles expressa o rancor de vítima que é de uma sociedade em crise, econômica e de valores, onde o menor fator pode transformar-se na gota d’água que irá gerar uma discussão, uma briga, um homicídio.

A montanha russa de emoções com que Damián Szifron lança os espectadores de “Relatos Selvagens” une o nonsense do Monty Python à brutalidade de Quentin Tarantino para retratar, de forma terrivelmente engraçada, os absurdos de que o homem do século XXI é capaz em um dia absolutamente normal.

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