A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

A Ilha dos Milharais-2014_00Por: Eduardo Carvalho.
A cada primavera, em uma área da antiga União Soviética, fortes chuvas carregam terra fértil do Cáucaso aos rios da região entre a Geórgia e a separatista Abecásia. Formam-se ilhotas no rio Enguri, usadas pelos habitantes do local para o plantio, quando procuram se precaver da escassez provocada pelo próximo inverno.

Indicado pela Geórgia à pré-lista do Oscar de 2015, exibido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Ilha dos Milharais” foi sendo descoberto pelos espectadores, ganhando menção honrosa ao final do evento. A estória do velho que cultiva milho com a ajuda da neta, nessa terra de parcos metros quadrados, é contada com poucas falas. Aqui, tem-se a impressão que o filme guarda semelhanças com o belo “As Quatro Voltas”, mas não. A proposta radical da narrativa do filme de Michelangelo Frammartino propõe uma reflexão sobre vida e morte; em “A Ilha dos Milharais”, não haverá apenas uma representação dos ciclos de criação e destruição. A quietude presta-se a outros propósitos.

A Ilha dos Milharais-2014_01Explorando basicamente o mesmo cenário o tempo todo, a fotografia é um elemento essencial, em conjunto com a narrativa lenta, para que o tempo de cultivo do milharal seja perceptível; mudam apenas luzes e cores, mas não o local da ação. A câmera aberta coloca o público em contato com os protagonistas inseridos na paisagem, e fechando o foco, exibe os sentimentos expressos em seus rostos, para que possamos ler ali as marcas do sofrimento. No entanto, ocorre ouro crescimento, tão rápido quanto o da plantação; de criança, a menina passa a mulher. Ao chamar a atenção de alguns homens às margens do rio, e na breve relação com um visitante inesperado, ela começa a perder a inocência infantil, descobrindo outras realidades.

E é em uma dessas realidades que entra o espectador brasileiro, sem conhecer a história dessa região. Aqui, o filme de George Ovashvili, também co-roteirista, ganha mais sentido, ao expandir seu contexto histórico. Velho e menina estão em uma terra de ninguém – terra de ninguém por duas vezes – conforme indica um dos poucos e certeiros diálogos entre ambos. Todo o silêncio e a comunicação através de gestos e olhares estão plenamente justificados, não só como opção de narrativa fílmica; dentro da perspectiva geopolítica daquele lugar, só quem detém o poder pode expressar-se com alguma liberdade. Mas isso ocorre somente ali?

O terceiro longa de Ovashvili une elementos tão díspares como beleza e política com precisão, conseguindo ainda extrair um par de grandes atuações dos protagonistas. O ator turco Ilyas Salman, com mais de 40 filmes no currículo, transmite toda uma esperança cansada nos gestos e expressões, sem necessitar de palavras. E a estreante Mariam Buturishvili mostra medo e vulnerabilidade na menina, diante das transformações hormonais que ocorrem dentro de si e ao seu redor.

Nessa sociedade contemporânea marcada por caos e excesso, descobrir “A Ilha dos Milharais” é mais do que um presente. É um convite para pensarmos sobre nossas reais necessidades de comunicação, sobre a inevitável passagem do tempo e seus ciclos. E, acima de tudo, nos mostra que nada é permanente na vida. Nem mesmo a terra sob nossos pés.

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13 comentários em “A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

  1. muito bom este blog (sou um amante de bom cinema só é pena não conseguir fugir ao funcional mostruário dos nossos tristes distribuidores e poucos , não temos opção de escolha e na internet não sei onde procurar debaixo desta imbecilidade www natural (digo eu) dos meus 52 anos

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    • Grata! E querendo ser mais um de nós, será bem-vindo!

      E em relação a distribuição dos filmes no Brasil, mais ainda sobre os que fogem aos do gênero blockbuster, ficam restritos a uma decisão discriminatória. Só como exemplo, moro no subúrbio carioca e aqui nem filmes do Woody Allen passa. Esse então, por certo também não.

      Ficamos à mercê deles!

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      • claro que quero ser um de vos (embora o meu “metier”seja a escrita o bom cinema deve ser divulgado pra germinar nas consciências de tantos “cinzentos” e zombeis que a nossa roda cada vez mais proliferam , há que fazer a diferença para que nesta ilha azul sejamos mais que milhares,sejamos milhões..namastibet (Jorge Santos)

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  2. A distribuição de filmes no país tem dificultado cada vez mais o acesso a obras como esta. Infelizmente, a solução para nós – não para os realizadores – parece ser a procura por sites com exibição online ou baixar o filme via torrent. O que seria uma tristeza com um filme de beleza plástica tão grande como este.

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    • Já me desloquei para assistir a vários na Zona Sul e com pouquíssimas pessoas enquanto nas salas onde exibiam os do tipo blockbuster estavam lotadas…

      Então me perguntava: “Se é para ter um público reduzido lá, por que não exibi-lo em muito mais salas?” Ganhando dinheiro com os de grande público.

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