Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte I

festival-do-rio-2015Por: Carlos Henry.
cine-odeon_rio-de-janeiroO Festival do Rio foi mais discreto esse ano, decerto por conta da crise, sem grandes convidados internacionais e com uma programação morna e sem grandes destaques. Neste ínterim, a película vira artigo raro em extinção dando lugar ao indefectível DCP (Digital Cinema Package) que dependendo da sala de projeção pode ocasionar uma imagem pálida, sem vida e provavelmente pior do que a sua tela de TV. Curiosamente esse processo de transição ocorreu rapidamente e sem estardalhaço e, portanto foi o sistema padrão adotado nas exibições do Festival. As noites de gala continuaram sendo no Cinépolis Lagoon de difícil acesso na Lagoa. No entanto, os artistas e a produção prestigiaram os animados encontros de cinema no antológico cinema Odeon no centro.

As pré-estreias nacionais que escaparam da febre da comédia barata, grosseira e fácil que assola o mercado brasileiro chamaram a atenção e resolvi conferir.

boi-neon_2014BOI NEON de Gabriel Mascaro onde o ótimo Juliano Cazarré mostra o seu talento na pele de Iremar, um calejado e bruto ajudante de vaqueiro, num evento de arena onde aquele universo aparentemente simples oculta uma rede relativamente violenta que movimenta muito dinheiro. O filme introspectivo e de ritmo lento desvenda o cotidiano da Vaquejada desvendando sonhos aparentemente díspares como o de Iremar em ser estilista trabalhando nas horas vagas em sua pequena máquina de costura. Maeve (O Som ao Redor) Jinkings faz parte desta endurecida equipe de bastidores dividindo seu tempo entre o trabalho, suas performances à noite vestida como um cavalo numa roupa desenhada e manufaturada por Iremar (A cena filmada para uma plateia de vaqueiros reais dá o tom surreal à obra.), os cuidados com a filha curiosa e rebelde e os desejos sexuais naturais de mulher. Vinicius de Oliveira, a descoberta mirim de Central do Brasil tornou-se um ótimo profissional e faz uma participação notável no longa. O filme não teme a exposição dos corpos nus e a fisiologia humana que por vezes pode parecer chocante, quase pornográfica, o que exige coragem e ousadia dos atores. Afinal, masturbar um cavalo não é para qualquer um. Extraordinário, mas definitivamente nada popular.

jonas_2015JONAS de Lô Politi conta com o menino Jesuíta (Tatuagem) Barbosa que está cada vez melhor. Infelizmente sua atuação neste filme está um pouco exagerada na angústia e ansiedade. Um tom mais contido certamente daria um resultado melhor. O filme parte de ideia boa com interessante utilização de nomes próprios para narrar um evento de suspense acontecido no carnaval. A ação se desenvolve a partir de um sequestro que acontece por conta de um acidente provocado pela paixão de Jonas pela filha da patroa de sua mãe (Apesar do pequeno papel de empregada, Luciana Costa, como sempre, “Ó pai Ó” consegue dar muita graça ao seu personagem). A situação foge de controle e o rapaz decide esconder a moça no carro alegórico mais importante da Escola de Samba que os dois pertencem, uma imensa baleia azul. Uma evidente referência bíblica. Prende a atenção, mas com mais habilidade poderia vir a ser um clássico.

nise-o-coracao-da-loucura_2015NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA de Roberto Berliner é um bom filme ordinário fadado ao sucesso por conta de ser estrelado por uma super global, a atriz Glória Pires. Ela encarna uma personagem real, a doutora Nise da Silveira que se recusa a adotar os tratamentos tradicionais do século passado na cura dos pacientes esquizofrênicos que ela prefere chamar de clientes. Ao invés dais radicais lobotomias e eletro-choques, Nise incentiva os doentes a exorcizarem suas neuras através da arte, criando um estúdio improvisado dentro do Hospital decadente de Engenho de Dentro. Os trabalhos ficam tão bons que exposições são organizadas enquanto o grupo de ditos loucos começa a melhorar. No entanto, as inovações não são bem recebidas pela direção da instituição formada por homens. O filme prende a atenção com seu roteiro correto e linear, mas é contido e comportado como uma produção de TV. Destaques para os “loucos” Simone Mazzer e Flavio Bauraqui. Não ultrapassa a marca de regular.

O Festival do Rio selecionou uma série de filmes sobre a cidade do Rio de Janeiro em comemoração ao aniversário de 450 anos:

sao-sebastiao-do-rio-de-janeiro-a-formacao-de-uma-cidade_de-juliana-de-carvalhoSÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE de Juliana de Carvalho é uma curiosa coleção de fatos e imagens raras que ajudam a desvendar o crescimento de uma cidade, passando pelas mudanças arquitetônicas dos primórdios de sua fundação até os dias de hoje.

o-rio-por-eles_2015O RIO POR ELES de Ernesto Rodrigues exibe a cidade vista sob o olhar estrangeiro nem sempre muito preciso. A imagem equivocada do Rio por vezes soa divertida, preconceituosa, racista ou falsa, sem deixar de ser um arquivo rico e precioso de uma época onde ainda havia muita elegância na Guanabara. Tragédias como o incêndio do circo em Niterói na década de 60 ou do Edifício Astoria também são relembradas por equipes de outros países.

cronica-da-destruicaoCRÔNICA DA DEMOLIÇÃO de Eduardo Ades tenta entender sem sucesso a destruição do Palácio Monroe, construído no início do século vinte para abrigar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal em Saint Louis EUA. Em seguida foi desmontado e reconstruído no centro do Rio vindo a se tornar sede do Senado Federal. Aparentemente, a bela construção foi alvo de uma modernização descuidada na ditadura dos anos 70 comparada no documentário por uma “eugenia nazista” que via no prédio antiquado um entrave ao curso natural do desenvolvimento da cidade. O filme é fraco no sentido de ser mal montado, mas exibe interessantes imagens da demolição em si. Hoje no lugar restam um chafariz seco e um lucrativo estacionamento.

 

Alguns filmes de curta-metragem são até melhores que a atração principal:

projeto-beirutePROJETO BEIRUTE de Anna Azevedo passeia pelo animado Saara, o grande bazar do Rio. A colorida mistura de culturas e línguas é coroada com uma belíssima dança do ventre em grupo no meio da rua num desfecho impressionante de ver e ouvir.

cumieira_de-diego-benevidesCUMIEIRA de Diego Benevides apresenta o trabalho duro dos operários numa grande obra até o merecido descanso no terraço da construção.

pele-de-passaro_de-carla-peltierPELE DE PÁSSARO de Clara Peltier persegue Tuane Rocha, uma exuberante destaque no carnaval que revela um cotidiano para lá de corriqueiro. Por trás dos adereços e maquiagem exagerada, tudo o que ela precisa é cuidar da filha.

solte-os-bichos-de-uma-vez_de-marcelo-goulartSOLTE OS BICHOS DE UMA VEZ de Marcelo Goulart também agarra o tema da festa de Momo. Os tradicionais e às vezes assustadores grupos de bate-bolas, cujas fantasias foram trazidas pelos portugueses na época colonial, faz parte do imaginário suburbano do carnaval carioca.

[Continua aqui.]

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2 comentários em “Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte I

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