Casa Grande (2014). Até que Ponto Somos uma Democracia Racial?

casa-grande_2014_01Por: Eunice Bernal.

Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro.” (Gilberto Freyre)

O Cinema Brasileiro quando quer também sabe fazer bonito não deixando nada a desejar ao de outras nacionalidades, e de vez em quando nos brinda com um de tema excepcional e atual condizente aos anseios e desejos de nossa gente. O nacional do momento que destaco é CASA GRANDE, um drama, às avessas, com argumento e direção do jovem carioca Fellipe Barbosa que conta com Karen Sztajnbeg na elaboração do roteiro. Estiloso! Usou e abusou do formato simples de narrar, porém, com capricho, contando de uma forma inusitada um drama familiar real mesclando situações cotidianas desta sociedade.

O filme me chamou a atenção mais por um dos assuntos abordados na história, e que na época de sua implantação no país, gerou polêmica e a sociedade viu-se num impasse, dividida entre ser favorável ou não; seria benéfico ou daria dor de cabeça à população, e parece que até agora ninguém chegou a conclusão alguma, mesmo sabendo que se tornou lei e já vigorando tanto que muitos vieram a usufruir, porém, a questão ainda impera.

casa-grande_2014_02Casa Grande é baseado em fatos reais, na vida do próprio diretor do longa. Conta história de Jean, narrado em primeira pessoa, um adolescente de 17 anos, sua irmã Nathalie e seus pais Sonia e Hugo; família rica e feliz que, de repente, se encontra em séria dificuldade financeira decretando falência justamente no momento em que o filho mais precisa de atenção e apoio porque vai prestar concurso para ingressar na faculdade; fase de escolhas de carreira na vida do jovem brasileiro, momento único, curso preparatório, pré-vestibular, estresse, noites insones debruçados em livros pensando em rumos a seguir na vida que muitas vezes deixa essa fase da vida e a juventude insegura e por isso vale contar com apoio e compreensão dos entes queridos. O filme já nasceu grande de ideias, apesar de o diretor ser bem jovem, já traz na bagagem este seu primeiro ‘filho’ de dar inveja santa a colegas de profissão e aos mais experientes, pois o filme imediatamente conquistou alguns prêmios quando foi lançado em 2014. Sei lá, uma ideia que já passeava pelo país, e ele sortudo, se apropriou.

A família de Jean vive em uma mansão na Barra da Tijuca, um dos bairros considerados nobres da elite carioca; com piscina, carros na garagem, três empregados, enfim, uma vida, antes, financeiramente, digamos, confortável. O filho estuda no tradicional Colégio São Bento, uma das melhores escolas particulares do Rio de Janeiro referência em Educação e Conceito A no país. De repente, a história dessa família, muda radicalmente para o lado B da vida quando o patriarca começa a perder seus investimentos e bens, e por vergonha não revela isso aos filhos, amigos e vizinhos passando a viver de aparências. O filme é bem um reflexo da crise atual que o Brasil atravessa. A história é espelho da sociedade brasileira; talvez sirva apenas para esta nacionalidade por ser assunto mal resolvido deste país.

casa-grande_2014_03O motorista da família, um senhor de meia idade vindo da região nordeste do país era quem levava o rapaz todos os dias à escola e ia buscá-lo; davam-se bem, consideravam-se amigos, e no caminho, altos papos entre ambos; por causa da crise financeira que a sua família estava passando e por contenção de despesas, o motorista foi despedido e felizmente conseguiu outro emprego em seguida na Comunidade da Rocinha, próximo de onde ele vivia com a família. Rocinha está localizada na zona Sul no Rio, espremida entre o Leblon e São Conrado – caminho que divide a Zona Sul do RIO da Zona Oeste e Norte, e no enredo isso está explícito para mostrar como é composta a sociedade brasileira, (pobres e ricos) e como e onde se vive = casa grande X senzala = as raízes do Brasil Sudeste X Nordeste; os bairros são chamados em outras sociedades de distritos, e como distrito o país está dividido em abastados e miseráveis. Mas todos podem viver pacificamente na CASA GRANDE, o direito de ir e vir é igual para todo cidadão brasileiro, amparado perante lei, com os mesmos direitos (Bem, isso está claro na Constituição Federal). A Comunidade Rocinha (lembra um muro isolando tribos porque para ir de um lado a outro o caminho é esse, ou atravessando um túnel ou indo pelo elevado do Joá) ou os ricos dos pobres grifando as desigualdades sociais.

casa-grande_2014_04Sem motorista, Jean passou a ir à escola de ônibus e, graças a essa mudança radical em sua vida, conheceu na viagem uma garota – Luisa (Bruna Amaya) que estudava no Colégio Pedro II – também Educação de excelência e qualidade em Ensino, só que esta difere da outra por ser da rede pública Federal (Pedro II, apesar de ser Escola Pública, é considerado uma das melhores do Estado, comparado ao Colégio Militar e a algumas Escolas Particulares), e o casal passou a ter um relacionamento mais que amizade. A jovem embarcava no meio do caminho e descia no ponto da Rocinha. Começa aí para Jean descoberta de um sentimento novo e de amor, além da atração física e desejo que nutria por Rita, a empregada mais jovem de sua casa, e por isso suas as investidas constantes nas madrugadas para encontrá-la em seu quarto para ganhar sua confiança e carinho, e ela sempre arrumava jeito de lhe dar atenção, de ouvi-lo e conversas triviais e não passava disso e o desejo dele pela moça não passava do platônico até então.

A trama aborda assuntos relevantes e continuamente atuais; entre eles destaco dois:

livro_casa-grande-e-senzala_gilberto-freyrePrimeiro que me reportou imediatamente à obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre trazendo à tona algumas lembranças de QUEM SOMOS, e a formação sócio-econômico-político-cultural do povo brasileiro no contexto da miscigenação entre brancos, índios e negros; ricos e pobres, de oportunidades (des)iguais para todos; de escolhas entre estudar em escola particular ou pública; patrão e empregado; casarão x casebre ou melhor, Casa Grande e Senzala, além dos muros regionais, que, sutilmente, discrimina e divide o país. Não sei se Fellipe Barbosa fez de propósito apostando nesse título ou seria mera coincidência. Independentemente de qualquer motivo, ele fez a coisa certa e foi feliz na escolha tornando a obra aberta a tantas reflexões, principalmente no que tange a atual situação do país – e crise econômica não escolhe classe social. E Gilberto Freyre diz que “Casa Grande” é moradia de todos: do proprietário, escravos, parentes, filhos, esposa, amantes, padres, políticos cachorro e papagaio. O sociólogo diz que este domínio se estabeleceu incorporando tais elementos e não os excluindo. Ele também desmistifica a ideia de que no Brasil teria uma raça inferior devido à miscigenação. Antes, aponta para os elementos positivos da formação cultural brasileira, oriundos desta miscigenação entre culturas tão distintas, ou seja, o Brasil do ‘todos juntos e misturados’!

Quando fala em democracia racial, você tem que considerar que o problema de classe se mistura tanto ao problema de raça, ao problema de cultura, ao problema de educação. (…) Isolar os exemplos de democracia racial das suas circunstâncias políticas, educacionais, culturais e sociais, é quase impossível. (…). É muito difícil você encontrar no Brasil [negros] que tenham atingido [uma situação igual à dos brancos em certos aspectos…]. Por quê? Porque o erro é de base. Porque depois que o Brasil fez seu festivo e retórico 13 de maio, quem cuidou da educação do negro? Quem cuidou de integrar esse negro liberto à sociedade brasileira? A Igreja? Era inteiramente ausente. A República? Nada. A nova expressão de poder econômico do Brasil, que sucedia ao poder patriarcal agrário, e que era a urbana industrial? De modo algum. De forma que nós estamos hoje, com descendentes de negros marginalizados, por nós próprios. Marginalizados na sua condição social. […]. Não há pura democracia no Brasil, nem racial, nem social, nem política, mas, repito, aqui existe muito mais aproximação a uma democracia racial do que em qualquer outra parte do mundo. Gilberto Freire. Casa Grande & Senzala” foi publicado em 1933 e parece que foi hoje, não acha?

casa-grande-2014_02Em segundo lugar, destaco na obra do roteirista a abordagem da Lei de Cotas Raciais. O jovem leva Luisa à sua casa onde está acontecendo um churrasco, e lá estão alguns parentes e amigos da família. No meio da festa surge o assunto ENEM, Vestibular, Carreira e também a Lei de Cotas Raciais. A namorada de Jean muito eloquentemente começa a explanar sobre suas raízes, dizendo o porquê de suas características físicas. Diz que a mãe é mulata e o pai japonês. E daí começa a ‘discussão’ sobre Cotas Raciais para ingresso ao nível superior, perguntam se ela escolheria ou não se inscrever por meio de Cotas. Falar sobre Cotas Raciais é um assunto delicado e o brasileiro ainda não chegou a um denominador comum; difícil se situar e não alterar o tom de voz; uns sendo a favor e outros contra. E ninguém se entende. Um diz que Cotas é uma forma de preconceito que isso não é fator para medir intelecto de ninguém. Como em qualquer roda de conversa que o assunto surge sempre acontece de ter defensores e atacantes para as duas correntes – dos favoráveis à lei de Cotas e dos contrários. É claro que esse almoço na casa de Jean também não acabou bem.

A Lei de Cotas foi regulamentada em 2012, e promove diversas políticas públicas para os afrodescendentes visando criação de oportunidades e a igualdade racial. É atribuída 50% das vagas em instituições e Universidades Federais destinadas a estudantes egressos de escolas públicas e com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita, e a outra porcentagem de cota a critérios raciais (negros, pardos e indígenas). Ninguém também se entende quando a cota é para estudante de Escola Pública, pois Colégio de Aplicação, Pedro II, Fundação Osório e Colégio Militar são alguns dos Públicos de Educação de qualidade, e usar a lei de cotas para concorrer a uma vaga é tirar a chance de outros candidatos sem cotas conseguirem pontuação para ingressassem. Concorrência desleal? E voltando a citar Casa Grande & Senzala de Gilberto Freire, ele diz também o seguinte: Não é que inexista preconceito de raça ou de cor conjugado com o preconceito de classes sociais no Brasil. Existe. É verdade que a igualdade racial não se tornou absoluta com a abolição da escravidão. (…). Houve preconceito racial entre os brasileiros dos engenhos, houve uma distância social entre o senhor e o escravo, entre os brancos e os negros (…).

Se o brasileiro é um povo miscigenado, resultado de negro, branco, índio, vermelho, japonês, verde e amarelo, por que deveria existir uma política de cotas raciais? Os investimentos em educação no país estão cada vez mais precários que a condição de todo cidadão independentemente de raça se igualou. As pessoas que discordam das cotas raciais afirmam que ela é discriminatória e causa conflito racial. Em um país com grande diversidade racial, as dificuldades são encontradas no momento de decidir se uma pessoa é branca ou parda. Parece que a nação brasileira redescobriu o Brasil, deu volta ao mundo e parou no mesmo lugar.

casa-grande-2014_cartazO filme pretende ainda ser uma crítica à alta sociedade, como explica o próprio diretor: “Busco trazer perguntas nesse filme. Por que a gente deseja tanto? Qual a vantagem disso? Por que viver assim?Fellipe Barbosa. O direito de ir e de vir é lei. Um ponto alto do filme todos iguais, oportunidades iguais, direitos iguais. Casa Grande ou Senzala não faz diferença… Conclui-se que todos carregam no dna certo parentesco, a condição financeira pode ser o muro, abismo social, mas nada impede que se pule passando para o outro lado. É o que Jean fez indo à Senzala; é o que Severino fez indo à Casa Grande. E despido a diferença entre pobre e rico desaparece. O Poster do filme conclui essa ideia.

Como dizia um pensador “Entrar na Faculdade é muito fácil; difícil é sair” (com o canudo ele quis dizer). E acrescentava que infelizmente sempre haverá ricos e pobres. A riqueza pode ser do eu interior em potencial e se pode escolher ser rico assim ou pobre de espírito. No final das contas, conseguindo passar pela peneira, pelo funil ou pulando o muro, a luta será constante e indispensável para a vida que não costuma distribuir cotas para se chegar aos finalmentes, ou àquilo que se almeja conseguir para se chegar a algum lugar. “Até que ponto nós somos uma democracia racial?” Foi o que perguntou Lêda Rivas para Gilberto Freyre. Cabe a cada um tentar encontrar a resposta.

de Eunice Bernal.

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3 comentários em “Casa Grande (2014). Até que Ponto Somos uma Democracia Racial?

  1. Bom dia.

    Em um país onde a polícia não se subordina a ninguém ou a nada, o judiciário (caixa baixa intencional) é só um aríete das elite interna e da matriz, a imprensa é o primeiro poder, tendo, inclusive, a faculdade de [de]formar consciências, falar em democracia é temerário sob qualquer de seus prismas; somos uma Nação sem projeto, ainda e até quando?
    Para corroborar isto, bastam alguns exemplos recentes, com a continuação Ad Aeternu do Terceiro Turno, no Brasil:
    jogadores de futebol sendo chamados de chimpanzés;
    atores e apresentadores de tevê de pele negra sendo hostilizados (ressaltar a beleza de Taís Araújo e da angelical Maju, não ajuda, só reforça os esteriótipos: “é bonitinha, apesar …“.).
    O mito do homem cordial do Brasil foi pro vinagre, com o Terceiro turno. Isto é fato. A virtude do filme é por o dedo na ferida. É discutir. O que é necessário, sempre; e parabéns à autora da análise.

    Curtido por 1 pessoa

  2. “Casa Grande” já é uma obra prima do Cinema Brasileiro!

    Entretanto o filme não é para todos. Pois ele leva a reflexões que requer até um pouco de sabedoria.

    Vejam e tirem suas conclusões!

    E Parabéns pelo texto!

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