Então Morri (2016). Aparente simplicidade e assombrosa sabedoria

entao-morri_2016_bia-lessaPor Carlos Henry.
A ideia do filme de Bia Lessa e Dany Roland é contar a vida de um ser humano desde o primeiro dia de vida até o falecimento através de vários testemunhos. O tom da narrativa é documental com um toque de Eduardo Coutinho, importante colaborador deste trabalho que atravessou décadas desde sua ideia até sua finalização. Na tela desfilam personagens riquíssimos de aparente simplicidade e assombrosa sabedoria pinçados dos sertões e áreas mais carentes do Brasil. O panorama humano ali criado exibe um curioso sentido reverso à cronologia natural da linha da vida.

No início são exibidos vários funerais seguidos de depoimentos de pessoas muito idosas, jovens casadouras, adolescentes e crianças até chegar a um parto de um bebê que já havia sido doado antes de chegar ao mundo. As imagens são todas reais e recheadas de emoção com um humor peculiar que está quase sempre presente nas situações mais inusitadas. O que tenta unificar a história e contá-las como se fossem uma única existência é a edição que, embora eficiente, poderia ser mais sensível para valorizar momentos impactantes e imagens raras de beleza crua.

entao-morri_2016O resultado é bastante satisfatório, combinando o grotesco e o onírico para narrar diversas vidas como se fosse uma só. Há uma senhora muito idosa que ainda diz coisas muito curiosas e coerentes no seu leito, a outra que não dispensa uma bebidinha cada vez que vai às compras, o padre que não aparece no animado casamento da roça, o dentista improvisado que sem camisa e sem luvas, arranca vários dentes de uma menina à força e finalmente o bebê que já nasce prometido, doado de forma abrupta por uma mãe sofrida e sem alternativas num desfecho que choca e emociona.

Um retrato belo e pungente de um grande pedaço do País que poucos conhecem e ousam desbravar.

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6 comentários em “Então Morri (2016). Aparente simplicidade e assombrosa sabedoria

  1. Bom dia.
    Não só Carlos Henry, mas a cada sinopse publicada aqui mais me certifico de que o esmero é norma. Muito boa análise e mais um no “The Beatles” de leitura, mais um a ver. Não pude ler, com a atenção devida, sem, quase que concomitantemente, traçar um paralelo com Copacabana. Só que, no caso cito, não se trata, claro, de ensaio, mas sim de um projeto com uma envergadura quase inimaginável, um verdadeiro estudo longevo e dissecativo do modus vivendi de pessoas comuns e situações idem. Comovente e belo, o tema em si.
    Obrigado pela análise, caro Carlos Henry.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Boa tarde. Mesmo sem assistir já começo a imaginar essas cenas, tão bem retratadas aqui, pelo autor da análise.“Na tela desfilam personagens riquíssimos de aparente simplicidade e assombrosa sabedoria pinçados dos sertões e áreas mais carentes do Brasil”. Parece-me, à primeira vista, um canto ao Sertão tão carente de olhares e bons observadores.

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