Discurso de Chris Rock na Abertura do Oscar 2016.

chris-rock_oscar-2016Contei pelo menos 15 negros na montagem (de abertura, com imagens dos filmes de 2015). Bem, eu estou aqui no Oscar, também conhecido como o White People’s Choice Awards. Se eles indicassem o apresentador, eu nem conseguiria esse trabalho! Vocês estariam vendo o Neil Patrick Harris agora.

Esse é o Oscar mais doido para se apresentar, por causa dessa polêmica. Não tem nenhum negro indicado. Muita gente disse: “Você deveria boicotar, desistir”. Por que só desempregados pedem para você pedir demissão de alguma coisa?

Eu pensei em desistir, sério mesmo, mas percebi que o Oscar aconteceria de qualquer forma. Não vão cancelar o Oscar. E a última coisa de que preciso é perder mais um emprego para o Kevin Hart. Não preciso disso. Kevin faz muitos filmes, todo mês! Estrelas pornô não fazem filmes tão rápido!

A questão é: por que estamos protestando nesse Oscar? Porque nesse Oscar? É a 88ª edição, o que significa que essa história de negros não indicados aconteceu pelo menos outras 71 vezes. Certamente já aconteceu nos anos 1950, 60.

Nos anos 1960, num daqueles anos em que Sidney (Poitier) não lançou nenhum filme, tenho certeza que nenhum negro foi indicado. E ninguém protestava. Por quê? Porque tínhamos coisas reais para protestar naquela época. Talvez você estivesse ocupado demais sendo estuprado e linchado para se importar com quem ganhou o prêmio de melhor fotografia. Quando sua avó está pendurada numa árvore, é difícil se importar com o melhor curta-documentário estrangeiro.

Mas o que aconteceu esse ano? As pessoas ficaram irritadas. Spike (Lee) ficou irritado, Jada (Pinkett Smith) ficou irritada, Will (Smith) ficou irritado. Todo mundo ficou irritado! Jada disse que não viria. Ela não está na televisão? Jada boicotar o Oscar é como eu boicotar a calcinha da Rihanna. Eu não fui convidado!

Esse não é um convite que eu recusaria.

Mas eu entendo. Entendo mesmo. Não é justo. Jada ficou irritada. Seu homem, Will (Smith) não foi indicado por “Um homem entre gigantes”. Não é justo, ele estava ótimo e não foi indicado. Mas também não é justo ele ter recebido US$ 20 milhões por “As loucas aventuras de James West.”

Esse ano as coisas serão diferentes. O segmento in memoriam vai destacar os negros baleados por policiais a caminho do cinema.

Sim, sim. Eu disse, ok?

Se você quer indicados negros todos os anos, precisa ter categorias para negros. Você já tem para mulheres e homens, pensem nisso. Não há um motivo real para haver categorias para homens e mulheres em atuação. Não tem motivo! Não é corrida. Não é preciso separá-los. Robert DeNiro nunca disse algo como: “Melhor eu piorar essa interpretação para a Meryl Streep acompanhar”. Se você quiser negros todos os anos no Oscar, melhor ter categorias para negros, como melhor amigo negro.

A principal pergunta é, o que todos querem saber no mundo: Hollywood é racista? É preciso refletir do jeito certo. É um racismo de queimar cruzes? É um tipo diferente de racismo. Por exemplo, eu estava num evento do presidente Obama, muitos de vocês estavam lá. Eu e toda Hollywood. Tinha uns quatro negros. Eu, Quincy Jones, Quest Love. Todos os atores negros que não estavam trabalhando, nem preciso dizer que o Kevin Hart não estava lá. Depois, fomos tirar uma foto com o presidente. Eu disse: “Presidente, sabe esse roteiristas, atores, produtores? Eles não contratam negros. E eles são os brancos mais legais do mundo. São liberais!”

Hollywood é racista? Com certeza. Mas é um racismo de irmandade. “Gostamos de você, Rhonda, mas você não é Kappa.” Assim que é Hollywood.

Mas as coisas estão mudando. A gente tem um Rocky negro esse ano. Algumas pessoas chamam de “Creed“. Eu chamo de “Rocky negro”. Essa é uma declaração forte, pois Rocky se passa num mundo em que atletas brancos são tão bons quanto atletas negros. Rocky é um filme de ficção científica. Há coisas que acontecem em “Star Wars” que são mais plausíveis que Rocky.

Estamos aqui para homenagear atores, para homenagear o cinema. Há vários esnobadas. Um dos maiores, ninguém está falando sobre ele. Meu ator favorito é Paul Giamatti. Pensem no que ele tem feito nos últimos anos. No ano passado ele fez “12 anos de escravidão” e odiava negros. Esse ano, fez “Straight outta Compton”, em que ama negros. Ano passado, estava chicoteado a Lupita. Agora, chorando no enterro do Eazy-E. Isso que é talento. Ben Affleck não consegue fazer isso.

O que eu quero dizer é: não é uma questão de boicotar nada, mas nós queremos oportunidades. Os atores negros querem as mesmas oportunidades. É isso. E não só uma vez. Leo (DiCaprio) tem bons papéis todos anos. Vocês todos conseguem todos os anos. E os atores negros? Olhem Jamie Foxx. Jamie Foxx é um dos melhores atores do mundo, cara. Jamie Foxx estava tão bom em “Ray”, que eles foram ao hospital e desligaram os equipamentos do verdadeiro Ray Charles. Nós não precisamos de dois!

Mas nem tudo é sobre raça. Outra coisa importante hoje é que, alguém me disse isso, você não mais pode perguntar o que as mulheres estão vestindo. Tem o movimento “Pergunte mais a ela”. Você poderia perguntar mais aos homens também. Mas nem tudo é sexismo ou racismo. Os homens recebem mais perguntas porque todos vestem a mesma coisa. Se George Clooney aparecesse com um smoking verde com um cisne saindo da bunda, a primeira pergunta seria: “O que você está vestindo?”.

Bem vindos ao 88º Oscar! Vocês querem diversidade? Nós temos diversidade. Com vocês, Emily Blunt e outra pessoa ainda mais branca: Charlize Theron!

P.s: Parte integrante deste artigo aqui.