LOVE (2015). Gaspar Noé

Por Karenina Rostov.
(Contêm revelações sobre o enredo) (E o filme contêm cenas de sexo explícito)

Era uma vez um diretor de cinema argentino chamado Gaspar Noé que resolveu nascer novamente para contar a história de AMOR, segundo o seu entendimento, entre seu pai Murphy e a namorada dele Elektra.

Gaspar nasceu por obra do acaso, peripécia da vida, pois seu pai Murphy, homem moderno e liberal como também sua namorada Elektra acabaram envolvendo no relacionamento amoroso deles, por concordância de ambos, uma terceira pessoa, a jovem Omi e que, no encontro íntimo que o trio teve, acidentalmente a convidada acabou engravidando e essa consequência inesperada acabou dando novo rumo a vida de cada um deles mudando seus planos, projetos e provavelmente seus possíveis sonhos.

Um dia, no leito do casal, por pura diversão e pela busca constante de prazer e novas experiências sexuais, sem compromisso ou muitas explicações, Murphy procurando ser cuidadoso usando preservativo, zelando pela sua saúde e das parceiras, deparou-se com um acontecimento inesperado, um incidente que ele, (in)felizmente não contava: o produto que deveria protegê-los, bem na hora “H” se rompeu, deixando o trio desarmado, situação que poderia ter feito um grande estrago na vida de um deles ou comprometendo a todos. Talvez uma eventual transmissão de doenças venéreas; corriam esse risco. E o destino tratou logo de pregar-lhes uma peça: nove meses depois o resultado concreto da noite voluptuosa e do incidente, uma epopeia e o inusitado que acabou sendo batizado de Gaspar. E certamente, com essa o casal (ou seria o trio)? não contava!?…

Murphy, o pai de Gaspar, Elektra, a namorada de seu pai a qual poderia ter sido a sua mãe propriamente dita, já que ambos se declaravam eternamente apaixonados, porém, a sua mãe acabou sendo Omi, a jovem vizinha e nova moradora do prédio onde seu pai residia. Bem, Omi, a bela loira de olhos azuis, passou a dividir o leito do casal a convite de Murphy, seu pai, e de Elektra, e em nenhum momento partiu dela a ideia, não foi uma intrusa, e nem tinha pretensão de estragar relacionamento afetivo deles; ela não se fez de rogada, simplesmente aceitou aquele convite, sem nenhum constrangimento, e mergulhou de cabeça na intimidade a três, apenas por diversão, sem dar chance de pensar nas consequências. Omi contou um pouco sua vida ao casal; disse que não tinha conhecimento de quem era o seu pai, e que a sua mãe também não sabia ao certo quem ele era e, por isso, em sua certidão de nascimento consta na filiação ‘pai ignorado’. Ela acabou se envolvendo com o casal que estava sempre buscando novas experiências sexuais, e sabia que aquilo não passava de aventura e, entre lençóis, só deleite, êxtase e nada mais. E foi assim que o inesperado aconteceu na vida deles, mudando radicalmente seus destinos. E foi assim também que se deu a reviravolta ‘no LOVE’ e a jovem convidada tornou-se mãe, aos dezessete, por acaso, de Gaspar.

Então Gaspar, o contador da história de amor do seu pai, da ex-namorada de seu pai com participação especial de sua jovem mãe, têm no momento, dois anos de idade e, em flashback nos apresenta o casal de protagonista Murphy, um jovem diretor de cinema, e aquele que acabou criando a sua própria lei e a repete até a exaustão, dizendo: -“Se este homem tem algum modo de cometer um erro, ele o fará” – sendo ele próprio a primeira vítima conhecida de sua própria lei”. Ele quis dizer que “Se algo pode dar errado, dará”. E Gaspar também nos apresenta Elektra. Ela é uma artista plástica linda, atraente tal qual a Elektra da mitologia grega. Muitos autores falaram sobre ela, começando por Sófocles, depois Ésquilo e Eurípides, sendo este último ou Eurípedes – o que deu um tratamento especial a sua criação transformando-a em divindade e tratou o tema sob outra ótica, enxergando em Elektra uma mulher amargurada e impulsiva que, levada mais pela fúria do que pela maldade, e por fim acabou induzindo seu irmão, o fraco Orestes a cometer um matricídio e os irmãos mais adiante se arrependeriam. Alguns escritores modernos em suas obras ainda citam Elektra. A impressão que dá é que Gaspar Noé parece sentir muita admiração pelo mito Elektra pela formosura, forte e um ser exclusivo de Eurípedes e por ela ser como como polos divergentes – boa e má; desajustada e correta, que ama compulsivamente e odeia ao extremo; sendo como o fim e o começo, formas antagônicas – uma única afinidade e identificação.

O menino Gaspar, então, não foi planejado para vir ao mundo, isso você já sabe, e ele também é visto projetado na pele de Noé (interpretado pelo próprio diretor e roteirista (Gaspar Noé), um ex-namorado de Elektra, dono de uma galeria de arte, senhor de si, centrado, maduro e experiente para a jovem Elektra, o dobro da idade dela, aparentando mais com a figura paterna que a de companheiro da jovem, tal qual na mitologia grega. Um parêntesis aqui para lembrar o termo “Complexo de Elektra” que é usado em psicanálise como contrapartida feminina do complexo de Édipo, para designar o desejo incestuoso da filha pelo pai. Gaspar de fato, teve que nascer novamente para contar uma história instigante e complexa. Coincidências ou o diretor argentino premeditou o rumo que daria à sua narrativa? E LOVE é praticamente contada através da linguagem corporal, um ensaio fotográfico, ou uma peça teatral, e no palco três personagens se digladiando entre o tato, olfato, felação e a suficiência da linguagem não-verbal, não dando lugar ao tabu, pré-conceitos, ou julgamento de valor e nem para as palavras propriamente ditas pois poderiam quebrar o feitiço que o casal buscava nas relações ardentes mais de volúpia do que de encanto.

Gaspar, agora com dois aninhos de idade é acordado pelo celular de seu pai que toca insistentemente, enquanto que, no quarto ao lado seus pais, Murphy e Omi, estavam em seu momento íntimo de amor, embriagados de sexo muito antes do amanhecer, e o menininho, insistentemente, chamando o pai e que só assim Murphy acabou atendendo àquela ligação. A partir daí o pequeno Gaspar sai de cena e todo o desenrolar da história então em flashback, é focada nos acontecimentos de dois anos atrás, do relacionamento amoroso vivido pelo seu pai Murphy que se vê mergulhado nas lembranças com a amada Elektra. A chamada recebida era da mãe de sua ex-namorada Elektra e, desde então, entra em cena todo aquele seu passado ardente. Sim, pouco mais de dois anos se passaram e Murphy, agora aparentemente sossegado, outra pessoa, outra vida, família formada, além das obrigações de chefe de família, pai e marido incluindo toda responsabilidade diária – trabalho, contas a pagar, compras, lazer, enfim rotina, agora quem faz parte do trio é ele, a sua jovem vizinha e atual companheira e o bendito fruto dessa relação, o Gasparzinho. Rs!

Na chamada recebida, a mãe de Elektra, disse-lhe que a filha sumiu do mapa já há algum tempo e que ela estava muito preocupada, porque Elektra passou a sofrer de depressão e a ter tendências suicidas.

Parece que Murphy arquivou aquela sua história de amor e tocou sua vida dando novo rumo a ela e ao seu coração. E aquele LOVE que dizia sentir por Elektra, o que poderia ter acontecido? Simplesmente desapareceu? Acabou quando ela ficou sabendo que a jovem vizinha engravidou de seu amado? E Murphy só voltou a pensar na sua ex-namorada Elektra depois da ligação da mãe dela informando que sua filha estava sumida e não dava mais notícias há bastante tempo? E a mãe de Elektra relatou que sua filha além da depressão, das tentativa de suicídio, a moça era uma viciada em ópio e outras drogas pesadas. Mas o amor entre o casal acabou ou era um equívoco? Então como diria um poeta foi de fato eterno apenas enquanto durou? Ou estava adormecido sendo despertado depois do telefonema da mãe dela?

Dizem que Amor verdadeiro não acaba. Mas o amor do casal estava mais para o carnal do que para o emocional e uma paixão avassaladora costuma imperar para sempre ou com o tempo pode transformá-lo em calmaria? Reza a lenda que, o corpo é o santuário da alma. E o sexo é o complemento do amor. Estão interligados corpo-alma-sexo-amor. E quem ama deveria jamais se descuidar.

E alguém poderá perguntar ao narrador da HISTÓRIA DE AMOR, independentemente de quem agora ele seja: mas cadê o LOVE no filme? Que droga de amor é esse que Murphy tanto sofre, mas que vivia sossegadamente feliz no doce lar com a sua Omi acordando, fazendo sexo com ela e só voltando a se lembrar de Elektra após àquela ligação? Então eles terminaram pelo fato de a vizinha ter engravidado e não a sua amada Elektra? E desde quando filho prende homem? Ao menos nos tempos modernos esse desdobramento de relacionamento quase não existe mais. E é tão moderno que o casal vive uma busca frenética de novas experiências sexuais não soube lidar com essa situação? E o casal liberal, de repente desapareceu da fita?

Geração vai, geração vem e o ser humano aprende cedo que para se amar alguém antes deve se amar primeiro. Então o filme de Gaspar Noé deve estar do lado avesso. É preciso mergulhar dentro do casal para desvirar esse estranho amor. Quantas vezes é preciso Gaspar nascer para entender o AMOR e traduzir LOVE?

Amor é mesmo uma caixinha de surpresas?! Conceituado como um substantivo masculino 1- Afeição profunda a outrem, a ponto de estabelecer um vínculo afetivo intenso, capaz de doações próprias, até o sacrifício. 2. Dedicação extrema e carinhosa. 3. Sentimento profundo e caloroso de atração que um sexo experimenta pelo outro. 4. Apego. 5. Carinho; ternura. 6. Cuidado; zelo. A culpa de não ter sobrevivido? Se é que existe nessa história de Gaspar Noé um culpado ele parece que faz recair sobre a Elektra e, durante, muito tempo a teoria literária investiu nessa crença de que a culpa é geralmente da fêmea e o autor quase sempre trata de matar o AMOR pondo um ponto final na vida dela, principalmente quando se trata de ligações perigosas, volvendo mais de duas pessoas, como, por exemplo, não poderia deixar de citar aqui “A Sonata a Kreutzer” de Tolstoi.

Qualquer que seja a conceituação de LOVE nessa história parece que não aconteceu a grande paixão de se transformar em amor como dizem os poetas. Sabe-se que em um relacionamento a três, há perdas e danos e certamente alguém acabará sobrando ou sofrendo as consequências; é o que os literatos costumam fazer com seus personagens, matando um deles.

Gaspar Noé usou e abusou de alguns clichês físicos para literalmente gozar na cara do espectador mostrando, também, o quão bem dotado ele é, e o que a experiência de vida ensina desde que o mundo é mundo, dizendo “faça o que eu digo, não o que eu faço’ mas cada ser prefere viver a sua própria experiência porque não se sabe o que o destino reserva a cada um mais adiante. Supõe-se que… Só vivendo mesmo para saber, porque nem o livre-arbítrio é livre como dizem.

E esse relacionamento emocional entre Elektra e Murphy, era superficial. Tiveram bons momentos, se divertiram e eternizaram suas lembranças através de fotos, vídeos, pinturas e compartilharam anseios e passeios até o momento em que um novo ser resolve nascer, mas que para isso, deve se cortar o cordão umbilical no momento exato desligando uma história que foi linda, mas que se perdeu no caminho para começar do zero uma outra. E assim a vida segue, e bem ou mal, ela vai seguir meio broxante, e outras, muitas outras histórias acontecerão a cada um que viveu este LOVE. E a vida segue, e a fila anda…

Afinal, quanto tempo mesmo dura uma paixão? Dizem que há um prazo de validade. Daí que Gaspar Noé resolveu dar uma deixa ao estampar na parede de LOVE o cartaz do filme “Saló ou Os 120 dias de Sodoma” de Pasolini, dando uma pista aos que testemunhariam o conto de fadas entre Murphy e Elektra, ou seria só um pré-texto?

Era de fato LOVE? Era AMOR? Não era amor, pois ele só passou a pensar em Elektra dois anos depois após a ligação da mãe da moça. Ou geralmente se costuma a dar valor àquilo que se perdeu. A cena inicial, Murphy e a nova amante confirma isso, pois ele estava muito comPENETRADO amando sua companheira atual, não demonstrava solidão nem tristeza, ou falta de ânimo. Casou e tornou-se bom moço e comportado pai de família? Se amasse a protegeria, correria antes, bem antes para ela, se desvencilharia daquela situação e teria ficado com a sua amada. Bem, pode ser uma faca de dois gumes e coração é terra que ninguém visita.

Noé precisou nascer novamente e novamente e novamente para trazer à tona uma história de amor dos tempos modernos onde, tudo pode ser possível num relacionamento, tudo pode acontecer para se chegar ao céu, aqueles segundo que se diz ver DEUS quando as pessoas envolvidas consentirem, e Elektra e Murphy tinham afinidades de sobra no quesito relacionamento sexual só que ele próprio confessou-se um conservador, em seu íntimo ele não se permitia abrir mão de um relacionamento a dois, além disso entre heterossexuais como o próprio confirmou não querer que a mãe torne seu filho gay, ou na cena com o par mais a presença de uma transexual entre outros. Mas e Elektra dividindo o ninho de amor com alguém do mesmo sexo, seria julgada por não ser hetero? E Noé compartilha seu LOVE com um público restrito e talvez uma parcela ali conservadora como ele, cabendo na sala de exibição julgamento de valor. Talvez o filme seja condenado por pecar pelo excesso de tórridas cenas de sexo por mais de 90 minutos. Sexo, muitos gostam, mas ficam incomodados em testemunhar terceiros mostrando suas performances além de quatro paredes.

Não seria hipocrisia? Afinal todo ser é resultado de sexo entre duas pessoas, e como diz um filósofo de botequim, “somos resultado de um orgasmo… ou uma gozada? A ‘gozada’ a que o filósofo se referia seria no sentido cômico da palavra. Desde que o mundo é mundo o homem está aqui na Terra por causa do sexo. Apesar de que SEXO está longe de ser o primeiro prazer do Homem. E preciso não estar com fome, e nem com sede – necessidades humanas básicas passando por outras para partir para essa outra necessidade fisiológica, tão natural para qualquer ser vivo que respira. Porém, a formação religiosa, moralista e puritana do ser humano, muitas vezes o impede de ver o tema LOVE tratado com tamanha informalidade, liberdade sem ausência de pré-conceito(s). O Livro da Bíblia “Cântico dos Cânticos” mostra a vitória do amor e da sexualidade sobre a repressão social entre outros tratados.

Bem, pôr um ponto final no relacionamento nem sempre significa por um ponto final no sentimento de AMOR. E Elektra em algum momento de LOVE pergunta a Murphy: “_ O que significa AMOR? Você saberia responder?”

P.s: Este artigo é complemento deste outro aqui.