Spoilers: O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

[Continuação do Artigo de Marcos Vieira: encontrado aqui.]

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são a mesma pessoa. A questão que fica é: em que nível de realidade a história ocorre? Qual o contexto que levou aquele homem àquele nível de confusão mental? A partir daí, a hipótese mais simples e direta é a de que ele possui um distúrbio de dissociação de identidade, acreditando ser duas pessoas quando na verdade é apenas uma.

o-homem-duplicado_03Nas poucas cenas em que eles estão juntos, não há mais ninguém com eles, o que indica que existe apenas um homem ali quando os dois estão conversando. Muitos detalhes corroboram essa possibilidade, como a cena na qual os dois estão falando pelo telefone e o professor se agita e acaba indo com o telefone para o banheiro. O solavanco que ele dá nesse momento indica que o telefone provavelmente foi desconectado da linha, mas a conversa continua.

O momento no qual Helen, a esposa de Anthony, visita Adam na universidade também brinca com isso: ela liga para Anthony com o intuito de confirmar que os dois não são a mesma pessoa, mas Anthony só atende o telefone no exato momento em que Adam sai do campo de visão dela. Ela entende que naquele instante não haveria tempo hábil para Adam atender o telefone e voltar a ser Anthony. Será?

O que dificulta a aceitação dessa hipótese é a cena final, que supostamente mostra Anthony e Adam em locais diferentes e com pessoas diferentes ao mesmo tempo.

É claro que isso pode ser apenas um truque de montagem: o acidente com Anthony pode ter ocorrido no dia anterior, mas ele sobrevive ileso e volta para Helen como Adam. Inclusive, essa seria uma boa explicação para a tentativa de Adam roubar a esposa de seu duplo: uma vez que Mary provavelmente morreu no acidente, Anthony não tem mais sua aventura ou qualquer razão de ser, e é através de Adam que ele vai conseguir a aventura que deseja. Nessa hipótese, a aranha representa o predador que ele tenta evitar: a vida chata e normal com sua esposa grávida. Ele se sente preso naquela teia de normalidade e precisa escapar, como quando vai no show de sexo ao vivo. Nos instantes finais, ele havia se aceitado como Adam e resolveu ficar com Helen, mas a tentação do novo convite para o show de sexo o faz ver Helen como a tarântula, e mais uma vez ele tentará escapar daquele predador, daquela teia, daquela realidade.

E não é por acidente que o parágrafo anterior só faz sentido se você já viu o filme. Se não viu, só lamento.

Mas essa foi a última explicação na qual pensei. Ela parte do pressuposto de que a história ocorreu no mundo real, o que não levei em conta nas minhas primeiras explicações. Nas primeiras, tudo isso ocorre dentro da cabeça da personagem. A mais simples é a de que toda a história não é nada mais do que uma representação dos conflitos internos dele, um professor casado que tem uma amante e sonha em ser ator. Mas aqui fica difícil encaixar a simbologia da aranha. Talvez eu precise pensar mais sobre isso.

Uma variação sobre essa hipótese é a de que a dissociação não ocorre sobre dois lados de uma mesma personalidade, mas sim sobre duas versões do mesmo homem, separadas por um intervalo de tempo. Linearmente, a história seria: Adam/Anthony é casado com Helen e eles estão prestes a ter um filho, mas por algum motivo eles se separam e/ou ela morre. Um tempo depois, ele passa a morar sozinho e namorar com Mary. Mas há sinais que indicam que ele não superou completamente a perda de Helen, e isso é algo que o assombra. Pensei nessa variação depois que vi que as duas versões dele possuem uma mesma foto: com Adam, a foto está rasgada ao meio e não sabemos quem era a pessoa que estava com ele, enquanto com Anthony, vimos que era uma foto dele com Helen.

Outro indício é na cena final quando Mary se apavora porque vê a marca da aliança no dedo dele. Isso pode indicar que um dos sintomas de sua não superação da perda de Helen seja que ele voltou a usar sua aliança de casamento, o que deixa Mary perturbada. Ocorre então o acidente de carro: talvez em coma, talvez entre a vida e a morte, talvez em seu último suspiro, as memórias desse homem se embaralham, enquanto esses dois lados de sua personalidade de dissociam, dando origem à história de Adam (o homem que ele se tornou depois da perda de Helen) contra Anthony (o homem que poderia ter sido feliz ao lado de Helen).

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