A Fita Branca – Uma história alemã para crianças

(Das weiße Band, Áustria, Alemanha, França e Itália, 2009)

"Não consigo dormir!"

"Não consigo dormir!"

Um grupo de crianças num lugarejo às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Elas vão à escola, andam juntas observando os acontecimentos, sendo observadas por nós.

O narrador é um professor, que nos conta em ordem cronológica o que aconteceu: atentados. Primeiro o médico, depois a senhora, depois uma criança e outra. Há uma escalada de violência. Maníacos agindo.

O médico é severo. O pastor é severo. O barão é severo. Os detentores do poder e bastiões daquela sociedade… Severa. Tudo em nome de uma vida “correta”.  A Fita Branca é o símbolo desta imaculação, desta retidão, desta disciplina.

Vemos o filme tensos, tentando compreender o que está acontecendo. Seguimos o raciocínio do professor, figura simpática e apaixonada, uma pessoa conselheira e ponderada.

"Prazer em conhecê-lo!"

Momento! Eis que começam as interessantes induções. Somos induzidos! Tiramos conclusões, achamos culpados, esclarecemos o mistério. O final aberto nem é tão irritante, porque já sabemos tudo. O que nos irrita levemente talvez seja o fato de não sabermos se e como  os culpados foram punidos. Como somos vingativos, não? Ok, não sejamos tão severos: Como nosso senso de justiça clama por um desfecho adequado ao nosso código!

Muita pressão...

Mas. Provas concretas? Num primeiro momento, eu acredito em tudo que me foi “mostrado”. Depois, pensando, paro e vejo toda uma outra perspectiva. O que o Nazismo tem a ver com isso? O que uma sociedade praticamente feudal e totalmente patriarcal tem a ver com isso? O que a opressão e a falta de afeto real tem a ver com tudo isso? O que a tendência a reproduzir padrões tem a ver com tudo isso?

Haneke é um provocador. Quem assistiu Caché sabe. Ele questiona as origens da violência e nossa, sim nossa!, participação nela. O espectador decide o que aconteceu. Somos induzidos, quase compelidos a isso.

Mestre da manipulação da opinião, um Machado de Assis do cinema!

Ao ver o filme, tente descobrir o(s) culpado(s), depois, tente encontrar as provas concretas de sua culpa. Aí conversamos se tudo isso tem a ver com o passado somente.

"Voltem para a cama, a situação já está sob controle."

Excelente filme e excelentes discussões!

O diretor Micheal Haneke se explica, em entrevista:  http://www.goethe.de/ins/br/sap/kue/flm/pt5243151.htm

The Commitments – Loucos pela Fama

The Commitments – Loucos pela Fama
(The Commitments, Irlanda/Reino Unido/EUA, 1991)

Direção: Alan Parker

Elenco: Robert Arkins, Michael Aherne, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Dave Finnegan, Brohagh Gallagher, Andrew Strong

Baseado no romance de Roddy Doyle

“Se você tem ‘soul’ (alma), a banda mais trabalhadora do mundo está esperando o seu contato.” Este anúncio abre um filme delicioso, tanto no que se refere à história, quanto à trilha sonora: Mustang Sally, Try a Little Tenderness, Take me to the River, The Midnight Hour…

Jimmy Rabbitte quer montar uma banda de irlandeses negros… Hm, na verdade, isso é um pouco difícil, mas ele consegue convencer alguns sardentos de que eles são negros e tem orgulho. Eles passam horas vendo James Brown, repetindo o mantra…

O pai de Jimmy, grande fã de Elvis, não bota muita fé na idéia, mas…

Ele seleciona algumas pessoas, todos inexperientes, mas acha o cantor perfeito: egocêntrico e irrascível. Bem, o baterista também não se controla, as meninas estão se encontrando na vida, ou seja, caos. Até que o poderoso Joey, digo, o veterano Joey passa a ensinar o verdadeiro soul com seu trompete… Inclusive, as meninas tem muito a aprender com o experiente Joey.

A banda se destaca e o genioso Andrew Strong rouba a cena, cantando muito! Existe uma banda até hoje, que já se apresentou no Brasil.

Adoro e espero que mais gente tenha assistido.

Trilha Sonora de The Commitments:
1 Mustang Sally (Andrew Strong)
2 Take Me to the River ( Andrew Strong)
3 Chain of Fools (Angeline Ball, Maria Doyle)
4 The Dark End of the Street (Andrew Strong)
5 Destination: Anywhere (Niamh Kavanagh)
6 I Can’t Stand the Rain (Angeline Ball)
7 Try a Little Tenderness ( Andrew Strong)
8 Treat Her Right (Robert Arkins)
9 Do Right Woman, Do Right Man (Niamh Kavanagh)
10 Mr. Pitiful (Andrew Strong)
11 I Never Loved a Man (The Way I Love You) (Maria Doyle)
12 In the Midnight Hour (Andrew Strong)
13 Bye Bye Baby (Maria Doyle)
14 Slip Away (Robert Arkins)

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Asas em sonhoNormalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.

Mas não Damiel.

Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?

Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo,  Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.

Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.

Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.

Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.

Als das Kind...(…)

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.

(…)

Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?

(…)

Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).

Mas eis o que Damiel realmente quer:

É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.

(…)

Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.

(…)

Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)

(…)

Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!

É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:

Sei, agora, o que nenhum anjo sabe...

Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…

A Viagem de Chihiro (2001)

A Viagem de Chihiro - Poster

Chihiro é uma garota de 10 anos. Filha única, é um tanto mal-humorada e medrosa. No momento inicial do filme, está especialmente chateada: mudando de cidade por causa do emprego do pai, perde o ambiente conhecido e amigos.

Quase chegando ao novo lar, o pai de Chihiro erra a entrada para a cidadezinha onde vão morar. Dão de cara com uma espécie de túnel e do outro lado… Aí começa a Viagem de Chihiro, com novos contatos, novas responsabilidades, novas visões. Seres impressionantes passam com maior ou menor influência por uma menina que vai mudando durante a viagem e aprendendo valores.

Chihiro viajando O Sem-Cara é impressionante. Aliás, todas as personagens cheias de uma poesia marcante, às vezes caricatas, outras vezes simbólicas, outras tantas vezes simplesmente nojentas! E Chihiro lida com todas, uma a uma. Seguindo em sua viagem para si mesma e uma nova fase da vida, cheia de descobertas e desenvolvimentos, ela redescobre até mesmo seu curto passado e o que ele pode significar no presente. Educação, limpeza, respeito, cuidado, atenção… Quem não quer tudo isso? E não podemos todos dar tudo isso?

A Viagem de Chihiro ainda conta, além do belo enredo, com um traço espetacularmente fantástico  em criaturas nunca imaginadas ou descritas. Cada uma delas tão bem elaborada como a personagem principal, ou o lindo dragão branco, ou a enigmática cidade dos espíritos.

É isso, Chihiro viaja até a morada dos espíritos e volta de lá com o seu renovado.

http://www.imdb.com/title/tt0245429/

Primavera Verão Outono Inverno… e Primavera (Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom. 2003)

primavera-verao-outono-inverno-e-primavera_posterPrimavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera
(Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom). Coréia do Sul/Alemanha. 2003

Direção e roteiro: Ki-duk Kim.

Ahn… Elenco…

Yeong-su Oh

Ki-duk Kim

Young-min Kim

Jae-kyeong Seo

primavera-verao-outono-inverno-primavera_02O título diz tudo. O ciclo da vida. No caso, de um menino que é abandonado num templo onde mora um velho monge solitário e que o doutrinará. Suas primeiras lições na vida, sua primavera… Aí chega uma garota doente – a mãe acredita que o monge saberá a cura… Na verdade, é o agora adolescente que vai curá-la. Alto verão! Aí a vida “comum” se estabelece, mas logo o sombrio outono e o frio inverno chegam. Ao retornar, o não mais tão jovem monge recomeça seu caminho monástico… Nova primavera.

Este filme, não só por ser asiático, lembra demais o Samsara. O elevado e o mundano fazendo pessoas se perderem ou se acharem.

primavera-verao-outono-inverno-primavera_01Lindas paisagens.

Lento, gente, coreano, gente. Não vão me dizer que não avisei!
No Samsara, pelo menos, tem aquela Angelina Jolie asiática deslumbrante e a paisagem é mais diversificada.
Mas eu adoro este tb.

Por: Elaine Truiz.