Who is Dayani Cristal? (2013)

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“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México

Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

los-olvidados-posterEste é, sem dúvida, um dos grandes filmes de Luis Buñuel. Pela sutileza realista e cruel com que representa a exclusão social, pela clareza com que mostra a violência crua à qual estão submetidas as populações periféricas das grandes metrópoles e por tocar no ponto central que gera essa violência. A recorrência da temática social na obra do cineasta espanhol é grande, sendo tema de importantes referências de seu trabalho, como é o caso de O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoise, 1972). Mas em Os esquecidos o que mais me impressionou foi a construção fílmica das situações.

Nenhum personagem é vilão, pois as atitudes individuais são mostradas como resultado da situação social a que estão submetidos. Assim, o jovem Jaibo, líder da gangue de meninos, egoísta e ensimesmado, nos é apresentado como um delinquente, mas sutilmente Buñuel nos faz ver que ele é produzido por um sistema que não visa nem educar nem prover as necessidades básicas das populações pobres, mas reproduzir e reiterar a violência física, simbólica e psicológica em reformatórios.

Da mesma forma, a mãe de Pedro não é compreendida como um desalmada que não liga para o filho mais velho, lhe nega comida, entrega-o à escola agrária e ainda se envolve com Jaibo (que a essa altura já roubou uma faca do patrão do seu filho, pelo qual deixou Pedro levar a responsabilidade). Mas sim, ela é mais uma vítima do sistema excludente e machista, que a obrigou a casar-se aos 14 anos com um homem que a abandonou com os filhos, por quem tem que trabalhar várias horas por dia, sem conseguir lhes dar afeto, apenas o mínimo do mínimo para que não morram de fome.

Pedro quer constantemente “tomar jeito” e trabalhar, já que não consegue estudar, mas as condições de vida o impedem de fazê-lo. Mesmo quando recebe a confiança do diretor da escola agrária, Jaibo aparece para fazê-lo fugir, levando-o para a morte. A violência que permeia todas as relações desenroladas no filmes faz com que possamos entender que ela não é fruto dos indivíduos em si, mas sim, uma imposição de uma força maior que os oprime a todos com constância e firmeza. Assim, as cenas do ataque dos meninos ao cego ou ao aleijado são incômodas na medida em que representam o processo autofágico que (des)ordena a vida e o cotidiano das populações marginalizadas (tanto porque estarem à margem quanto por serem mantidas à margem).

10418155_697084740340223_4893991445148083285_nA qualidade do filme só aumenta quando percebemos, contudo, que não há uma naturalização do recurso à violência como algo inerente à pobreza, através tanto do personagem de Julian, quanto pela origem da grande violência ser sutil e constantemente  apresentada como vindo de cima. Quem sugere um possível agente de transformação é justamente o diretor da escola agrária para onde Pedro é enviado: trancar a miséria em vez das crianças!

Os esquecidos no IMDB.

Curta: O Emprego (El Empleo. 2008)

el-empleo_curta_2008Por Mariana Rosell.

Como eu nunca tinha visto esse curta antes?! É incrível! Em sua simplicidade, em seu didatismo e em sua capacidade de comunicação.

O curta, El Emprego, retrata um dia de trabalho de um homem elucidando a coisificação e mostrando como no sistema capitalista, entre pessoas e objetos, nada há de diferente; tudo vai bem desde que todos cumpram com suas funções calados e passivos.

Nem tem muito o que dizer sobre ele, mas recomendo a assistência, sobretudo nesse primeiro de maio, dia DO TRABALHADOR E DA TRABALHADORA, e não do trabalho, como já discuti nesse texto do ano passado. É a reificação desenhada… Será que agora a galera entende?

El Empleo.2008.
Diretor: Santiago “Bou” Grasso
País: Argentina

Para assistir ao premiado curta: