The Rocky Horror Picture Show (1975)

Bem, cinematograficamente falando, The Rocky Horror Picture Show é bastante limitado. Com direito a caixa de papelão simulando um castelo flutuando. Porém, como legado de originalidade e cinema contagiante – e que em cada assistida continua uma louca viagem – onde excitação e loucura casam perfeitamente, temos aqui um clássico. Uma homenagem a filmes de terror e ficção científica lá das antigas, mantendo seu charme e de certa forma, a sua graça. Tudo o que ficava apenas na sugestão, ganha vida em forma explícita.

Um casal muito feliz, um médico louco – ou nesse caso, um extraterrestre do planeta Transexual (?) – sua criação, seu mordomo, suas assistentes, chuva forte, noite escura, pneu furado e muito rock’n roll. Partindo daquela velha idéia de acidente no meio do nada e a única ajuda ser a dos habitantes de um castelo nada amigável, a inserção de guitarras pesadas passeando pelos estilos do Rock, indo do clássico ao contestador, levantam o astral do filme e em muitos momentos é impossível não dançar e cantar aquelas músicas grudentas.

E a graça do filme não fica restrita somente a isso. E notório o clima de nostalgia, exaltado com gosto as referencias a Frankenstein, Flash Gordon, King Kong, à lendária RKO e por aí vai. Tudo que influenciou esses gêneros do cinema tão bem misturados com comédia e romance. Os personagens de longe soam interessantes, mas exercem sua função muito bem.

Todos estereotipados e muito bem interpretados, desde Susan Sarandon em início de carreira – e muito bonita por sinal – ao transexual tarado interpretado por Tim Curry, e que rouba absolutamente todas as cenas do filme.

Seus estereótipos funcionando muito bem para não exatamente contar uma história, e sim, fazer acontecer um espetáculo. A extravagância dos figurinos e do texto – com ousadas piadas sobre sexo – dão a entender que não se trata de um mero musical, mas sim, de um filme onde vale tudo. Alguns poderão torcer o nariz sem dúvida, outros irão adorar e sacar que tudo aquilo é rock sem lei nem ordem e se divertir a beça com tudo aquilo, mas, analisando dentro do nosso mundo, sempre foi assim. O pobre do Rock, defendendo suas idéias e libertações sendo oprimido pelo hipócrita bom senso das pessoas.

O que temos aqui é um filme que pouco liga para a breguice e a tosquice, que pouco liga para o que vão achar de sugestivas e até certo ponto polêmicas cenas de sexo e que quer mais saber de agitar tudo. É tudo um espetáculo, a começar pelo já lendário Dr. Frank (Curry, numa caracterização que lembra Freddie Mercury), que abusa de seu glamour e cria um ser másculo e homem o bastante para lhe satisfazer sexualmente. Encarando por um lado é grotesco realmente, mas entrando na proposta sincera e honesta de diversão do filme, é uma expressão de liberdade intelectual gritante.

É a força do Rock a favor de todos. Um filme sem preconceitos e que mesmo sendo limitado, é de uma riqueza impagável, seja na malícia de suas músicas, seja na bela homenagem ao cinema que um dia falou de tudo isso sem ninguém perceber que falavam daquilo, e que mesmo tanto tempo passado de seu lançamento, continua pomposo, sexy e contagiante.

E não envelheceu nada, tanto que sempre é revistado e ainda se tornou um marco na cultura pop – veja por exemplo as músicas, que continuam geniais e inspiradoras ou a séria Glee, que em sua segunda temporada fez uma homenagem mais recatada do filme.

É em poucas palavras, um filme delicioso, que sem sombra de dúvida, levanta o astral e diverte sem nenhum trauma, a todos. Um dos filmes mais legais já feitos.

Por: Rafael Lopes.

Nota: 8,5
Cotação: *****.

The Rocky Horror Picture Show
Inglaterra (1975)
Direção: Jim Sharman.
Atores: Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O’Brien.
Duração: 100 minutos.

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RIO (2011)

A Blue Sky conseguiu em pouco tempo traçar uma trajetória que mesmo tímida, é bastante respeitável. Das aventuras robóticas e de humor inteligente de Robôs ao arrasa quarteirão glacial A Era do Gelo, tem-se em comum um único nome: Carlos Saldanha. O brasileiro conseguiu fazer nome lá fora, e com isso autonomia para fazer o que bem quisesse. Disso, surge Rio, a nova empreitada da Blue Sky e novo grande sucesso de Saldanha. Obviamente temos que bater palmas para o cara, afinal de contas é um brasileiro mostrando domínio num mercado tão lucrativo e que não cansa: as animações.

De cara, algo que predomina durante toda a projeção: a beleza brasileira. O balé das aves e a excelente música – que teve um toque todo abrasileirado comandado por ninguém menos que Sergio Mendes – desenham toda a estrutura que fará parte da estética do filme. A beleza com a qual é mostrada não somente o protagonista, a ararinha azul Blu, mas também a riqueza da natureza é perfeita. A sincronia da dança inspirada no samba com o próprio samba de raiz, lá dos boêmios é um de uma beleza só. De fato a Blue Sky tem um talento que a diferencia das outras do ramo, que é a facilidade de fazer cenas de ação aliadas a uma beleza estética impressionante, e com isso, o Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, ganha mais um motivo para justificar esse título.

O Cristo Redentor numa tomada de tirar o fôlego, um passeio pela Marques de Sapucaí ou um rasante de asa delta com um pouso na praia bem agitado ou até mesmo uma corrida dentro dos becos das favelas, tudo é lindo, nada é estereotipado. E esse é a grande qualidade do filme. Com a cidade ganhando uma projeção realmente maior do que de costume, com os principais eventos esportivos do mundo por vir e a inclusão do Cristo nas novas sete maravilhas do mundo, um filme que fizesse jus a sua beleza e tivesse uma projeção internacional bem grande, vem muito a calhar. E a galera que assumiu a produção de Rio se encarregou de recriar Rio de Janeiro digitalmente com uma precisão cirúrgica na fidelidade aos traços originais.

Todos os planos abertos, que captam a grandiosidade da cidade estão nada menos que perfeitos, e isso já da força ao filme. O que fica como defeito é o fato de tapar os olhos para temas sérios, que poderiam muito bem ser mais aprofundados – uma vez que o filme chega a sugerir a discursão – mas que no fim acaba sendo tão paralelo ao filme que soa inútil. O tráfico de animais silvestres ou a preservação da Mata Atlântica ou o futuro de espécies como a arara azul, protagonista do filme, são assuntos que parecem ficar alheios a todas as situações que vão acontecendo.

É aí que se minimiza a importância do ambientalista apaixonado por aves Túlio, é aí que os vilões perdem parte de sua eficiência dentro do filme – eles parecem seres obrigatórios ao filme e não personagens que possuem sua importância dentro da história – e os animais são apenas peças que preenchem o que sobra de espaço. Em nenhum momento soaria clichê e até serviria como um instrumento para levar a tão bela mensagem de salvação dos nossos ecossistemas que faria Rio crescer ainda mais, não ficar somente estagnado no filão do cinema diversão, papel que cumpre com muito louvor.

Até porque apenas piadas e situações engraçadas ou romance bonitinho são elementos que sem um tempero acabam não saindo como esperado. Saldanha consegue criar personagens carismáticos e “fofos” em todos os sentidos, e consegue muito bem explorar esse campo, mas por outro lado se esquece de dar ao filme uma lenha a mais. Tanto que Rio acaba sendo como um bolo, um bolo muito bonito por fora, cheio de decoração e estilo e pompa, mas que por dentro, fica devendo no sabor. O filme é maravilhoso, mas fica uma pontada de “faltou alguma coisa”, e esse é o calcanhar de Aquiles da obra.

Mas relevando esse probleminha, o filme flui naturalmente bem, sem estereótipos nem piadas de mal gosto direcionadas ao povo brasileiro, que nesse caso acabou sendo mostrado como alegre e sempre tentando estar afrente de qualquer adversidade. Um belo retrato – mesmo que em animação 3D – do nosso país, e comandado por um cara que está muito bem representando a criatividade e o talento brasileiro lá fora.

Nota: 8,0
Cotação: ★★★ .

Rio
EUA
(2011)
Diretor: Carlos Saldanha .
Atores: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Jamie Foxx .
Duração: 96 minutos.

Por: Rafael Lopes.

Salt

salt

O cinema de espionagem ganha mais um herói. Dessa vez, um pouco fora do comum. Primeiro porque é mulher e segundo porque é soviética. Evelyn Salt tem uma bela carreira na CIA, com direito a troca especial na coréia quando fora capturada. Mas alguma coisa do passado da espiã é cutucada quando o misterioso desertor russo Orlov entra em cena. Segundo ele, Salt faz parte do KA 12, que preparou jovens espiões para se misturarem aos americanos e no dia X, executar o maior ataque em massa para destruir o país capitalista.

Até então tudo dentro da coerência normal. Uma agente secreta, super treinada, posta em uma situação delicada: enfrentar um super ataque de uma nação que protagonizou a Guerra Fria. Mas há defeitos ali, muitos por sinal, que comprometem a produção. E quem é Evelyn Salt? Bom, o filme tenta, mas ela não engrena e a personagem, dividida entre flashbacks fora de coerência e fugas tresloucadas, acaba sendo apenas a Angelina Jolie mais uma vez chamando atenção.

Muito diferente de Jason Bourne ou Ethan Hunt que brilharam em seus filmes, com tramas densas, tensas, maduras e com ação realmente que não se ocupasse em nos subestimar e sim fazer viajar e se divertir, Salt é uma personagem avulsa, que vive à custa de um motivo para correr e fugir. Suas ações chegam a um nível tão absurdo de autismo, que ela se desprende da perfeição que é o KA 12 para enaltecer seus princípios americanos.

Ou seja, aqueles filmes sensacionalistas que vendiam os Estados Unidos como nação superior, estão de volta, e dessa vez, até a inimiga do Estado luta a favor das ideologias americanas.

E o roteiro ainda mais coerente e “inteligente” põe o amor que ela sente pelo marido como motivo para executar seus atos. E se notarem, esse lance de amor acima de tudo é muito americano. E aqui chega a ser cômico, ver que um cara que estuda aranhas conseguiu fazer os americanos desafiarem as relações já estreitas com a Coréia do Norte para efetuar a troca de Salt. E aí entra o maior erro do filme: preencher o vazio da história com cenas de ação. O erro de justificar as ações da espiã se atenuam mais nesse quesito.

O diretor Phillip Noyce usa e abusa de tremedeiras, corridas, barulho e tiros para esconder as falhas do roteiro. Sem contar que usa e abusa de todas as picaretagens que o gênero tem utilizado para se manter vivo: os exageros. Mas não um exagero divertido como em Duro de Matar ou Maquina Mortífera, mas sim, aquele exagero óbvio que só subestima a inteligência de quem assiste. Salt escapa miraculosamente ilesa de uma chuva de tiros e uma explosão a poucos metros dela enquanto outros morrem. Salt leva um tiro nas costas, aparece sangue, e no fim das contas ela estava de colete – e se notarem, o sangue está lá sujando a camisa. Mas o diretor esqueceu da maior picaretagem que um diretor com uma sexy simbol poderia cometer: fez Angelina Jolie emagrecer demais, ficar loira e estranha, e depois, quando se assume como Femme Fatale de verdade, não há nem ao menos ela com pouca roupa para chamar atenção. Pelo menos não se usou de sexo para manter o público atento em seu filme.

Ou seja, o compromisso aqui está apenas em fazer mais um filme de ação e não fazer nascer uma heroína que se iguale a Bourne ou Hunt. Colocar uma mulher como protagonista de uma trama desse calibre é uma proposta interessante, uma vez que homens dominam esse ramo. Tom Cruise chegou a estar ligado ao filme, mas desistiu por se parecer demais com Ethan Hunt de Missão: Impossível. Angelina Jolie e toda a protuberância de seus lábios seria a escolha certa. E de fato é, tanto que dispensou dublês e participou das cenas de ação, porém, parece ter desempenhado a mesma Lara Croft que fez anos antes e que mancham a carreira da atriz que arrasou em Garota Interrompida e foi oscarizada.

Aliás, Jolie cada vez mais se distancia das personagens realmente fortes que fez. Sua imagem ganhou um apelo forte para tudo que seja mais comercial. Ela teve sucesso nisso, não há como negar, porém, tem apresentado atuações abaixo do que se espera de alguém com talento como ela. Angelina ainda é uma pedra esperando realmente ser lapidada com mais força. Apenas apresentou bons lampejos que diretores competentes podem apostar. Clint Eastwood certamente não e arrependeu-se.

A trama se desenrola com bastante precisão. Bom. Porém, o fato de o diretor remoer o passado dela, para contar uma história de amor e nos fazer crer que ela faz o que faz apenas pelo amor do cara que a salvou é muito maçante.

Chega um momento do filme que é preferível crer no que se vê e torcer pra ser isso, do que esperar pelo óbvio. E nisso, o filme começa a se tornar cada vez mais previsível.

E a previsibilidade e tudo se tornando óbvio enterra as chances de Salt – tanto a espiã como o filme – ganharem a simpatia do público. O filme termina e fica a pergunta: ”e daí?”. Um final sem pé nem cabeça para algo que começou sem pé nem cabeça, se explicou, deu brecha para ser interessante, e no fim das contas, terminou como mais do mesmo, meio que implorando por uma continuação.

Salt seria um suspiro de inteligência e cinema de espionagem, mas por incompetência, tornou-se repetitivo e involuntariamente engraçado. Se o filme não colar, espero que os produtores entendam.

Nota: 3,5
Cotação: **.

Salt, EUA (2010)

Direção: Phillip Noyce.
Atores: Angelina Jolie , Liev Schreiber , Chiwetel Ejiofor , Daniel Olbrychski , August Diehl.
Duração: 100 minutos.

Dogma (1999)

dogma

O ano de 1999 entre outras coisas, foi caracterizado pelo caos instalado devido à uma profecia de Nostradamus sobre o fim do mundo.

Em 1999 e sete meses,do céu virá um grande rei do terror.
Ressuscitará o grande rei D’ANGOLMOIS.
Antes que Marte reine pela felicidade
”.

E claro, o cinema soube se aproveitar da situação. Filmes como Fim dos Dias, aquela comédia involuntária com ares sérios estrelado por Arnold Schwarzenegger, que se embasava na data citada por Nostradamus (09/09/99) para causar o fim dos tempos; e também aquele suspense amarradinho e bem feito, mas sem muitas pretensões, Stigmata, que tratava justamente do caos religioso com medo de seus próprios dogmas e milagres.

Só que nenhum desses filmes, com o objetivo de tornar o “fim dos tempos” algo comercial, conseguiu um efeito tão brilhante como Dogma. Escrito e dirigido pelo inteligente e ousado Kevin Smith, o que temos aqui não é só uma comédia parodiando o que seria o fim dos tempos, mas também, um enredo que nos instiga a pensar em temas polêmicos e sérios como a fé, a credibilidade da igreja e da bíblia e sobre os dogmas que tem embasado a fé cristã por tanto tempo.

É uma obra realmente atemporal e hilária, lançado justamente num ano onde os sentimentos que o filme brinca ficaram tão evidentes. E nada de vinda do anticristo ou beuzebus ou coisa do tipo.O que causaria o fim da existência seria a tentativa de dois anjos rebeldes de voltarem para o céu. Loki (Matt Damon) e Bartleby (Bem Affleck) foram expulsos do céu, mas encontraram uma brecha nos dogmas religiosos onde poderiam voltar sem problema pra casa. E é onde as piadas começam.

A brecha que encontraram foi na divulgação de um padre, que dizia que todo homem que atravessasse as portas da igreja seria perdoado de todos os seus pecados. Os anjos para se tornarem humanos, precisam tirar suas asas fora. O fato é que, esse lance de atravessar as portas e ser perdoado foi assinado pelo papa, e se o papa assinou, Deus concorda. Dessa forma, se os anjos atravessarem e o mundo acabar, a culpa serão dos seres humanos. Nisso o diretor tira graça de quão estúpidas as pessoas fanáticas religiosamente são.

Seguindo uma conduta cegamente, deixando de lado seu senso crítico ou o mínimo de inteligência, pura e simplesmente para seguir uma religião embasada em fatos descritos por humanos e não por divindades, essas pessoas são o principal alvo das piadas desse filme. Mas que fique claro, o filme não é ofensivo e muito menos pejorativo, apenas lança questionamentos sobre o que esses fanáticos julgam ser a verdade absoluta.

É aí que entra Bethany (Linda Fiorentino). Ela não tem nenhum motivo pra acreditar na fé, pois perdeu a capacidade de ser mãe, perdeu o marido, e dirige uma clínica de aborto, vítima de protestos incessantes de cristãos fanáticos. Ela, a pessoa mais improvável do mundo, é escolhida por Metraton, a voz de Deus (Alan Rickman) para ir até a igreja das portas santas, junto com dois profetas – os personagens mais incríveis de Kevin Smith Jay (Jason Mewes) e Bob Calado (o próprio Kevin Smith) – o 13° apóstolo (Chris Rock) e a Musa Inspiradora (Salma Hayek).

Essas personagens são responsáveis pelos melhores momentos do filme. Uma mulher sem fé e dois drogados escolhidos para salvar a humanidade vão contra aquele pensamento de um ser santo fazer tal tarefa. O 13° apóstolo negro, nos fazendo refletir sobre o fato de o mundo ter a visão de que todos os personagens da bíblia são brancos, mesmo vivendo nos desertos, e sobre a forma masculina de se enxergar Deus. Porque ele não pode ser uma mulher? Porque ele não pode ser Alanis Morisette, como o filme bem brinca.

As ricas personagens de Kevin Smith são encaixadas com perfeição dentro do filme. Cada fala e cada situação na qual são inseridos funciona como crítica ou piada ou discurso. E sendo um filme de comédia, a princípio é complicado de se ver esses temas tão polêmicos e absurdos serem tratados com seriedade. Mas no fim das contas, ele alcança o sucesso. Diferente de tantos outros filmes sérios sobre religião e fé, Dogma com toda a sua cara de pau e ironia, consegue se sobressair com mais eficiência, pois não fica naquilo que já estamos carecas de saber e de ver.

Dogma vai mais além, oferecendo ao espectador uma visão crítica e bem humorada daquilo que acredita-se ser a verdade. E em nenhum momento o diretor de induz a se rebelar contra a igreja e partir pra cima de seus princípios. Ele respeita muito isso, mas também deixa claro que o fanatismo cego a isso não é bom. Cenas onde ele diz que as pessoas não mais vão à igreja por fé, mas sim, por obrigação, ou o anjo Loki rindo das pessoas que ele conseguiu fazer com que virasse ateu (mostrando a facilidade de se moldar a mente por meio de uma bela retórica, bem como padres e pastores o fazem) são bastante eficiente dentro dessa proposta.

O caminho de auto descobertas de Bethany é deveras importante ser lembrado também. Uma vez que Jesus teve 21 anos para assimilar sua missão na terra, ela tem apenas poucos dias. Certamente, a princípio não entende e não quer tal missão, mas só descobrir que ela é uma das herdeiras de Jesus e a coisa toda muda de figura. Ainda mais quando uma mulher, que foi culpada e por tanto tempo hostilizada pela bíblia e ainda como ser inferior em culturas mais ortodoxas do cristianismo, recebe a missão de salvar a humanidade e a existência.

A inteligência de Kevin Smith e a ousadia em subverter personagens bíblicos, fazendo piadas sobre eles e teorizando sobre suas existências no mundo são excelentes. O roteiro, também assinado por ele, é só a prova de seu talento. Ele consegue amarrar direitinho seu filme mesclando o fantástico com o real, as ironias com idéias realmente interessantes e tudo isso, se embasando na bíblia. Sua direção é bastante simplista, mas que preza pelo detalhismo nas gags que causam muitas boas risadas durante o filme.

E se ao termino do filme você se sentiu incomodado com as idéias apresentadas, não esqueça que Deus também tem bom gosto, e a prova disso são os ornitorrincos. Dogma é um excelente filme, e se encarado com a mente aberta e o devido bom humor, há de se entender as piadas e o sarcasmo sem soar pejorativo do diretor. Sou católico, fui criado com educação baseada no catolicismo, creio em Deus, e achei o filme válido, interessante, inteligente e em nenhum momento me senti ofendido.

Recomendadíssimo.

Nota: 9,0
Cotação: *****.

Dogma, EUA (1999)

Direção: Kevin Smith.
Atores: Linda Fiorentino , Ben Affleck , Matt Damon , Salma Hayek , Jason Lee.
Duração: 124 minutos.

Fahrenheit 451

farenheit

Num futuro onde o totalitarismo assustador comanda, os livros são censurados. Objetos de subversão, capazes de tornar as pessoas infelizes e anti social. Tanto que na abertura do filme, os créditos são na verdade falados, e não escritos como de costume. A piada é válida, e já nos insere na trama: a leitura aqui não tem vez! Cores delirantes e antenas de TV. O mundo está dominado pela caixa mágica, que além de objeto de propaganda do governo, hipnotiza quem assiste, tornando um soldado a seu favor.

As pessoas são enclausuradas, como na Idade Média. O castigo divino caso leia um livro é estar fadado à infelicidade eternamente, e as pessoas passam a ter medo. E a forma que foi encontrada de tirar isso das pessoas, foi à companhia de bombeiros 451. Mas não quaisquer bombeiros. Esses ao invés de apagar o fogo, o causam, queimando os livros encontrados nas casas dos que ainda insistem em ler. O Fahrenheit 451 refere-se justamente a temperatura que o papel pega fogo. E aos que são encontrados com esse material são levados para interrogatório e não mais voltam.

Entre os 451, temos Montag (Oskar Werner), um exemplar bombeiro, que mesmo a cara de sonso não deixa enganar: ele ta ali a serviço e põe pra ferrar com os “fora da lei”.
E prestes a ganhar uma promoção, o que ele mais quer é continuar sua vida, dentro dos conformes e seguindo fielmente seus superiores e a ideologia que o leva. Em um diálogo com seu capitão, a constatação disso:

“ — O que faz nas horas de folga, Montag?
— Muita coisa… corto a grama…
— E se fosse proibido?
— Ficaria olhando crescer, senhor.
— Você tem futuro.”
.

Ele vive a vida mais sem sentido do mundo, mas gosta disso. Tem uma casa, mas não possui visão de melhora – a não ser quando sonha com sua promoção. Tem uma esposa, Linda (Julie Christie), que vive na sala da casa assistindo TV e tomando pílulas. A TV muito bem lembra os dias de hoje: programas ruins que atraem as grandes massas e incentiva a população a ser idiota e não a obriga a pensar. As cenas dela são quase uma visão dos dias de hoje. Mostra como a TV torna quem assiste dependente daquilo, equiparando até às pílulas que ela toma, como algo viciante e sem futuro.

Mas como a TV prega e o governo assina embaixo, quem vive assim é feliz. E bom, não há nenhuma felicidade. E olha que eles nem lêem. Não há diálogo, não há qualquer resquício de sentimento e a forma apática e as vezes anêmica com a qual tentam estabelecer diálogo, só mostra a futilidade assustadora a que somos submetidos cada vez mais. Involuntariamente ou não, é assim que tem sido e é assim que vai ser se continuar como está.

E na rotina de queimar romances e obras que não dizem nada, como eles mesmos dizem, a vida segue e todos estão felizes. Se estiverem dentro do sistema e aceitando o sistema como é, pronto, ta valendo. Mas levam uma vida sem contato, sem sentimento. As pessoas entendem o que fazem, e mecanicamente o fazem, como na cena em que há uma limpeza no sangue de Linda. É tudo robótico, mas na verdade, não há essência, não há vida, não há sentimento, não há nada.

Mas eis que um dia, uma mulher muda tudo. Clarisse (Julie Christie), uma professora, feliz , longe de estar enclausurada na falta de leitura, cruza a vida de Montag. E entre questionamentos e palavras que instigam Montag a olhar as coisas por outro prisma, logo nosso dedicado incinerador de livros se vê na necessidade de ler. E quando começa, percebe que há luz no meio da escuridão que vive. Então, o passatempo considerado crime, torna-se um hábito para ele, mas as conseqüências disso podem ser devastadoras e esclarecedoras em sua vida.

E em um dia de trabalho, quando vão à casa de uma mulher que guarda uma biblioteca clandestina, percebe que pode ajudar a mudar o mundo, e bem como foi com ele, salvar outras vidas da estagnação mental. Mas precisa também vencer os inimigos que vão surgindo à sua volta. E no meio disso, descobre os Homens Livro, pessoas que para não ver suas obras preferidas serem queimadas, decoram o texto e passam a ser esse livro. É como o Iluminismo, a época que as luzes do conhecimento venceram a escuridão da falta dela, causadas por séculos de opressão e dominação mental.

Primeiro filme colorido do francês François Truffaut. E bastante colorido por sinal, com direito ao excessivo uso de cores fortes, o que dá um impressionante efeito. Mas o que marca mesmo a ótima direção do cara nesse filme é a forma como conduz os momentos onde livros são queimados e diálogos críticos são ditos. O filme é uma grande piada. Sim, uma grande piada. O que o diretor quer é, de forma descontraída, prestar uma homenagem ao poder da leitura.

Em cenas onde as pessoas se mostram grandes ignorantes, logo um livro está ali, e quando esse livro é queimado, essa pessoa aparece ainda mais retardada. Há gags interessantes como o livro de Ray Bradbury que inspirou o filme ardendo em chamas , ou a ênfase que o capitão dá ao dizer que todos os livros devem ser incinerados – ele estava com Minha Luta, escrito por Hitler. E tudo conduzido com uma maestria linda. Truffaut brinca com nossos olhos, brinca com o próprio filme e tira disso uma homenagem linda à literatura universal.

E mesmo que fugindo um pouco de seu texto base, consegue tirar do filme o mesmo que o livro faz. Há críticas sobre indivíduo e sociedade – bem exemplificado na passagem que citei logo no começo do texto – , a falta de qualidade do que nos diverte e como isso é facilmente maleável e manipulável, conhecimento e ignorância – que rende uma das cenas mais lindas do filme: uma mulher morrendo queimada com seus próprios livros – , apatia, desintegração da sociedade entre vários outros temas que o filme desenvolve em cenas ou em diálogos, com uma eficiência maravilhosa.

E contando com atuações firmes, o filme desenvolve com uma naturalidade e espontaneidade incrível. O defeito maior deve ser o fato de em um dado momento de o filme cair numa monotonia chata ou prolongar demais algumas cenas. O diretor ainda tenta compensar isso com belas cenas, como por exemplo, o belíssimo plano que fecha o filme. Mas tirando esse detalhe, é um grande filme.

E que filme.

Ao término é muito difícil não sair pensando nas idéias tão bem trabalhadas e tão bem construídas ao longo da trama. E é isso que vale num filme cuja proposta é tratar do tema sem precisar ser polemico ou apelativo.

E mesmo não atingindo o resultado mais apurado que obras como Júlia e Jim ou A Noite Americana, Truffaut imprime aqui as qualidades que o eternizaram como grande cineasta. Criativo e mostrando conteúdo.

Nota: 8,5
Cotação: **** *.

Fahrenheit 451, Inglaterra (1966)

Direção: François Truffaut.
Atores: Oskar Werner , Julie Christie , Cyril Cusack , Anton Diffring , Anna Palk.
Duração: 112 minutos.

Shrek Para Sempre

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Shrek é algo que marcou a infância da geração animação 3D. Além de ter sido um de seus exemplares mais marcantes, até hoje está no imaginário e nos merchandising destinado ao público infantil. O primeiro filme, de 2001, é realmente digno de muitos elogios. Carregado de ação, muito riso, e um apelo eficiente para crianças, pais e jovens. Deu certo, e a Dream Works se consolida como gigante das animações. O segundo veio tão bom quanto, só que muito mais comédia e chegou ao ápice da criatividade de seus realizadores. Mas até então, o ogro cruel, mas simpático, já era parte da cultura pop, e uma terceira parte foi encomendada.

Um pequeno desastre.

Um filme deslocado, sem graça, sem nenhum atrativo e tentando reprisar a mesma fórmula – sem sucesso – que deu certo nos episódios anteriores. E para reparar essa cagada, e agora com chances mais concretas de ganharem mais dinheiro com o 3D, a quarta – e ultima parte – chega aos cinemas essa semana. Graças a uma semana de provas maldita, fui ao cinema de minha cidade e a quarta parte estava em pré-estréia. Topei o desafio (não escondo que adoro os filmes desse ogro – exceto o 3°) e encarei 20 minutos de fila (graças a mulecada colorida doida pra ver Eclipse) e vi Shrek Para Sempre.

No geral, me agradou. Mas ficou devendo muito.

Começa bem. Creio que parodia de maneira deliciosa o que é a vida de casado, com filhos pequenos e amigos que estão sempre ali. Só que uma hora tudo acaba em rotina.

A cena é espetacular. Shrek começa a se sentir derrotado pelo cansaço por todo esse estresse. Na festa de um ano do trio de rebentos que arrumou (um deles chama Flato, ri muito disso também), acaba descontrolado e parece que quer pendurar as chuteiras da vida que leva.

Agora ele não assusta mais e nem é odiado. Por achar que perdeu a moral, brava para a pobre Fiona, que tudo isso poderia ter sido evitado se ele não a tivesse salvado daquela torre. E voltando pra casa, encontra Rumpelstiltskin, que guarda raiva do ogro e quer vingança. E nesse encontro, encantado com a oportunidade de poder ter seus tempos gloriosos de volta, Shrek assina um contrato que o faz ter tudo de volta por um dia. Mas sem medir as conseqüências, acaba indo parar numa situação fora de seu controle. Rumpelstiltskin virou rei e as bruxas são capatazes; o burro não mais o conhece; Fiona tornou-se uma revolucionária, juntando-se a um bando de ogros guerreiros; o gato engordou e ficou preguiçoso e todos os seus amigos não mais são como antes.

Decidido a anular o contrato, Shrek parte numa corrida contra o tempo para arrancar o beijo do amor verdadeiro de Fiona e fazer tudo voltar ao normal. Mas para isso, vai virar Tão Tão Distante de pernas pro ar.

Ok, o filme é bem legal, animado, muita coisa engraçada, apesar de repetitivo (como os olhos do Gato de Botas), tem bastante correria, mas no fim das contas, dá pra sentir que faltou alguma coisa. Não é um final digno. A impressão que fica é que eles na verdade fizeram algo para reparar o terceiro, e isso é notado durante todo o tempo. Até os filhotes, que considero item desnecessário ao filme, são bastante reduzidos.

O carisma das personagens continua o mesmo, e isso é marca da Dream Works. Conseguem com bastante desenvoltura, fazer seus filmes serem encantadores, com personagens cativantes.
Mas nesse caso fica devendo mais maturidade e mais firmeza no que produzem, coisa que a Pixar não deixa a desejar. Mas sem querer tecer comparações, até porque são inevitáveis, aqui tudo é cool e enche os olhos, mas não marca como o recente e fabuloso Toy Story 3.

Enquanto aqui tem músicas do momento, piadas do momento, gírias e gags, os filmes da Pixar procuram uma abordagem mais séria. Não que isso seja um defeito, mas é que, para um filme que fecha uma série que deu tão certo, ficou muito vago e esquecível. Por mais que morra de rir e se encante tanto, ao fim da projeção pouca coisa fica. No caso da recente aventura dos brinquedos da Pixar, até hoje sinto os efeitos que causou.

E é o que se vê. Não basta apenas agilidade e boas piadas pra fazer valer à pena, tem que de alguma forma, deixar uma coisa ali no público para que lembre bem da série. Ainda mais com um quase desastroso 3° episódio. Mas é até notório o esforço em fazer um filme assim, nota-se pelos créditos finais, mas a rapidez com que a trama se desenvolve e as saídas fáceis do roteiro e alguns furos, deixam certos momentos do filme intragáveis e sem impacto.

O carisma das personagens continua o mesmo, mas como o enredo não apresenta nada de novo (o lance do beijo do amor verdadeiro já foi repetido duas vezes nos filmes anteriores), o jeito é se deixar levar pelos efeitos do 3D, que estão bem bacanas até. O som é maravilhoso, e a trilha muito bacana. Outra coisa bem legal é forma como utilizam a luz, deu um efeito muito lindo em muitas cenas.

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E em resumo, é um filme que vale sim a pena, bem mais do que o 3 mas não menos que os dois primeiros – que são irretocáveis. Vale pra ver com os amigos e depois comer pizza, ou levar o irmão ou primo, que seja, mais novo ao cinema ou ver por curiosidade. Eu gostei, mas foi como uma comida sem sal. Faltou algo.

Nota: 7,5
Cotação: ***.

Shrek Forever After, EUA (2010)

Diretor: Mike Mitchel.
Atores: Mike Myers, Cameron Diaz, Eddie Murphy, Antonio Banderas, Julie Andrews, Jon Hamm.
Duração: 93 minutos.