Na Natureza Selvagem. Em busca da liberdade!

Por Reinaldo Matheus Glioche
O livro reportagem sobre a vida do jovem Christopher McCandless sempre fascinou Sean Penn que, finalmente, transformou o livro em filme. Na natureza selvagem (Into the Wild, EUA 2007) é um filme apaixonado. Comprometido com a idéia de jogar luz sobre a história do jovem que após se formar em uma prestigiada universidade abandona a civilização para uma viagem sem volta rumo ao Alasca, Penn evita o paternalismo tão caro a produções que se esmeram em fatos reais e recentes.

O diretor oxigena a jornada de Chris(Emile Hirsh) que se rebatizou com o libertário nome de Alexander Supertramp, com a bela música de Eddie Vedder. A trilha sonora realizada pelo líder do Pearl Jam é de uma suavidade e sensibilidade ímpares. É ela que conecta o expectador ao estado de espírito do protagonista. É sem dúvida alguma, um valioso uso da trilha sonora como elemento narrativo.

Penn também mostrou discernimento na escolha do elenco. Emile Hirsch apresenta uma performance devotada como o jovem inconformado que parte para a grande aventura de sua vida. Penn escala grandes atores para cruzar o caminho de Chris, mas o grande destaque recaí sobre Hal Harbrook. O veterano ator é o último personagem a se cruzar com Chris e é também o mais poderoso de todos. Harbrook vive um homem soterrado em sua dor. Que vê em Chris, por mais de uma razão, a força redentora dessa dor.

Na natureza selvagem não é um filme memorável. Talvez seu aspecto lúdico, sua introspecção, sua moral evasiva desviem qualquer avaliação de seu foco. Mas é justamente esse o filme imaginado por Penn. Um filme que não só falasse da busca pela liberdade, mas que a emulasse em cada fotograma. Do ponto de vista da realização, Na natureza selvagem é um triunfo. Enquanto experiência visual é riquíssimo. Sonoramente é estimulante, no entanto, é como  se o todo não fizesse jus as partes. Como diria um personagem: “O importante não é o destino, é a jornada”.

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Capitão América: O Primeiro Vingador. 2011

Por Reinaldo Matheus Glioche, 02/08/2011.
Asas da liberdade!

Chris Evans estava receoso em assumir o posto de protagonista de “Capitão América: o primeiro vingador” (Captain America: the first avanger). Ele tinha medo de não estar à altura do desafio. Foi a partir de sua hesitação que Kevin Feige, o mega produtor da Marvel Studios, teve certeza que Evans era o Capitão América ideal. Não dá para dizer que Evans usou esse expediente da dúvida na sua composição de Steve Rogers, o franzino patriota que se vê como cobaia do exército americano para se tornar um supersoldado, mas é possível entender o raciocínio de Feige quando os créditos sobem. Evans facilita a identificação com Rogers em uma performance carismática, envolvente e rigorosa. Tanto antes de se tornar o Capitão América quanto depois.

E o filme se esmera em seu protagonista como que dependesse dele para alçar voo. Joe Johnston se recupera do tenebroso “O lobisomem” com essa aventura deliciosa em que o nazismo é pano de fundo para o surgimento do herói americano mais categórico em termos etimológicos.

Capitão América: o primeiro vingador”, diferentemente do que se poderia supor, não é mero link para o “Os vingadores”. É um filme sólido, com ótimos momentos e uma trama, embora simplista, bem delineada.

Não se avexa de satirizar a própria figura ao submeter o Capitão América ao jugo da propaganda pró-guerra. Uma bifurcação de uma ideia já incutida no primeiro “Homem de ferro”. É lógico que todo aquele componente patriota, que desagrada a tantos, está presente. Mas de maneira inteligente, a produção evita os exageros e ainda brinca com o fato em uma fala do Caveira vermelha (encarnado com prazer pelo australiano Hugo Weaving ): “A arrogância pode não ser exclusividade dos americanos, mas ninguém é melhor do que vocês nisso”.

Capitão América: o primeiro vingador” não deseja ser sério como X-men ou profundo como Batman, mas preenche uma lacuna nessa seara dos filmes de heróis: é o tipo de entretenimento para as famílias. Pode-se argumentar que esse não seria o público alvo, mas a Marvel com este filme vem flexibilizar essa noção de público alvo. Talvez por isso, Johnston, que foi assistente de Steven Spielberg em alguns filmes de Indiana Jones e começou de maneira promissora na direção com “Jumanji”, recupere a boa forma a frente de um filme formatado para levar a outro, mas com a incumbência de angariar mais fãs. Nessa conjunção de ambições, “O primeiro vingador” se mostra mais do que bem sucedido.

O elenco, afinadíssimo, contribui para o sucesso da fita. Tommy Lee Jones está impagável como o coronel cheio de frases de impacto que hesita em depositar a fé que Peggy Carter (Hayley Atwell) põe em Rogers. Toby Jones, Stanley Tucci e Dominic Cooper também fazem participações inspiradas.

No final das contas, a fita é essa produção incapaz de desagradar. Em tempos que até a Pixar deu marcha a ré com “Carros 2”, voltar ao passado com o Capitão América é um alento e tanto.

Quebrando o Tabu. 2011

Antes de se posicionar contra ou favor da descriminalização do uso da maconha, ou mesmo de sua legalização, é preciso louvar um documentário que se propõe a debater a ética de uma guerra contra as drogas e avaliar, ainda que sob uma perspectiva bastante parcial, seus efeitos.

Quebrando o tabu representa um marco evolutivo na carreira do cineasta Fernando Grostein Andrade, que às vésperas de completar 30 anos, promove uma sacudida daquelas no gênero documentário no cinema nacional. Não que Quebrando o tabu e Coração vagabundo, filme de 2009 que acompanhava Caetano Veloso em turnê, sejam obras que rompam esteticamente com cânones do cinema ou que se insurjam contra paradigmas narrativos. Os filmes se encaixam dentro de um esquematismo didático disponível em qualquer manual de roteiro. Mas em compensação, transbordam coragem, poesia e propriedade.

Grostein inicia Quebrando o tabu apresentando seu principal personagem: Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente e sociólogo colaborou com Grostein na confecção do argumento do longa. FHC surge como um questionador que já tem uma certeza. A guerra contra as drogas faliu. É preciso, segundo suas ilações, rever medidas e posturas. O filme acompanha a jornada de FHC em busca de embasamento para uma tese que o filme já defende de pronto – e a bem sacada animação que dá início à fita não faz questão de esconder esse fato. Essa aparente arrogância (os macacos bêbados ao som da potente trilha sonora de 2001: uma odisséia no espaço dão vez ao letreiro do filme) cede espaço a uma construção ideológica bem arquitetada por meio de depoimentos precisos de valiosos cabos eleitorais como os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Drauzio Varela e autoridades sanitárias e políticas da Suíça e Holanda.

Quebrando o tabu, no entanto, não se desvia de argumentos antigos dos defensores da legalização da maconha. Contudo, ao sublinhar a hipocrisia e leniência dos governos em relação ao álcool e ao tabaco, o filme atinge seu melhor momento. A ideia de mudar a política de combate às drogas é pontual e itinerante. Mas cercá-la de demandas pouco substanciais – como dar voz a usuários que admitem preferir se arriscar no trato com o traficante do que respeitar a lei – enfraquecem a discussão em seu traçado mais humanitário, reforçando seu viés ideológico.

Quebrando o tabu arranha questões interessantes. Ao abordar as bem sucedidas intervenções dos governos de Portugal, Suíça e Holanda na questão das drogas, o filme dá um passo à frente a seus opositores. Sugere que a famigerada guerra contra as drogas perde de vista a questão da saúde pública e o impacto positivo passível de efeito mediante uma mudança de abordagem. Mas o filme ignora que a simples legalização da maconha não representa o fim do tráfico de drogas como conceito. Não só pelo fato de que outras drogas proibidas continuarão em oferta (e muito provavelmente mais ampla e barata), como que outras vias de acesso à maconha se viabilizarão.

Os prós e os contras não tiram o mérito de Quebrando o tabu; pelo contrário, os reafirma. Incidir sobre uma questão tão polêmica e revestida de ideologias tão proativas é um serviço à sociedade. Em um mundo em que Michael Moore subverte verdades a seus caprichos, não dá para dizer que Grostein erra ao defender tão veementemente a legalização da maconha. É uma postura corajosa que precisa ser respeitada e discutida dentro do jogo democrático que o cinema conclama. Quebrando o tabu pode até soar ingênuo de enxergar um país melhor do que o Brasil demonstra ter vocação. Os exemplos buscados na Europa não convenceram um importante interlocutor do filme; um coordenador de um programa social desenvolvido pelo AfroReggae disse em determinado momento à FHC que não vê o país suficientemente maduro para legalizar a maconha. Quebrando o tabu faz parte desse processo de amadurecimento. Justamente por isso, com seus erros e seus acertos, além de bem vindo, é muito importante.

Por Reinaldo Matheus Glioche.

Quebrando o Tabu. 2011. Brasil. Diretor: Fernando Grostein Andrade (Coração Vagabundo). Elenco/depoimentos: Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton, Jimmy Carter, Anthony Papa, Ruth Dreifuss, Paulo Coelho, Drauzio Varela, Ethan Nadelmann. Roteiro: Fernando Grostein Andrade, Ilona Szabó, Ricardo Setti, Thomaz Souto Correa, Bruno Módolo, Rodrigo Oliveira, Carolina Kotscho. Gênero: Documentário. Duração: 80 minutos. Classificação: 18 anos.

Recontagem – Por trás da politica!

A nova produção original da HBO é um assombro sob muitos aspectos. Recontagem (Recount EUA 2008) telefilme que se propõe a esmiuçar os bastidores do conturbado período que sucedeu a eleição presidencial de 2000 e que tomou o mundo inteiro pela apreensão e incerteza acerca do destino da democracia mais pujante do planeta é em primeira estância, um filme apartidário. Pelo menos até sua cena final.

Em Recontagem, acompanhamos em um ritmo acelerado – tanto quanto o desdobramento imprevisível dos eventos retratados – o desenrolar da batalha politica e jurídica entre os comitês de Al Gore e George Bush pela presidência da república. A fita expõe em minúcias, nem sempre lisonjeiras, os tramites que conduziram Bush ao poder.

A riqueza da produção dirigida por Jay Roach, que assumiu a vaga de Sidney Pollack que se afastara do cargo em virtude de seu já debilitado estado de saúde, é justamente o insight tenaz que oferece a esse episódio notório e ainda por muitos incompreendido. Pautando-se pela veracidade dos fatos, Recontagem abrilhanta o trabalho dos homens de bastidores da politica, geralmente desconhecidos do grande público. Existem, é verdade, insinuações. Mas elas nunca são defendidas pelo filme, são inseridas no contexto da história e relegadas á importância devida.

Com elenco afinado, capitaneado por um cativante Kevin Spacey, por um excelente Tom Wilkinson e por um Dennis Leary roubador de cenas, o filme rende também como um eficiente thiller, embora o desfecho da história seja notório. Outro mérito da direção de Roach. Se há um porém, é o desnecessário tom jocoso do final. O julgamento que a história, inevitavelmente impetraria ao 43º presidente dos EUA, como todos sabemos, Bush, não precisava ser antecipado de forma tão prosaica por Roach.  Não chega a estragar o resultado. Recontagem é entretenimento de primeira classe. Mas certamente data o filme. Além de lhe vestir a incômoda carapuça da desonestidade. Afinal, o filme hesita, ou faz que hesita, em posicionar-se em relação ao conflito dramatizado, para no final fazer um comentário que em nada o ajuda enquanto dramaturgia, mas lhe convém enquanto veículo liberal.

Por Reinaldo Matheus Glioche. Blog: Claquete Cultural.

Frost/Nixon – Jogo de cena!

Por Reinaldo Matheus Glioche.
Frost/Nixon (EUA 2008) se ocupa de muitos propósitos. Mas antes de mais nada, a nova fita de Ron Howard se incumbe da responsabilidade, pouco verificada no cinema, de desanuviar  um dos momentos mais controvertidos da história politica, social e midiática dos EUA. O embate entre o até então tido como frívolo e superficial apresentador da TV britânica David Frost e o ex- presidente Richard Nixon, acusado de muitos crimes, mas sem julgamento.

O que Peter Morgan, autor da peça em que o filme se baseia e roteirista da fita, faz é unir um intenso trabalho de pesquisa com o saboroso acréscimo da imaginação sobre os eventos que precederam e que temperaram a série de entrevistas contratadas por Frost.

Ao teorizar sobre a figura politica de Nixon em um contexto tão específico, Roward e Morgan humanizam a figura combalida de um dos mais impopulares políticos da história americana. Para isso contam com a performance mediúnica de Frank Langella. O ator, escondido embaixo de uma maquiagem que o aproxima da imagem do ex- presidente, devassa a alma de um homem que foi engolido pela própria ganância. Langella, no final da sessão nos faz esquecer até mesmo do verdadeiro Nixon, tamanha profundidade e nuança de sua caracterização. Michael Sheen que vive David Frost também dá um show a parte. O ator que já havia chamado considerada atenção como o Tony Blair de A rainha, reveste seu Frost de fraquezas, dúvidas, camadas e uma doçura que antagoniza na medida certa com a carrancuda feição de Nixon.

O filme angariou 5 indicações ao Oscar (filme, direção, ator, roteiro adaptado e montagem), não levou nenhum, contudo, passa à posteridade como um filme que ao se debruçar sobre um momento político histórico do passado americano, reflete o presente com contundência exuberante.

Além do elenco inspirado e do olhar investigativo sobre uma ferida americana, Frost/Nixon é um deleite para quem se enamora do fazer jornalístico. Roward e Morgan destrincham os pormenores de como se dá toda a produção de uma entrevista do porte e relevância como a que Frost realizou com Nixon.  E a montagem do filme explicita isso de forma bastante agradável. De fato, Morgan, ao conceber o roteiro estava movido pelo espírito jornalístico.

Por Reinaldo Matheus Glioche.  Blog: Claquete Cultural.