Livro: Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado

capitaes-da-areia_jorge-amado_capa-do-livroPor: Karla Kélvia, do Blog Livro Arbítrio.

Uma visão social e não apenas policial… Numa obra atemporal.

Eu sou do tipo que tem uma relação bem estreita com os livros, desde criança. Quanto mais um livro me marca, mais eu sinto que as lembranças que eu tenho da história dele fazem parte da minha própria história. Capitães da Areia, de Jorge Amado, está na minha galeria de livros mais que especiais, mais que queridos, daqueles que estão gravados em mim para sempre.

Creio que o lirismo do meu querido escritor baiano está em um dos seus ápices neste livro, que, além disso, possui uma trama extremamente atual. Capitães da Areia foi escrito em 1935, em uma fase engajadíssima de Jorge Amado com o Partido Comunista, fato que transparecia muito em suas obras das décadas que vão de 1930 à 1950, chamadas, por esta razão, de “panfletárias”. O Brasil daquela época estava prestes a entrar na Ditadura Vargas, o Estado Novo; o mundo nazifascista caçava comunistas e judeus, e estava para eclodir a Segunda Guerra Mundial. Apesar de o contexto em que surgiu ser tão diferente dos dias de hoje, ninguém pode negar que a história deste livro seja atemporal.

capitaes-da-areia_personagens-01Os Capitães da Areia são meninos de rua; um bando que vive de pequenos furtos e que conhece toda a Salvador. Eles moram num trapiche, um tipo de armazém abandonado no cais do porto, e formam um número variável. O líder deles é Pedro Bala, e os outros mais conhecidos são Sem Pernas, Volta Seca, Professor, Boa Vida, Gato, Pirulito. O livro é dividido em três partes. Na primeira, “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, vemos histórias de aventuras quase independentes dos garotos pelas ruas da cidade, explorando também suas personalidades e os seus medos. Um dos momentos mais bonitos e agridoces desta parte é “O Carrossel”, quando os garotos, que mesmo tão novos levam uma vida tão dura, deixam seu lado mais infantil vir à tona.

capitaes-da-areia_personagens-02A segunda parte é “Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos”, em que Dora e seu irmão pequeno ficam órfãos quando seus pais morrem infectados com bexiga e eles ficam sem ter como e onde viverem. Ela é a única menina dos capitães, a “mãezinha” dos garotos, o amor platônico de Professor e a namorada de Pedro Bala. Depois de voltarem do reformatório, um amor tão lindo e breve tem um desfecho de abalar qualquer coração.

A terceira e última parte é “Canção da Bahia, Canção da Liberdade”, na qual os garotos já não são tão “garotos” assim e cada um vai seguindo seu rumo. O grupo passa a ter participação em greves e a consciência política de Pedro Bala é despertada, seguindo os passos do seu pai. Adoro o final, em que se diz que ele se torna um líder revolucionário.

Capitães da Areia é um livro incrível, pungente, que nos faz pensar em desigualdade social, desamparo das crianças e falta de estrutura familiar, que, infelizmente, ainda vemos tanto no presente.
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Livro e Série: O Poder do Mito (1985)

o-poder-do-mito_a-entrevistao-poder-do-mitoPor Luz de Luma.
Em 1985, o mitólogo e escritor Joseph Campbell sentou-se com o entrevistador Bill Moyers para uma longa conversa no rancho de George Lucas. A conversa continuou no ano seguinte no Museu de História Natural em Nova York. O resultado de 24 horas de entrevista foi editado em seis episódios de aproximadamente uma hora para serem transmitidos pelo canal PBS da TV Americana. A série se tornou uma das mais populares da história da televisão pública americana.

Porém, Bill Moyers achou que a conversa que não foi editada, era tão rica que deveria ser preservada e que merecia atenção do público. Logo após a transmissão da série pela TV, a transcrição completa da entrevista foi publicada em formato de livro, onde o ponto de vista dimensional de Campbell sobre mitos culturais, espiritualidade, arquétipos psicológicos e mitologia foram integralmente explicados.

O livro “O poder do Mito” é escritura secular – Um tesouro de sabedoria sobre a experiência humana no cânone de tais obras-primas raras como as Revistas de Thoreau, os Cadernos de Simone Weil, as cartas de Rilke e Pilgrim de Annie Dillard.

a-jornada-do-herói_campbellVocê pode assistir todos os episódios da série no youtube: “A Mensagem do Mito“, “A Saga do Herói“, “Os Primeiros Contadores de História“, “Sacrifício e Felicidade“, “O amor e a Deusa” e “Máscara da Liberdade“. Bônus: “Entrevista com George Lucas“.

Vale a pena “perder” o seu tempo assistindo a série. Se não assistir, seu tempo irá se perder mesmo de qualquer forma… rs.

Deuses reprimidos se transformam em demônios, e geralmente são esses demônios que encontramos primeiro quando voltamos a olhar para dentro.” — Joseph Campbell

Fica a indicação da série e também do livro. Depois de falar um pouquinho sobre Campbell, quero dizer que ele simpaticamente gritou pela nossa alma e com enorme elegância e precisão falou da raiz da nossa insatisfação existencial.

Estamos preservando o nosso “Espaço Sagrado”? – Um espaço de reflexão ininterrupta e trabalho criativo sem pressa.

O fim do mundo não é um acontecimento por vir, é um acontecimento de transformação psicológica, de transformação visionária. Você não vê um mundo de coisas sólidas, mas um mundo de radiância“. (Joseph Campbell)

P.s: Deixando um convite para que também leiam “Espaço Sagrado“.

Livro: O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter), de Russell Banks

o-doce-amanha_livro-de-russell-banksPor: Gilberto Ortega Jr.
Como sempre, na hora de escolher um livro minhas manias não faltam se por um lado ‘O Doce Amanhã‘ não é um livro com titulo esdrúxulo, eu acabei o escolhendo por um outro simples motivo, o forte conteúdo psicológico que o livro poderia ter, afinal toda fatalidade gera pensamento sobre ela, e outras possíveis temáticas; como quem tem culpa, como reagir, é possível superar, dentre tantos outros.

o-doce-amanha_filmeEm uma cidade do interior do estado de Nova York, Dolores Driscoll como sempre faz apanha todas as vinte crianças no seu ônibus escolar, mas no meio do caminho acontece um acidente de ônibus e todas as crianças morrem apenas Dolores e uma única menina sobrevive, Nicole Burnell, que fica paralítica, além disso, com a tragédia surge na cidade o advogado Ilmo.sr. Mitchell Stephens (como ele mesmo gosta de ser chamado), a intenção dele é representar as famílias das crianças em um processo, mas o mais interessante é que nem ele sabe contra quem, em especifico, se dirigira este processo, em um determinado momento do seu relato na trama ele diz que faz isso não por caridade ou beneficência, mas somente porque realmente gosta deste tipo de processos.

Há dentro do livro quatro vozes narrativas envolvidas de alguma forma no acidente, Dolores Driscoll, Nicole Burnell, Billy Ansel e Mitchell Stephens.
– Dolores é a motorista do ônibus, mãe de dois filhos e casada com Abbot que após sofrer um derrame fica com um lado do corpo paralisado e passa a mostrar dificuldades na fala, ela mantém uma dependência muito grande com seu marido, parece que ele funciona como um cérebro para os dois.
– Nicole é uma garota normal, bonita e um pouco popular, trabalhava de babá, ela sofria abuso sexual do seu pai, após o acidente ela fica paraplégica, mas passa a viver em um mundo só seu, não que ela fique louca, é que aparentemente a personagem descobre sua “vida interna”, outro fator com que faça que ela saia pouco é que a irrita o fato de as pessoas terem pena dela.
– Billy Ansel é um veterano do Vietnã, tem um posto de gasolina, onde constantemente emprega outros veteranos. Ele já é um personagem bem pra baixo, pela morte da mulher, quando os filhos morrem basicamente ele fica sem motivos para viver, e acaba se tornando uma espécie de zumbi, alcoólico, ele também é visto como um cidadão modelo da cidade.
– O Sr. Stephens é aparentemente um grande advogado, que tem uma filha com constantes problemas com drogas, e gosta dos processos de fatalidade.

The Sweet Hereafter_bookO que eu mais gosto no livro do Russel Banks é o fato do que não foi feito à trama de uma história que podia ter explorado a veia sanguinária, a questão da culpa, que em minha opinião: buscar culpas em fatalidade é se comportar como cachorro que corre atrás do rabo. A grande temática do livro não é uma tragédia, mas sim a vida como fica após a tragédia, o legal é que o autor não entope o leitor desta vida pós-acidente, na verdade ele pega o acidente como gancho para fazer sondagens sobre a vida em uma cidade pequena, com pequenos comentários dos narradores sobre a vida alheia, é como se o acidente fosse um motivo qualquer para ele focar a vida naquela cidadezinha, e isso ele faz com minuciosas descrições da cidade e de quem vive lá, o estilo fluido e leve engana o leitor, que acredita que qualidade do livro se mede em dificuldade na leitura, outro detalhe que muito me impressionou foi que não há um caos ou pânico na cidade após o acidente, talvez ele esteja lá, mas como o fato é mostrado através de pensamentos lúcidos fica uma grande coerência.

Para quem tem medo de este sem um livro pesadão ele não é, pelo contrário como o título faz menção é como se todos acordassem em um doce amanhã, de certa forma melhores e mais serenos, apesar da deliciosa melancolia que envolve o livro. E assim este livro se torna um dos melhores que li em 2012.

Curiosidade: Em 1997, o Diretor Atom Egoyan fez um filme do livro de Russel Banks.

Livro: Divã, de Martha Medeiros.

diva_livro_martha-medeirosPor: Gilberto Ortega Jr.

Eu realmente gostaria de ter um motivo mais inteligente ou diferenciado para comprar, e ler, este livro: Divã. Mas a verdade é que eu não tenho uma justificativa, além da minha clássica: vi um pedaço do filme na televisão, mas como prefiro ler o livro a ver o filme foi o que fiz, o comprei e guardei durante um bom tempo, e somente agora me sobrou tempo pra que eu pudesse ler ele.

Mercedes é uma mulher, de quarenta e poucos anos, que decide fazer análise, isso a leva e pensar e repensar sua vida e condição, o que resulta sempre em mais dúvidas do que respostas. Porém é como se ela passasse a se descobrir mais, a tirar o conforto da prioridade… É com se ela decidisse pensar isso é confortável, não machuca ninguém, mas me faz feliz?

O que me ajudou muito a gostar facilmente do livro é que há uma empatia muito grande entre o texto de Martha Medeiros e o leitor, não no sentido de sei como uma mulher de 40 anos se sente, mas no de muitas vezes pensar isso é tão simples e comum que poderia ter acontecido comigo ou com qualquer um.

Nunca assisti a um atropelamento. Nunca fui cantada por um amigo de um filho meu. Nunca fui assaltada. Nunca ganhei um concurso. Não saberia dizer qual seria minha reação diante disto tudo. O que eu vivi até hoje foi o que costuma ser vivido por todos…” (Página 167)

Todos os capítulos são curtos de no máximo quatro páginas, e vão desfilando acontecimentos que vão desde lembranças do casamento dela, passando por perda de virgindade, morte de pessoas próximas, amantes, relacionamentos com parentes que ela não se dá muito bem, e tudo isso vem mesclado com reflexão e bom humor.

De uma hora pra outra, meu corpo mudou, fiquei mais matrona e menos temperada. Eu que dormia de cobertor em fevereiro, passei a sonhar com frigoríficos e excursões pela Sibéria.” (Página 140)

Ouvi muito falar que ele dava pra ser lido em uma sentada, mas eu preferi ler alguns capítulos e tomar um ar pra que tudo fosse se encaixando de forma calma e natural em mim. Como se fosse constantes mergulhos na alma de alguém, e assim como mergulhar na água exige que voltemos para respirar, tive que sair de fora do livro para ir tomando fôlego e deixando tudo se encaixar em mim.

Por: Gilberto Ortega Jr. Blog Ler Até a Exaustão.

Seus Cem Anos Fizeram Companhia a Solidão de Muitos! Valeu Gabo!

gabriel-garcia-marquez_cem-anos-de-solidaoSe o exercício da leitura é num momento de solidão, de quem escreve precisa antes estar em meio as vozes do mundo para buscar a inspiração. E então, talvez, um recolhimento para encontrar o tom certo da história. Gabriel García Márquez partiu para o mundo, mas foi numa volta às raízes que vislumbrou que tinha em sua bagagem uma grande história. Nessas tiradas em que o destino presenteia alguém, sua mãe lhe chama para vender a casa dos avós com quem passara a infância. E entre memórias da família e lendas populares do interior da Colômbia, nasce “Cem Anos de Solidão“.

Cem anos de solidão” se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha ao longo de gerações a saga da família Buendía. Obra prima literária da segunda metade do século XX é um livro que dispensa apresentação e que deveria ser lido principalmente pelos latinos americanos.

Eu li Cem anos de solidão há muito tempo atrás. Com isso traçar uma análise de toda a história ficariam muitas lacunas. O mais certo seria reler o livro e que até o faria com prazer, mas com o falecimento de Gabriel García Márquez não teria tempo hábil para então prestar um tributo a esse grande escritor. Deixando essa singela homenagem a quem não chegou aos cem anos de idade, mas que por certo suas histórias nos levaram a viver tanto quanto.

Assim, contando algo que ocorreu-me tão logo terminei de ler Cem anos de solidão”, deixando como sugestão para quem for ler ou mesmo reler o livro. Pegue uma folha em branco e um lápis. Vá montando uma árvore genealógica à medida que for avançando na leitura. Comece pelo personagem principal José Arcadio Buendía; o casamento com Úrsula Iguarán; os nascimentos de filhos e netos; marcando também as mortes… Pois a trama é muito rica em personagens e histórias até particulares. Com esse diagrama em paralelo parece que fazemos a mesma trajetória ao mesmo tempo e com isso sem perder nada. E foi assim que quando eu reli e chorei no final. Quando se sente no âmago a solidão desses cem anos.

Difícil não era inventar histórias. Difícil era fazer um norte americano, um europeu acreditar na realidade de qualquer país da América Latina.” (Gabriel García Márquez)

O Escritor se vai (1927/2014), a Obra permanece!
Aplausos a Gabriel García Márquez!
Vai em Paz!.

Livro: Um Dia (2009), de David Nicholls.

Livro_Um-Dia_de-David-NichollsAcabei de ler ‘Um Dia‘ e ainda me sinto no mundo deles. Eles: Dex e Em, Em e Dex. Dois amigos que se conheceram bem no último dia de faculdade, justo quando cada um iria seguir sua vida e provavelmente nunca mais iriam se ver, a não ser pelo fato de que eles resolveram manter contato. Eles se apaixonaram, porém nem um, nem outro teve coragem de assumir (até pra eles mesmos).

Em é a garota inteligente e que não tem nem um pouco de confiança em si; não quer mudar o mundo, mas um pouquinho ao redor; sonha em ser escritora e ter uma carreira bem sucedida. Dex é aquele que não liga pra nada e acha que a vida vai se resolver sozinha, mesmo que não faça nada pra ela se resolver; tem muita confiança em si e se acha o lindo (e ele é mesmo); vive bêbado e drogado e acha que a juventude nunca vai embora.

Você é linda, sua velha rabugenta, e se eu pudesse te dar um presente para o resto da vida seria este. Confiança. Seria o presente da Confiança. Ou isso ou uma vela perfumada.” Dex para Em.

É um livro com tantas emoções que as vezes eu precisava fechar o livro e respirar. Eu ficava muito curiosa nos finais dos capítulos, o autor, David Nicholls, fez questão de terminar todos os capítulos nas partes de maior emoção. Eu ficava curiosa até que em alguns capítulos depois algum deles acabava comentando sobre aquele dia, já que o próximo capítulo seria um ano depois. O que me irritava era como eles acabavam se afastando sempre, mesmo se gostando (ou amando); ou como Dex estava acabando com sua vida estando sempre bêbado e vivendo na farra; ou como Em acabava com sua vida, colocando o diploma na gaveta e trabalhando com coisas idiotas e falando o quanto odeia sua vida; ou como eles sempre tinham oportunidade de ficarem juntos, mas desperdiçavam.

É um romance, mas não é aquele romance que o casal se olha, se apaixona, ficam juntos, algo da errado, ficam juntos de novo e pronto: final feliz. É mais real, é mais intenso. É especial. A vida realmente da voltas. As pessoas realmente vão por caminhos errados e fazem coisas que se arrependem. A vida é feita de erros e desencontros. Acho que é por isso que o livro é tão especial e entrou pra lista de favoritos no skoob (aliás, me adiciona lá).

O autor é demais e eu pretendo ler outros títulos dele ♥ A margem, a fonte e o espaçamento são ótimos e a as páginas são amareladas (♥). A capa é linda, linda. Eu encontrei alguns erros na edição, mas nada que tenha me atrapalhado muito e que eu tenha guardado pra falar (sou muito cabeça de vento e esqueci hehe).

Super recomendo o livro, é muito lindo e intenso.

Por Isabele Martins.