O Show de Truman (1998). Viver é um risco necessário, mas…

O-Show-de-Truman_Jim-CarreyPor Mariel Fernandes.
Bom, um dia me convidaram pra ver uma comédia. A pessoa já tinha visto, fazia questão de me levar, riríamos do inicio ao fim. Ok, era uma boa proposta, gosto de rir. Pipoca ok, tiket ok, tudo ok.

escolhasComeça o filme e um spot cai, era um sinal de que a realidade seria talvez um cenário que aos poucos, dependendo do grau de opressão que causa, acaba ruindo? Ninguém conclui isso aos 10 minutos do filme. De qualquer forma, a cena nunca mais saiu da minha cabeça e serve como um tipo de guia em momentos importantes. Sou eu mesmo quem está tomando a decisão ou montei uma cena?

O último take de “O Show de Truman” é uma explosão, a descoberta que sempre há uma saída, que encontra-la não será um passeio, que viver é um risco necessário, mas que o verdadeiro perigo é alguém ligar a TV e perguntar “quem está passando agora?”. Tento viver de forma que a resposta não seja o meu nome.

O Show de Truman (The Truman Show. 1998)
Ficha Técnica: na página do IMDb.

Birdman (2014). O Canto do Cisne em Seu Apogeu!

birdman_de-wws-harrisPor: Cristian Oliveira Bruno.
Alejandro-Inarritu_Edward-Norton_Michael-KeatonAo terminar de ler o roteiro de Birdman ou (a Inesperada Virtude da Ignorância) [2014], Edward Norton (A Outra História Americana) pergunta ao diretor e roteirista Alejandro González Iñarrítu (Babel) quem havia sido escalado para o papel principal do longa. Ao ouvir o nome de Michael Keaton (Batman – O Filme) como resposta, Norton tem uma epifania: “É claro! É tão óbvio….e tão perfeito!“.

E é assim, trazendo um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema, vivendo o personagem de um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema que Birdman estabelece-se como um escarnio metalinguístico crítico e auto-crítico de primeira qualidade, brincando de fazer cinema com bom gosto e com alto grau de originalidade, fazendo de um filme simples o melhor filme de 2014.

birdman_2014_cenasO roteiro de Birdman é tão bem escrito que qualquer um de seus personagens poderia ser escolhido como protagonista – embora Riggan Thomson (Michael Keaton) realmente apresente-se como principal eixo dramático da trama. Se, por vezes, o excêntrico Mike Shiner de Edward Norton parece querer tomar todas as atenções para si – e de quando em vez até consiga – e a Sam de Emma Stone tenha lhe rendido uma justificada indicação ao Oscar, uma personagem e sua intérprete parecem ter ficado à sombra de sua real grandeza: Naommi Watts e sua Lesley, uma talentosa e sonhadora atriz que vive simultaneamente o melhor momento de sua carreira e uma das fases mais conturbadas de sua vida pessoal. Tanto a personagem, quanto a interpretação de Watts deveria ter recebido maiores holofotes, pois são marcantes e dignos de nota. Inusitadamente trazendo uma trilha composta unicamente por solos de bateria, Birdman é justamente aquilo que seu diretor pensa sobre cinema: “um conjunto de elementos distintos em constante movimento trabalhando em conjunto pelo mesmo propósito“. Assim sendo, Iñarrítu se desprende de qualquer estigma narrativo e/ou estrutural, sentindo-se mais do que à vontade para transpôr sentimentos e sensações para a tela. Portanto, não estranhe os quase intermináveis planos-sequência (que geraram preocupação por parte se toda a equipe para com a saúde dos cameramens, que sustentavam o pesado equipamento móvel por muitos minutos, transitando pelos vários cenários – um teatro real foi usado como locação) ou cenas em que Michael Keaton levita ou move coisas com a mente. Tudo isso é tão bem construído que se torna a mais pura apresentação de contexto e personagem elaborada nos últimos sei lá quantos anos.

birdman_2014_01Sem poupar ninguém nem fazer concessões, Birdman critica e desnuda tudo e todos que compõem seu universo, atacando sem piedade – porém, com muita elegância – todos aqueles que integram o mundo glamouroso da Broadway, sejam atores, diretores, platéia e críticos. E principalmente, Birdman ataca seus egos, principal fio condutor de sua trama. Pois não há nada mais instável do que o ego. Ele que nos faz acreditar sermos capazes de fazer o capazes somos – nem nunca seremos – capazes – de fazer e nos leva a cometer os mais mirabolantes atos.

Birdman é o cinema em sua mais pura forma e utilizando-se de absurdos, metalinguagem, fantasia e técnicas para fazer uma verdadeira obra-prima contemporâneo. Birdman está aí para nos mandar um recado: Hollywood ainda tem esperança, mesmo que esteja fora dali.

Nota: 9,5.

MOmmy (2014). Se ser mãe é padecer no paraíso…

mommy_2014_poster
xavier-dolan_cineastaO longa do diretor Xavier Dolan trata, neste novo argumento, também de juventude transviada, e já começa avisando: “Esta é uma obra de ficção”, e eu continuo: Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. É bem verdade, a trama é de fato uma obra de ficção e se passa no Canadá onde uma lei permite que pais, que tem algum filho com o comportamento problemático, o próprio país se encarrega de interná-lo em um hospital psiquiátrico e tratá-lo.

mommy_2014_02E logo na apresentação das personagens o diretor exibe ela, Diane ou Die, no jardim do Éden, colhendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabe-se que ela está viúva e tem um filho ‘aborrecente’ de quinze anos. O narrador foi maldosamente perspicaz ao utilizar-se de uma metáfora contundente para mostrar o caminho da interpretação que ele quer dar a esta história. E como toda historia é uma viagem, prepare a bagagem e o passaporte!

mommy_2014_01Na verdade o jovem Steve sofre de DDA, ou Distúrbio de déficit de Atenção. Quem é professor sabe bem o que é isso, pois quando se depara com determinada situação, é um deus nos acuda, ter em uma turma de 40 alunos, por exemplo, e um que sofra desse mal, dessa disfunção neurológica, dar aula torna-se impraticável, e o mestre, além de ter que se desdobrar em pelo menos uns dez, tem que ser bem criativo.

E aqui me fez lembrar o ditado: “Ser mãe é padecer no paraíso”, pois a personagem que tem um filho diagnosticado com DDA, difícil de ser tratado, terá que conviver para sempre com problemas e consequências que esse transtorno de muitos sintomas herdado geneticamente, será capaz de ser paciente, talvez abandonar o emprego, abrir mão de outros laços afetivos e também do lazer. Enfim, cada um com a sua cruz…e se alguém for capaz de dizer a essa pobre senhora: – Está com pena, talvez seja capaz de ouvir como resposta algo que não queira do tipo: “- Se está, leve para casa!”. Lamentável, porque até a mãe é meio desregrada. Ou não?

Bem o filme foi super elogiado pela crítica, levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, mas não sei, não conseguiu me seduzir, peço desculpas. E Cannes também pode se enganar, ou por isso o prêmio ficou pela metade e a outra parte foi para o “Adeus à Linguagem” de Jean-Luc Godard.

Não senti firmeza na atuação do ator, Antoine-Oliver Pilon achei meio apelativo, e ele me transmitia certa insegurança e parecia não estar tão à vontade no papel escrito para viver o adolescente problemático.

mommy_2014_03E para quem ainda não assistiu, atente à personagem de Suzanne Clément como Kyla, a vizinha, super prestativa que ajuda ambos, a mãe e o filho, e perguntas surgem sobre a sua vida e como seu destino pode estar ligado a Die e Steve. E Kyla que na história tem dificuldade com a fala, e toda a explicação básica, fatos e acontecimento em torno dessa misteriosa pessoa é revelado aos poucos no decorrer da narrativa.

Confesso que me identifiquei mais com a história dela, desta personagem, gostei! Fica como sugestão ao roteirista que crie uma história tendo ela como protagonista.

Ah! Esqueci um detalhe: o que mesmo significa PADECER?
E.B.

Caramelo (Sukkar Banat. 2007)

nadine-labakiPor Roberto Vonnegut.
Mesmo tendo visto o trailer, eu fui ver o filme libanês Caramelo (سكر بنات) crente que seria um filme sobre delícias da cozinha. Foi só com as primeiras cenas que percebi que o caramelo tinha outro contexto, talvez feminino demais para que me tivesse passado pela cabeça.

A diretora Nadine Labaki conta a estória de cinco mulheres de Beirute e alguns de seus amores. Mulheres de raças, credos e amores diferentes, em estórias que mal se entrelaçam: Nisrine, muçulmana light, tem um noivo de família ortodoxa; Jamale, recém-divorciada, tenta ser jovem e amar quem vê no espelho; Layale, cristã, tem um amor complicado; Tante Rose descobre que o amor pode ter calças curtas. Mas o ponto alto do filme é Rima, personagem que a diretora disfarça de coadjuvante para contar, de forma velada mas sem rodeios, uma linda história de amor possível.

Sem os plot turns das produções modernosas, Caramelo oscila entre as cinco estórias num ritmo desigual, mas que é amplamente compensado pela sensibilidade da diretora.

O filme tem ainda um detalhe sedutor. O Líbano, sabemos todos, era a pérola francesa do Oriente Médio. Há muitos anos. O filme mostra uma Beirute sem o menor caráter bleublancrouge, mas a herança francesa fica clara no falar das pessoas: expressões francesas fazem parte da comunicação e se misturam à língua local, dando um colorido interessante ao filme.

De resto, impressiona a capacidade de Nadine de captar a beleza de forma sutil em um ambiente bruto. Desde sua própria beleza (ela é a Layale que domina algumas cenas com seus olhares e decotes) e a das companheiras, até a irresistível e quase irreal beleza de Fatmeh Safa, que faz o papel de uma das clientes do salão de beleza de Layale.

Vá ver. É daqueles filmes que te deixam bem no final.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012).

as-vantagens-de-ser-invisivel_2012_personagensPor Francisco Bandeira.
Em um mundo cheio de pessoas chatas e enfadonhas, ou simplesmente “normais” como manda a sociedade, as pessoas diferentes, malucas ou revolucionárias sempre se destacam, sejam de forma boa ou ruim. Mas há também aquelas pessoas que acham uma vantagem serem invisíveis.

O filme mostra as afetações que um jovem pode ter se não possuir uma boa base familiar. Charlie (Logan Lerman) parece pertencer a outro mundo, até conhecer Sam (Emma Watson) e Patrick (Ezra Miller), dois jovens que parecem livres, que não ligam para a opinião dos outros e vivem a vida da forma que acham melhor para eles. Logo eles adotam o protagonista, mostrando pra ele a vida que o mesmo está desperdiçando se fechando em seu mundo.

A obra realmente é repleta de ternura e melancolia, tendo um final sem muito impacto (sim, não achei foda), porém profundo e tocante. A mistura entre melancolia e inocência casa perfeitamente com a proposta do livro, além de ter uma visão bem interessante sobre essa geração.

Ainda que você não goste da fita, vale pelo questionamento sobre relacionamentos x amor verdadeiro e a cena que Charlie se sente infinito. Todos nós devíamos sentir essa sensação, talvez seja essa a real vantagem de ser invisível.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012). Ficha Técnica: página no IMDb.

Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off. 1986)

ferris-buellers-day-off_1986Por Francisco Bandeira.
Ferris Bueler (Matthew Broderick) virou um ícone dos filmes adolescentes por inúmeros motivos: carisma, estilo, por nos tornar seus confidentes, por ser descolado, por namorar uma garota linda, por passar por cima das regras da escola, dos diretores malvados, por irritar sua irmã chata (Jennifer Grey), por conseguir curtir a vida ao lado das pessoas nas quais ele considera especiais, por fazer tudo isso e ainda conseguir despertar o lado mais doce dos seus pais e, não menos importante, por mostrar o verdadeiro significado de LIBERDADE.

Esse sentimento fica estampado a cada singela cena do filme ‘Curtindo a Vida Adoidado‘. Na cantoria do banho, em fingir uma gripe para receber o carinho dos pais, em suas armações para cima do Sr. Rooney (Jeffrey Jones, impagável), seja por querer que seu amigo (Alan Ruck) deixe aquela zona de medo dos seus pais, seja por querer tornar seu dia ao lado da namorada especial, por contagiar a todos com sua vibração e aproveitar tudo ao máximo enquanto há tempo. E a cena do desfile, ao som de Beatles, só reitera esse sentimento.

Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off. 1986). Detalhes Técnicos: na página do IMDb.