Sagração à Primavera: Stravinsky e Béjart.

sagracao-da-primavera_stravinsky_bejartPor José Bautzer Fusca.

O lugar comum vê a primavera – a primeira verdade, o primeiro ver – como o momento da natureza idílica, florida e perfumada, quando o amor ronda o ar e os corações pulsam poéticos. Mas a coreografia de Maurice Béjart para a Sagração à Primavera de Igor Stravinsky nos devolve para a realidade áspera da música e olhar criterioso de um músico e de um coreógrafo geniais.

A primavera é rude, impiedosa e amoral, a ela basta exaltar os hormônios das marionetes vivas em disputa febril e não raro mortal pela reprodução. Não há ingenuidade nem visão idílica de pastos floridos e alegres. A vida, na música eloquente de Stravinsky pulsa o ardor da luta dos machos na disputa das fêmeas, e bandos de animais cavalgam, revoam e nadam em frenesi pela reprodução do melhor da espécie. É uma visão cruel. Bela, mas cruel, de uma natureza aparte de qualquer moral humana e apolínea. A ode é por um Dionísio febril.

Em comovente bailado o fraco se esvai, rasteja e morre atrás do bando em célere disparada. A fálica masculinidade, em eloquente representação plástica, corteja o útero receptivo das dançantes em coreografia circular, compondo uma flor ou um útero. A coreografia e a música são fortes e rudes, como a primavera em pulsante desejo selvagem pela vida e a amoral seleção dos mais aptos. Este balé, esta música são fortes e, repito, rudes. Não permitem a visão idealizada e romântica do lugar comum. É possível identificar com clareza a vida animal e seu drama primaveril de migração, vida e morte, na busca da reprodução.

Tive o imenso prazer de assistir este mesmo balé postado em vídeo, não apenas em sua apresentação no Teatro Municipal De São Paulo, décadas atrás, como também nos bastidores do ensaio, em um momento mágico e inesquecível, por um gesto de extrema simpatia para com este ardoroso fã que sou. Foi com emoção forte que encontrei o registro em filme dessa vigorosa coreografia que tenho o prazer de dividir com vocês, meus amigos.

Curiosidade: Poderão conhecer um pouco de Igor Stravinsky no filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky“.

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DIANA ROSS – Arena HSBC Rio de Janeiro (2013)

show_diana-ross_rj-2013_by-carlos-henryO lugar fica nos confins da Barra no Rio. É enorme e logo na chegada dava para perceber que não estaria lotado, pois as pessoas das arquibancadas estavam sendo remanejadas para a plateia. Logo, com algum atraso, como de costume em shows de grande porte, a diva Diana Ross de quase setenta anos surgiu brilhando no palco com a animada “I’m Coming Out” esbanjando vitalidade, simpatia e bom humor. Evitou o inglês e preferiu estabelecer a empatia com o público através de muitos gestos e sorrisos. Uma posição elegante, tendo como base que o português é a língua falada neste local de apresentação.

Muitos pontos para a respeitada cantora e atriz de cinema (The Wiz, Lady Sing the Blues- O Ocaso de uma estrela) com longa carreira de sucesso iniciado nos tempos da Motown – The Supremes de onde ela recordou sucessos como “Baby Love” e “Stop! In the Name of Love” numa sequência que encantou a plateia. Logo vieram os esperados super hits: “The Boss” e Upside Down”.

diana-rossDiana trocou várias vezes de roupa vestindo cores alegres e vivas como ela própria. O palco era simples, bem iluminado, desprovido de leds, lasers ou qualquer tecnologia. Afinal, estava ali uma artista importante que ainda dava o seu recado, acompanhada de uma banda eficiente e backing vocals afinados. Então para que mais? Cantou “Don’t Explain” do filme em que ganhou um Oscar interpretando Billie Holiday, “Why do fools fall in love?” e a belíssima “Do you know where you’re going to?”, tema de um outro filme. Fechou com a dançante: I Will survive” quando todo mundo se aproximou do palco para ver de perto a grande estrela.

Nota dez para Diana e zero para parte do público extremamente mal-educado, teimando em fotografar, filmar, falar, cantar alto e circular no meio dos números musicais, dando trabalho extra para os seguranças e desrespeitando quem queria apreciar o espetáculo com calma.

Carlos Henry

01. I’m Coming Out
02. More Today Than Yesterday (Spiral Starecase )
03. My World Is Empty Without You (TheSupremes )
04. Where Did Our Love Go (The Supremes song)
05. Baby Love (The Supremes song)
06. Stop! In the Name of Love (The Supremes)
07. You Can’t Hurry Love (The Supremes )
08. Touch Me in the Morning
09. Love Child (Diana Ross & The Supremes )
10. The Boss
11. Upside Down
12. It’s My House
13. Love Hangover
14. Take Me Higher
15. Ease On Down The Road (The Wiz)
16. The Look of Love (Dusty Springfield )
17. Don’t Explain (Billie Holiday )
18. Why Do Fools Fall in Love (Frankie Lymon & The Teenagers )
19. Theme from Mahogany (Do You Know Where You’re Going To)
20. Ain’t No Mountain High Enough (Marvin Gaye & Tammi Terrell )
21. I Will Survive (Gloria Gaynor )
22. Encore:I Will Survive Revisited

Madonna – MDNA TOUR in Rio (2012)

madonna-mdna-2012MDNA é o nome do último álbum de Madonna e também intitula a nona turnê mundial que ela traz ao Brasil. A referência às letras do pseudônimo de Marie Louise Ciccone pode ser facilmente confundida com o componente ativo da droga “ecstasy” que é o MDMA. Madonna nunca para de gerar polêmica. É disso que ela sobrevive. E também de muita competência e disciplina.

Ameaça de chuva, uma apresentação morna de DJs brasileiros e um longo atraso deixaram a multidão de quase 70 mil pessoas bastante impaciente. Pouco depois das 23h, a irritação no Parque dos Atletas (RJ) é magicamente dissipada com os primeiros acordes do canto gregoriano do grupo Kalakan que abre o maior espetáculo já produzido para um artista solo. Dava para sentir uma impressionante e rara qualidade de som ecoando no espaço aberto. O clima agora era de expectativa e festa.

MDNA TOUR 02dez12 the crossA ópera pop (formato de encenação com músicas e roteiro criado por Madonna nos anos 90 e vastamente copiado) começa com uma belíssima catedral esfumaçada projetada em altíssima definição e com a perspectiva cuidadosamente planejada dando uma ilusão estonteante da coisa real. O soar do sino e o balanço do imenso incensório espalhando a fumaça anuncia a jornada da escuridão para a luz. Uma verdadeira descida aos infernos de uma pecadora até alcançar a redenção. O canto religioso continua até Madonna partir o confessionário de vidro com um rifle e sair cantando “Girl Gone Wild” numa apresentação à altura da abertura grandiloquente com sua trupe de bailarinos exímios.

O show continua com “Revolver” e “Gang Bang” numa atuação violenta em cenário de hotel quando Madonna se “defende” de um dos dançarinos que invade o quarto numa briga violenta magnificamente coreografada que acaba em morte. Tarantino puro. Seguem a animadas “Papa Don’t Preach” e “Hung Up”. Entre interlúdios magníficos são exibidos trechos de sucessos antigos e imagens de outras épocas da cantora. Madonna aparece vestida como chefe de torcida (majorette), com bastão, pompoms, um grupo de “cheerleaders” e tudo para dar um recadinho debochado à suposta rival Lady Gaga quando canta “Express Yourself” mixada com “Born This Way” (acusada de plágio por ser muito parecida com a primeira) e seguida de “She’s not me”.

MDNA TOUR 02dez12 the son Rocco RitchieSem deixar a plateia esfriar em nenhum momento continua com a apresentação arrebatadora de “Give Me All Your Luvin”. Neste momento, uma banda flutuante vestida no mesmo estilo surge entre o cenário, marchando suspensa no ar tocando instrumentos de percussão enquanto a dança continua no palco numa composição inacreditável. A ótima “Turn up the Radio” é cantada com Madonna na guitarra e “Open your heart” conta com a participação tribal do trio Kalakan. Neste instante, o filho adolescente da estrela, Rocco Ritchie dança vigorosamente com ela remetendo a um dos clips mais bonitos já feitos.

A delicada balada “Masterpiece” é cantada com trechos no telão do filme “W.E.” que ela dirigiu e foi injustamente mal recebido pela crítica e público. Uma discreta seção erótica é iniciada com “Justify My Love” e “Vogue” com os seios da diva adornados com o famoso sutiã de cone da turnê de “Blond Ambition”, mas com cenas bem mais suaves do que outrora, condizentes com seus 54 anos (16//AGO/1958). Ela já é uma senhora, mas está em plena forma, bela como sempre e arrisca um discreto strip-tease após versões muito boas e sensuais de “Candy shop”, “Erótica” e “Human Nature”. Diria até que ela está cantando melhor que quando da última vez no Brasil em 2008. Sim, ela canta de verdade, entre espelhos que se movimentam no palco, removendo peças de roupa pela passarela em forma de “V” até dedicar a próxima canção a todas as “periguetes” do mundo. Trata-se de “Like a Virgin” cantada numa variação intimista ao piano enquanto ela revela a tatuagem de mentira nas costas: “PIRIGUETE” numa homenagem carinhosíssima à conhecida gíria brasileira. Descabelada e decomposta como uma dançarina de cabaré, Madonna termina o número pedindo dinheiro. Os súditos obedecem e ela recolhe, submissa, os dólares e reais jogados no chão após ter a cinturinha apertada com um colete por um bailarino sem camisa até ficar sem ar. A plateia também está sem fôlego quando o número termina com ela e o pianista sumindo no palco mágico.

MDNA TOUR 02dez12 the looksNo último bloco há uma assombrosa colagem de imagens fortes políticas do panorama atual ilustrando “Nobody Knows Me”. Destaque para os jovens mortos vítimas de “bullying” no telão com exibição de um esporte novo da moda, o “slackline” feito com malabarismos em cordas esticadas. Ela já havia lembrado ao público sobre a necessidade de mudança individual para a promoção da paz no mundo num belo discurso. Já vestida num deslumbrante modelo incrustado de cristais Swarovski, o espetáculo continua com as dançantes “I’m addicted” e “I’m Sinner” do último álbum enquanto surfistas de trem se equilibram em vagões que percorrem trilhos na Índia numa ilusão de movimento estonteante. O palco modifica-se com cubos coloridos em movimento e muitas luzes numa atmosfera feérica preparando-se para o grande final. O perdão da pecadora chega afinal através do emocionante coral de igreja entoando o sucesso “Like a Prayer” com a plateia inteira em uníssono. No ecoar dos sinos, Madonna retorna para fechar a megaprodução com “Celebration” mixada com trechos de outros hits numa grande festa com a trupe inteira.

E acabou! Nem adianta espernear! Como todos sabem, os shows da rainha são meticulosamente projetados sem espaço para o BIS. E precisa?

Carlos Henry.

Lady Gaga Born This Way Ball Tour in Rio (2012)

Stefanie Germanotta, mais conhecida como Lady Gaga é jovem, nasceu em 1986 em contraponto com os cinquenta e poucos anos que sua inspiradora (embora não admita) Madonna carrega.

Born This Way Ball Tour” iniciou os primeiros acordes da ópera pop por volta das 22:30h. Finalmente é desvendado o imenso cenário medieval que não é nada deslumbrante, mas que bem iluminado transforma-se num belo castelo. Uma historinha começa a ser contada sobre um ser alienígena que nasce da cópula (simulada no palco) da líder do planeta GOAT (Goverment Owned Alien Territory) e um dos seus servos. Em off, uma mensagem é ouvida do tal território avisando que Lady Gaga escapou com uma ordem – Matem a puta!

De uma vagina gigante e tosca, nasce a criatura que ela mesma não sabe definir.

-Não sou um homem, nem mulher, nem alienígena, eu sou vocês!” Tenta explicar. E em vários momentos, instiga o povo a imitarem seus dedos tortos em garra como se tivessem artrite severa. A música “Born this Way”, criada para virar um hino gay visto que exalta quem é diferente, é executada com vigor e leva a plateia molhada de chuva ao delírio. No primeiro ato ainda canta o super-hit “Bad Romance” no meio de outras músicas de seu último (e mais fraco) disco. Seguem destacados “Just Dance” e “Telephone” que continuam empolgando.

Muito simpática e irreverente, Lady Gaga, metida em roupas inacreditavelmente feias e exuberantes (embora com as assinaturas da marca Versace e Armani), agradece ao público por ter pago caro pelo show. Logo pergunta quem vai trabalhar no dia seguinte, um sábado. Uma multidão empolgada levanta a mão. Ela não titubeia e ao invés de um acalanto, dispara um sonoro “I don’t give a fuck”. E continua argumentando que ela própria também vai trabalhar cantando e dançando, por isso ela não se importa. Também contou que viu Deus na favela que visitou e que o Rio é uma cidade cheia de paz. Será que ela tem ideia do que é morar ali no Cantagalo?

Mais música para divulgar o CD que dá nome à turnê e entre elas, Lady Gaga escolhe no meio do público três felizardos aparentemente bem pobres para cantar com a diva “Hair” ao piano. Neste momento, ela borra toda a maquiagem aos prantos junto com seus convidados emocionados que não param de chorar um só instante. “Eu nunca estive tão feliz como neste exato momento.” Exagera a cantora. Se ela não for uma exímia atriz, foi um pico de emoção genuína.

No quarto ato, todo mundo pulando e dançando com os sucessos “Americano” (vestindo a famosa roupa de carne), “Poker Face” e “Alejandro”. Nesta última canção, Gaga arrisca pronunciar nomes brasileiros no meio da letra. Coisas são atiradas no palco o tempo todo, mas ela mantém o humor e mostra um celular perdido ao público perguntando displicente: “De quem é esse telefone?”

No quinto e último ato, acontece um dos momentos mais bonitos e emocionantes do show quando é cantada a belíssima “Paparazzi” pela cantora e pela monstruosa Mother G.O.A.T. que surge flutuando numa réplica animatrônica distorcida do rosto da própria artista, presa numa espécie de diamante em néon num curioso efeito tridimensional assombroso e bizarro. No final, a criatura é morta pela própria Lady Gaga e se esvai em sangue numa imagem medonha. Seria mais uma metáfora? O ser concebido eliminando quem a criou e inspira? Vai saber.

A animação continua com a dançante “Sheibe” e deveria terminar com o bis da não menos vibrante “Marry the Night” que fecharia bem o espetáculo. Mais uma vez ela seleciona um grupo de pessoas bem humildes para subir ao palco e participar da intrincada coreografia atrapalhada pela preocupação dos eleitos em tirar fotos no meio da confusão. Mesmo assim, seria um grande final! No entanto, por uma decisão infeliz, tudo termina com a pálida e desconhecida “Cake like Lady Gaga” num triste anticlímax. Nada que frustre seriamente os monstrinhos de Gaga, que deixam o lugar com pouco ou nada para reclamar. Foi mesmo uma grande noite.

Por Carlos Henry.