Relatos Selvagens (Relatos Salvajes. 2014)

relatos-selvagens_cartazUm momento de fúria pode poupar décadas no divã do analista. Mas extravasar sem pensar aquela raiva contida pelas regras da civilidade pode causar sérias conseqüências.

relatos-selvagens-2014Neste caso, na hora de botar para quebrar, melhor assistir antes o excelente e divertido filme argentino de Damián Szifron: Relatos Salvages que reúne seis historinhas sobre as reações humanas em situações limite. O prólogo, um dos melhores dos últimos tempos já anuncia um filme extraordinário, quando um grupo de pessoas percebe que estão no mesmo voo com algo em comum: Todos conhecem um tal Pasternak em situações tão diversas quanto desagradáveis. Outro curta hilário versa sobre os efeitos de um veneno de rato já vencido no organismo de uma criatura não grata. Não falta um Road movie quando dois sujeitos de pavio curto se digladiam com seus carros no meio do nada. Ricardo Darin surge no episódio cujo entrave é a burocracia exagerada tão conhecida também no nosso país repleto de filas, guichês e funcionários mal treinados e arrogantes. Há uma sequência inteligente, mas que destoa das demais por ser um tantinho arrastada, sobre um pai rico que quer livrar o filho da cadeia a qualquer custo. Nada que comprometa o filme que fecha brilhantemente com uma festa de casamento que tinha tudo para ser perfeita, não fosse a infeliz decisão do noivo de convidar uma de suas amantes parra o evento.

Curiosamente, o filme preenche (sem nenhum dano) em parte essa lacuna animalesca e instintiva que a maioria dos seres vivos têm quando pressionados ou feridos.

Carlos Henry

RELATOS SELVAGENS (2014). Rindo da Própria Desgraça!

relatos-selvagens-2014_cartazPor Eduardo Carvalho.
A vida contemporânea pode deixar a todos com os nervos à flor da pele. Problemas financeiros, emocionais, uma crise no casamento. O descaso do serviço público com o cidadão. Um xingamento aqui e ali, no meio do trânsito das grandes cidades.

Em cima de situações cotidianas, que a princípio poderiam ocorrer com qualquer um, Damián Szifron escreveu e dirigiu as seis estórias que compõem “Relatos Selvagens”. Estrondoso sucesso na Argentina, exagerando cada situação a ponto de deixá-la à beira do inverossímil, o filme faz rir de pequenas tragédias do dia-a-dia que tomam proporções absurdas, por conta da reação explosiva de cada protagonista. E o faz de forma engraçadíssima.

relatos-selvagens-2014_01O prólogo, que se apresenta como um encontro casual num avião, revela-se um maquiavélico plano de vingança do verdadeiro protagonista – que não aparece, mas apenas citado –, um músico erudito fracassado. Em seguida, uma garçonete hesita em executar sua vingança contra o responsável pela morte de seu pai, numa lanchonete largada à beira de uma estrada. O terceiro episódio é um bizarro embate digno de “Encurralado”, de Steven Spielberg, onde um simples xingamento na estrada leva a um duelo entre os motoristas de um Audi último tipo e de um sedã caindo aos pedaços, ao som de um hit romântico dos anos 80. O episódio com Ricardo Darin mostra mais um homem comum, de temperamento explosivo, que se vê às voltas com a burocracia do trânsito, perdendo a paciência e a razão, ao utilizar suas habilidades para se vingar do sistema – o personagem é perito em implosões. O penúltimo episódio, o único com final verdadeiramente trágico e não menos irônico, mostra uma família abastada tentando livrar o filho, que atropelou uma grávida, das garras da justiça, com um jogo de corrupção. Por fim, a última estória mostra uma festa de casamento explodindo de ressentimentos, violência, sexo e sangue, todos misturados no bolo dos noivos.

A simples sinopse de cada estória não é o bastante para revelar o tom mordaz e hilariante que Szifron imprimiu à obra como um todo. O único elemento que liga as estórias é a barbárie, e é o elo que basta. Cada protagonista teve seu ataque de nervos almodovariano – não por acaso, o diretor espanhol e seu irmão produzem o filme –, perdendo absolutamente o controle de suas ações, pois sente que perdeu o controle de sua vida. De modo planejado ou passional, cada um deles expressa o rancor de vítima que é de uma sociedade em crise, econômica e de valores, onde o menor fator pode transformar-se na gota d’água que irá gerar uma discussão, uma briga, um homicídio.

A montanha russa de emoções com que Damián Szifron lança os espectadores de “Relatos Selvagens” une o nonsense do Monty Python à brutalidade de Quentin Tarantino para retratar, de forma terrivelmente engraçada, os absurdos de que o homem do século XXI é capaz em um dia absolutamente normal.

Curta: LILA (2014). Reencontrando o Colorido da Vida…

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Por Luz de Luma.

A vida está borocoxó?
Podia ser melhor!

Lila é um personagem de um curta-metragem lírico e poético que completa uma espécie de trilogia que começou em 2008 com “Um conto de amor em Stop Motion” (uma jovem sonha com o que ela acabou desenhado no papel) e, em 2011 com “A sombra de azul” (um jovem descobre sua inspiração no voo das borboletas). Todos os três filmes estão cheios de sentimentos de esperança e otimismo, e retratam um mundo no qual a vida e a fantasia se tornam apenas um. Lila é uma conclusão fascinante para uma trilogia temática, mesmo involuntária, que sugere que pode haver um pouco de Lila em todos nós.

Lila Visualizando laços sutis de amor...

Lila Visualizando laços sutis de amor…

A música é uma composição exclusiva do talentoso Sandy Lavallart e o filme é do inquieto escritor, diretor, ilustrador e animador Carlos Lascano. No papel de Lila, está a atriz Alma Garcia que se presta muito bem ao personagem que sonha, imagina e com a sua delicada arte de desenhar, tenta mudar o que vê e deixa tudo mais colorido e amoroso.

Uma história bonita, com ar naif em que a menina lembra Amélie: “não pode resignar-se a aceitar a realidade tão plana como ela percebe” (Carlos Lascano). Metáfora visual estendida sobre como as pessoas podem ajudar os outros através de pequenos atos de bondade. Existem apenas dois olhares sobre a vida e fazemos a escolha, a cada dia, sobre como respondemos aos desafios, vitórias e tudo mais. Podemos optar por permitir decepções para que apodreçam e sejam classificadas como injustas, portanto, abrimos mão do controle, ou então, encontramos aceitação e inspiração através desses desafios.

Lila-2014_Curta_02Pense em quando rotulamos algo na nossa vida como “injusto”. Isso é uma ladeira escorregadia e leva a desculpas e contorna o poder que todos nós temos sobre as nossas próprias vidas. Resiliência e audácia – é o que o desafio deve nos dar.

Mas o que um vídeo docinho tem a ver com desafio? Oras, pense em um comportamento contrário ao de Lila e que muitos possuem. Pense em um simples olhar que procura por defeitos… A vida pode lhe dar socos e você pretende dar socos de volta? É gastar energia com nada. Te convido a embarcar numa viagem mais feliz!

Dormi e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Eu agi e eis que o serviço era alegria.” (Rabindranath Tagore)

Curta: O Emprego (El Empleo. 2008)

el-empleo_curta_2008Por Mariana Rosell.

Como eu nunca tinha visto esse curta antes?! É incrível! Em sua simplicidade, em seu didatismo e em sua capacidade de comunicação.

O curta, El Emprego, retrata um dia de trabalho de um homem elucidando a coisificação e mostrando como no sistema capitalista, entre pessoas e objetos, nada há de diferente; tudo vai bem desde que todos cumpram com suas funções calados e passivos.

Nem tem muito o que dizer sobre ele, mas recomendo a assistência, sobretudo nesse primeiro de maio, dia DO TRABALHADOR E DA TRABALHADORA, e não do trabalho, como já discuti nesse texto do ano passado. É a reificação desenhada… Será que agora a galera entende?

El Empleo.2008.
Diretor: Santiago “Bou” Grasso
País: Argentina

Para assistir ao premiado curta:

Tese Sobre um Homicídio (Tesis Sobre un Homicidio, 2013)

tese-sobre-um-homicidio_2013tese-sobre-um-homicidio_01Por: Eduardo Carvalho.

Roberto Bermudez (Ricardo Darín), ex-advogado, agora professor de direito penal, leva uma bem sucedida carreira como autor de livros de Direito e seus cursos de pós-graduação. Gonzalo (Alberto Ammann), um de seus novos alunos, é filho de um antigo amigo e trata-o como verdadeiro ídolo, e surge com uma inusitada tese sobre criminalidade: a Justiça preocupasse apenas em investigar casos que ameacem os detentores do poder. A insistência do rapaz em tal ideia passaria desapercebida, até que uma mulher aparece morta no estacionamento da faculdade de direito. Um detalhe faz com que Bermudez ligue Gonzalo ao assassinato, e ele se vê desafiado a solucionar o crime, provando a culpa de seu aluno.

Com a razão comprometida pela obsessão – no passado, Bermúdez havia acusado outra pessoa injustamente em um crime –, o professor vai se aprofundando na investigação, a ponto de envolver Laura (Calu Rivero), irmã da vítima, no caso, e colocá-la em provável perigo junto a Gonzalo. O diretor Hernán Goldfried vai habilmente conduzindo o espectador pela trama de “Tese sobre um Homicídio”, enquanto questiona a própria convicção de Bermúdez quanto ao suposto autor do crime, cada vez mais imerso em suas (in) certezas. Pois mesmo o provável assassino envereda por um caminho ambíguo, revelando pequenos elementos de suas ideias ao seu mestre, e que poderiam apontar ao crime cometido por Gonzalo. Mas tudo parece ocorrer na visão incerta do protagonista.

tese-sobre-um-homicidio_02O carisma de Ricardo Darín é certo. O ritmo do filme se mantém ao longo da projeção. A tensão intelectual entre professor e discípulo é complementada pelo elemento sexual, tendo uma frágil e sensual Laura como terceiro vértice do triângulo. A câmera é responsável por ótimas cenas – a sequência no museu por entre a instalação de vidros coloridos é uma delas –, e ótimos diálogos surgem aqui e ali, como o primeiro encontro entre Roberto e Laura na delegacia: ao dizer que fora advogado, logo emenda, com o devido cinismo, um “Mas não se preocupe, não exerço mais”. Apesar de tantos elementos favoráveis à película, estamos diante de uma estória com um ponto de partida, no mínimo, questionável. O que leva um professor, ainda que ex-causídico, a empreender um trabalho de detetive? Uma vez que a atuação do advogado normalmente se dá dentro de um escritório, na maior parte por meio do trabalho escrito – petições, teses de defesa, habeas corpus -, é por seus motivos pessoais que Roberto age, e são estes que estão no centro da discussão. Tais motivos lançam Bermúdez neste desafio – nunca proposto claramente por Gonzalo, diga-se de passagem –, e, em última instância, são eles que tornam o filme possível de ser levado adiante.

tese-sobre-um-homicidio_03Ao adaptar o livro homônimo de Diego Paszkowski, o diretor poderia ter optado por atualizar o embate intelectual de “Festim Diabólico” (1948), clássico de Hitchcock, onde o jogo de gato e rato ocorre num único ambiente. Ou, ainda, ter levado adiante a tese central de Gonzalo acerca da relação entre crime e poder, tema explorado com maestria por Elio Petri em “Investigação sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (1970).  Ao invés disso, Goldfried escolhe um caminho mais palatável, misturando um certo tempero noir a um modelo retirado dos seriados americanos de investigação criminal. Embora possa não ser claramente notado durante a exibição do filme – e que, ainda assim, não compromete as qualidades da obra –, seu tom quase didático mostra que “Tese Sobre um Homicídio” tem um inequívoco apelo comercial, feito para entreter, bem próximo dos moldes do cinema de massa. Apenas assim pode-se crer em um professor que sai da sala de aula – tal qual um certo professor de arqueologia, munido de chapéu e chicote – para realizar, em campo, um trabalho que ensina na teoria.

Tese sobre um Homicídio (Tesis Sobre Un Homicidio. 2013). Argentina. Direção: Hernán Goldfrid. Roteiro: Patricio Vega. Elenco: Ricardo Darín, Alberto Ammann, Antonio Ugo, Arturo Puig, Calu Rivero. Gênero: Suspense, Thriller. Duração: 106 minutos.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012)

o-ultimo-elvis_2012_posterArmando Bo estreia na direção num filme de qualidade veterana. Trafega num clima de melancolia e reflexão através do personagem Carlos Gutiérrez (John McInerny) que passa sua vida a limpo após um acidente com a mulher e filha Lisa Marie (Margarita Lopez). Sua obsessão extrema é o mito Elvis Presley, de onde extrai sua razão de existência e sustento, pois trabalha como cover do cantor em clubes e bares de pouca categoria.

o-ultimo-elvis_2012_01Curiosíssimo, o paralelo político que o filme sugere com o desencanto, a desesperança e a confusão social e individual provocados pelo panorama atual da Argentina devastada pelo governo de Cristina Kirchner. O resultado da crise aparece nos clones decadentes de Barbra Streisand, John Lennon, Kiss, Madonna e claro, o próprio Elvis representado pelo excelente ator John Mclnerny, numa composição acertada e emocionante, sobretudo quando interpreta com paixão, vários dos sucessos do lendário cantor como “Suspicious Mind” e “You’re Always on my Mind”.

A obra alcança o grau de genialidade em seu epílogo na mansão onde viveu o verdadeiro Elvis em Graceland – Memphis, Tenessee. É lá que Carlos procura um sentido derradeiro para sua triste trajetória baseada num ícone.

Por Carlos Henry.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012). Argentina. Diretor: Armando Bo. Elenco: John McInerny, Griselda Siciliani, Margarita Lopez, Rocío Rodríguez Presedo, Corina Romero. Gênero: Drama. Duração: 91 minutos. Classificação: 10 anos.