Boa Noite, Mamãe (2014). Um único defeito… nesse primor do Terror!

Boa-Noite-Mamae_2014_posterPor: Carlos Henry.
Logo que começa esta pérola austríaca, é inevitável não lembrar de outra joia do terror psicológico dos anos 70: “A Inocente Face do Terror” (The Other), de Robert Mulligan. Até no curioso fato de os atores principais, também terem emprestado seus nomes verdadeiros aos personagens principais: Um misterioso par de meninos Gêmeos. Embora a trama seja diferente, os diretores de “Boa Noite, MamãeVeronika Franz e Severin Fiala certamente se inspiraram naquele trabalho notável de 1972 para criarem este suspense de 2015, onde os irmãos Lukas e Elias Schwarz vivem uma difícil relação de desconfiança e agressividade com a mãe numa mansão isolada.

Boa-Noite-Mamae_2014Se em “The Other”, os meninos Chris e Martin Udvarnoky mantinham uma discreta bizarrice em sua dual relação com a família, no filme deste século os garotos descambam em dado momento para o mais explícito gore sangrento, o que quebra o clima tenso e enigmático do delicado conjunto artístico, sendo talvez o único defeito grave da obra. Apesar de arranhada pela relativa gratuidade da violência exagerada e desagradável que rompe abruptamente o ritmo lento e preciso da história, o filme é primoroso no que tange a seu invólucro, executado em gloriosos 35mm como é alardeado nos créditos finais. Ainda assim, um filme muito bom de assistir para os apreciadores deste gênero raro.

Boa Noite, Mamãe (Ich Seh, Ich See – Eu Entendo, Eu Entendo. 2014)
Ficha Técnica: na página do IMDb.

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Amor (Amour. 2012)

Amor_2012Na cerimônia religiosa há o: “E até que a morte os separe!“. Para quem assistir o filme “Amor“, e estando dentro de uma união sólida, por certo irá se fazer algumas reflexões ao longo dessa história. Uma delas seria, ou melhor, no íntimo desejaria que sua união durasse tanto assim. E também plena de amor. É algo de se admirar um casal de idosos ainda enamorados!

Mas o Diretor Michael Haneke em “Amor” não traz apenas uma radiografia da velhice batendo na porta do casal Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva). Pois aqui já adentra uma longevidade não apenas com as limitações impostas pela idade, mas também as complicações geradas por alguma doença. Levando a história a abordar temas ligados a isso. É a Medicina também sendo questionada por avaliações, ou mesmo erros médicos agravando as lesões em vez de melhorar. Ou mesmo esperando dela a cura de todos os males. Mais do que “Agora Inêz é morta!“, é o que fazer com isso?

Amor-2012_Isabelle-HuppertHaneke também põe o dedo na ferida no que concerne aos membros mais íntimos da família: os filhos. Em “Amor” teríamos o peso caindo numa filha única, caso ela mesmo se importasse em ajudar o pai em cuidar da própria mãe. Quem faz a filha, a Eva, é a sempre ótima Isabelle Huppert. Quando o marido de Eva lança um olhar para ela após Georges contar o que fará dali em diante, ela mostra que filha ela é. Mais! Na cena final também onde mostrou que foi bom deixado o pai sozinho.

Não há pressa em contar essa história. Até por mostrar toda a dificuldade diante as limitações impostas pela doença de um, e a velhice do outro. Onde um parece ainda entender o quanto está sendo pesado ao outro. E se parece querer espantar os próprios pensamentos pois nele estaria um “Até quando?”. Nessas horas, é música clássica– paixão antiga de ambos -, que o embala.

Agora, há também um outro tema que Haneke traz à mesa de discussão. Só que ao contrar será um grande spoiler. Confesso que fiquei na dúvida se seguiria ou não, mas por ser um assunto que volta e meia aparece nas manchetes jornalísticas, eu resolvi trazê-lo também. Sendo assim, se ainda não viu o filme pare a leitura, pois daqui para frente haverá spoiler.

Então, em “Amor” nos leva também a pelo menos refletir sobre a eutanásia. Não como a julgar o personagem que meio que clamou por ela, mas mais se também pediria, numa igual situação. E talvez se faria o que o outro fez. São os fins justificando os meios? Há realmente a hora que todos os obstáculos tornam-se o gatilho do tiro de misericórdia? O cansaço foi vencido? E outras reflexões mais. Mas uma certeza nos fica, a de que apesar de todos os pesares, o amor entre Georges e Anne não morreu.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
(Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes)

Amor” é um filme belíssimo! Embora longo, nos mantém atentos a todo o drama do casal. É triste! Até pelo nó na garganta que fica após o fime por entender e aceitar o que foi feito. Talvez seja o nosso lado racional em respeito ao desse casal. Rever? Não sei. Mas com toda a certeza vale muito a pena ver! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor (Amour. 2012). Áustria. Direção e Roteiro: Michael Haneke. Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Gênero: Drama, Romance. Duração: 127 minutos.

Amor (Amour. 2012)

96128_galO filme “Amor” de Michael Haneke é escrupuloso, e exigente- uma visualização de mais de duas horas de um romance bem além das fronteiras, que atravessa noções difíceis ao mostrar a existência humana no seu estado mais íntimo e mais triste.

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva “vivem” Georges e Anne, professores de música aposentados que levam uma vida de requinte em Paris. Georges não parece assim tão saudável, mas é  Anne que cai numa degradante debilitação.

96123_galNão é fácil, más sabemos que a debilitação, a doença e a morte vêm para todos nós em algum momento. E isso vem acompanhado com amor, um temor e grande ressentimento. Mas, também sabemos que a maioria das famílias tem de lidar com tudo isso em algum dia.

Quando Anne pede que Georges a prometa, que o mesmo nunca a levará a um hospital. Ele mantem a sua palavra. O fardo que Georges carrega é pesado, pois Anne piora, depois de um segundo derrame, e ele se sente obrigado a cumprir a tal promessa. Uma das coisas mais dolorosas sobre “Amour” não é apenas ver a degradação fisica de Anne – trocas de fraldas, sendo alimentada e carregada, e os seus gemidos sem palavras-, mas os poucos recursos sociais que esse velho casal tem como: família, amigos e vizinhos.

Do outro lado da tela, me senti torturado pela crueldade de Haneke. Eu queria gritar. Queria sair daquele tormento brutal. Sabia que a morte de Anne parecia inevitável a partir dos primeiros minutos,  mas a forma como Haneke escolheu, a fim de, finalmente, chegar a esta conclusão cheia de simbolismos, é intensamente perturbador. Me senti dentro um filme de um terror!.

Contente por ter assistido “Amor”, mas uma certeza tenho eu, que nunca o verei novamente. E, se Riva não levar o Oscar de melhor atriz vai ser tão cruelmente injusto quanto ao ausência de Trintignant entre os indicados!

Nota: Não tenho uma nota para esse filme! 😦

Michael, de Markus Schleinzer. (Festival do Rio 2011 – parte 3)

Continuando… Michael (2011) do austríaco Markus Schleinzer pode ser considerado um dos melhores filmes do Festival do Rio 2011 para quem não teme os temas fortes.

O personagem título é um homem de rotina comum, mas que mantém cativo o pequeno Wolfgang de apenas 10 anos vivido pelo extraordinário David Rauchenberger. Trancafiado no porão, o menino é submetido a uma rotina de abusos sexuais e oscila entre a ternura, o sofrimento silencioso e impotente diante de uma força maior e a agressividade inútil de um animalzinho selvagem.

Desenha e escreve cartas que nunca chegarão até seus pais verdadeiros, participa de sessões maníacas de limpeza detalhada, é capaz de demonstrar apatia diante de uma repetição de um diálogo chocante de filme de terror proferido pelo seu algoz e participar passivamente de rotinas e passeios que sugerem uma relação paternal e natural, mas reage ferozmente diante de situações mais corriqueiras.

É o ensaio de sua tentativa de libertação que deixa um impactante final aberto (as pessoas costumam detestar finais abertos) ao som da singela e ordinária: “Sunny” disco hit de Boney M. que exemplifica a aparente simplicidade de um monstro. Quando o ótimo ator Michael Fuith cantarola a canção, simboliza esta horripilante e aterradora faceta de alguns criminosos que passam por pessoas comuns.

Por Carlos Henry.

Revanche (2008)

revanche_posterPor tanto amor. Por tanta emoção. A vida me fez assim.
Doce ou atroz. Manso ou feroz. Eu caçador de mim.

A vida de dois casais se cruzam de repente de nos levar a várias reflexões. Não é um drama qualquer, nem tão pouco inverossímil. Nem foi o destino quem lhes pregou essa peça. Pois foi por um ato pensado de um deles que desencadeou tudo mais. Mas antes mesmo da tragédia abater sobre eles, o erro começa por ele achar que apenas com uma boa quantia em dinheiro é o que o levaria a mudar de vida. E com as devidas proporções, a falta, ou mesmo o fato de o tê-lo não era o que traria ao outra casal a mudança almejada.

Compliquei? É que como podem ver pelo título o filme trará uma revanche. Ou uma vingança. Muda-se o termo, mas não o sentimento da perda de um ente querido e inocente. Mesmo sendo ele o culpado maior nessa tragédia. Assim para não lhes tirar a surpresa tentarei traçar um perfil dos quatro sem deixar spoilers.

revanche_00Um dos casais moram numa cidadezinha do interior. Têm uma bela casa. Bons empregos. Ela, Susanne, é dona de um mercado. Ele, Robert, um policial. Tinham tudo para serem felizes, mas faltava algo. E não apenas na vida conjugal. Na pessoal, principalmente. Foi a que pesou mais no rumo que tomou a vida deles.

A crise conjugal para ela já teria sido resolvida. Mas o orgulho de Robert não admitia a solução que ela propos. Até porque se sentiria ainda mais excluído da roda dos colegas de trabalho. Mais do que ser querido, queria que o vissem como um cara durão, importante. O churrasco em sua bela casa não alterava nada. E o que era pior, o tema da conversa acabava pendendo para o tal lance. Ambos ainda sofriam por isso.

revanche_03Robert talvez para que se orgulhassem dele ficou meio obcecado em mostrar que era um ótimo policial. Para os seus colegas, até pela tranquilidade do local, isso não os preocupavam. Assim naquele momento sua mente estava nos elogios que receberia depois com o feito. Com isso o seu erro pode ter sido por falta de atenção. Embora estivesse cumprindo o seu dever, o descuido fora fatal.

Como deixou sua mulher de fora do seu novo problema, Susanne tratou de arrumar um ‘plano b’. Ela simplesmente ouviu apenas o seu desejo. Que se isso lhe traria a realização que tanto sonhara, nem preceitos religiosos, nem a lei dos homens a impediriam por imputar culpas.

revanche_02O outro casal viviam em Viena. Trabalhavam num Inferninho. Tamara era prostituta. Viera da Ucrânia. Não tinha grandes ambições. O sonho maior seria em quitar a dívida com o dono do bordel. Mas recusou a proposta que o dono lhe fizera: em atender políticos, pessoas proeminentes… A fina flor do andar de cima que também faziam coisas sujas, mas às escondidas. Embora teria a chance de ganhar mais, e trabalhando menos, preferiu continuar ali. Talvez já aceitando o fato de que não sairia mesmo daquela vidinha. Viciada. Mas de temperamento tranquilo.

Aliás os quatro tinham um temperamento meio passivo. O dono do bordel chegou a dizer que Alex era um fraco. Mas como ele poderia ser um sendo um tipo de jagunço para ele? Pelo menos força física tinha. Como também jogo de cintura para ludibriar uma das regras principais no bordel: a de que não poderia haver namoro entre os funcionários. Assim, Alex e Tamara namoravam escondidos.

revanche_01Ao ir visitar o avô que morava na mesma cidadezinha que o outro casal Alex teve então a idéia. Mas estava tão obcecado em que só mudaria de vida com muita grana que não vislumbrou que nem era preciso executar o plano. E por conta de que? Para provar que não era um fraco? Ele poderia não imaginar o que aconteceria, mas era uma probabilidade. Tanto que aconteceu. Mesmo tendo culpa quis se vingar.

O sentimento dominante no finalzinho do filme fora que suas vidas mudara. Para melhor ou pior dependeria de quanto se sentiriam culpados. Assim entre segredos e mentiras, culpas e expiações… acompanharão a vida dos que ficaram. Não dá para voltar atrás. Como a bala que após disparada não pode mais voltar com ela, nem pará-la. E quem dali não faria tudo de novo?

O final me fez ficar pensando.; tentarei não deixar spoiler. Bem primeiro eu fiquei momentaneamente sem ter o que falar. Depois no que eu diria estando no banco de jurados. Pois cada caso ali acabou ganhando uma dimensão própria. O que foi mais um ponto positivo para ‘Revanche‘. A trama do filme é muito boa. Diretor e atores, idem. Paisagens lindas! Dou nota nove. E entrou para a lista de rever, até por parecer que estamos diante de pessoas comuns sem o banho de loja e salões de beleza que vemos nos filmes americanos.

Revanche (Revanche). 2008. Áustria. Direção e Roteiro: Götz Spielmann. Elenco: Johannes Krisch (Alex), Irina Potapenko (Tamara), Andreas Lust (Robert), Hanno Poschl (Konecny), Ursula Strauss (Susanne). Gênero: Crime, Drama, Romance, Suspense. Duração: 121 minutos.