The Babadook (2014). Um Terror Rico em Símbolos (Psicologia)

the-babadook_2014_01Por: Charles Alberto Resende. (contém spoilers)

the-babadook_2014A Imposição do Luto

The Babadook” é um filme muito instrutivo psicologicamente e muito rico em símbolos. Se isso não bastasse, foi também considerado um ótimo filme de terror. Infelizmente, para quem não conhece um pouco de psicologia, seu sentido simbólico pode passar encoberto. Este texto busca cumprir esta finalidade.

Babadook encarna o inconsciente de Amelia (Essie Davis), que procura de todos os modos reprimir a lembrança do trágico acidente de carro em que o marido a levava para a maternidade para dar à luz a Samuel (Noah Wiseman). Qualquer possível menção à lembrança do marido é evitada e/ou negada por Amelia, até mesmo chamar Sam de “garoto”, o que o ex-marido fazia. Ela não supera os estágios iniciais do luto, a negação e a raiva. Sam, por sua vez, sofre com a inadmissão da mãe, e passa a ter pesadelos e medos inexplicáveis, além de amedrontar parentes e colegas. Isso se deve a que a psique da criança, antes da puberdade, é dotada de um Eu apenas embrionário, ainda incapaz de afirmar sua personalidade. Contudo, somos tentados e considerá-las, muitas vezes, esquisitas, cabeçudas e difíceis de educar, como se tivessem vontade própria. Puro engano. Nesses casos deve-se examinar o ambiente doméstico e o relacionamento dos pais, nos quais encontramos, geralmente, as verdadeiras razões das dificuldades dos filhos. O comportamento perturbador das crianças é muito mais reflexo das influências incômodas e embaraçosas dos pais.

the-babadook_2014_02O filho passa à mãe o livro de Babadook, que tem mensagens como: “uma vez que você ver o que está embaixo, vai desejar estar morto” e “deixe-me entrar“. Ora, o inconsciente normalmente é retratado como a parte da personalidade que vive “embaixo“, isto é, abaixo do nível da consciência, como se fosse uma espécie de porão. E ela guarda as posses do falecido justo em um porão, as quais não deixa Sam ter acesso. Nas palavras deste, a mãe não o deixa ter um pai, mesmo que morto. Além disso, Amelia parece evitar também qualquer referência a sexo e ao amor compartilhado. Também parece perceber os gestos carinhosos do filho como sexuais, mesmo quando este está dormindo e recosta em seu corpo. Então afasta-se prontamente. Amelia sofre de insônia, e não é por acaso, pois precisa estar acordada e vigilante o tempo inteiro para evitar qualquer menção ou lembrança interna aos problemas que nega veementemente. Mas, como é muito comum nesses casos, ela não tem consciência nem de que nega esses assuntos. Não mencionar ou falar sobre o falecido é, para Amelia, seguir em frente com a vida. De fato, esse seria um bom indício de que conseguiu superar a morte do ente querido, se a menção a ele não a irritasse tanto. Quem supera uma perda e não a expõe, provavelmente o faz porque o fato já não possui a intensidade afetiva quanto tinha à época dos acontecimentos. Porém, para que isso ocorra, é necessário conviver com eles.

Entretanto, assim que o filho começa a ser discriminado claramente na escola e pelos parentes, a situação se desestabiliza. Então Sam fica desobediente e agressivo. O livro de Babadook surge e fornece a ela um meio simbólico para expressar conteúdos do seu inconsciente, até então fortemente represados. O estado psíquico de Amelia, antes vigorosamente controlado, se desequilibra, em meio à instabilidade da iluminação e aos ruídos, ao que tudo indica autônomos, produzidos no ambiente. O episódio em que Sam empurra a prima da casa da árvore, quando esta expressava às claras o que sua mãe ocultava, denota seu tormento frente à situação psíquica insuportável. Ao tentar se justificar, e a mãe tentar controlá-lo, passa por uma convulsão. Samuel é medicado e, agora, só a mãe deverá lidar com sua repressão ao luto, às reais emoções que a perseguem, encarnados por Babadook.

...fechada à realidade interior.

…fechada à realidade interior.

O livro, depois de destruído, reaparece com outra frase: “Vou fazer uma aposta com você. Quanto mais negar, mais forte eu fico“. Nesse ponto, o inconsciente de Amelia encontra-se muito carregado de energia psíquica. Manter os sentimentos e as emoções do luto separados do seu Eu serviu apenas para fornecer mais autonomia a eles, mais independência em relação às rédeas que quer firmar. “Você começa a mudar quando eu entro. O Babadook cresce sob a sua pele. Venha! Venha ver o que está embaixo!“. O símbolo do senhor negro, de cartola, mostra que ela primeiro matará o cachorro, depois sufocará o filho, e por último suicidará. Babadook, a figura do falecido que a abraça e os insetos que a perseguem, é como se fossem a morte em pessoa que vem buscá-la por não admitir sua existência. Influências regressivas que a atraem para o que ela rejeita, e que ficam mais fortes com a aproximação do aniversário do sétimo ano do filho. Ele mostra que ela nutre sentimentos hostis em relação ao cão que fareja o porão, ao filho que confronta sua cegueira interna e a si mesma. Ele é o inconsciente que finalmente se apossa de sua personalidade para cometer atos impensáveis. Ao negarmos o que se encontra em nosso interior, o separamos de nós, provendo-o de vida independente de nossa vontade. Nós nos tornamos como uma casa à disposição de forças que agora nos são desconhecidas, porque não admitidas. E ao não reconhecê-las, corremos o risco de não perceber que passamos a atuar como elas, que nos tornamos exatamente o que antes não tolerávamos.

Sam diz que não quer que a mãe vá embora porque, como as crianças estão em íntimo contato com o inconsciente, sabe que ela aos poucos está partindo para dar lugar à bruxa, à mãe má, que o colocará em perigo. Amelia só recobra a consciência para lutar contra a possessão sombria quando Samuel a acaricia enquanto tentava sufocá-lo. Ela vomita uma massa negra, cena muito semelhante à separação de Peter Park de Venon, em Homem Aranha 3, cuja analogia é muito pertinente. À negação segue a identificação (união), e, então, uma separação (análise) mais saudável. Ao alucinar a morte do marido torna-se possível vivenciar a angústia da perda. Por último, prevalece o instinto materno na batalha contra a força maligna, que agora aloja-se no porão. Curiosamente, quando a mãe surta, o filho volta ao comportamento natural.

the-babadook_2014_03Amelia não se cura como, normalmente, se idealiza uma cura. Pode-se dizer que sua saúde mental é restabelecida na medida em que ela reconhece a realidade do que se encontra em seu interior. Também teve que contar com outra força inconsciente igualmente poderosa: o instinto ou amor materno. O inconsciente teve que gritar, urrar e se impor para ser notado e respeitado. Por isso, e para manter uma boa relação com seu inconsciente, ela deve servi-lo diariamente com um símbolo que representa a morte e, de certa forma, a primeira (e parece que última) vitória desta: vermes extraídos do jardim onde o cão está enterrado. Mãe e filho compartilham da percepção da fera negra, como se esta fosse uma realidade comum a ambos, agora aceita inteiramente, como algo interno que, vivenciado externamente, exige atenção e respeito. Não é permitido a Sam visitar a fera, mas apenas quando for adulto. É a mãe que deve se relacionar com ela, pois é um problema dela. Foi preciso que alucinasse, que saísse de sua realidade, para que atentasse ao avesso do mundo exterior, que muitas pessoas desprezam: o espaço interno.

The Babadook 2014.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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MOmmy (2014). Se ser mãe é padecer no paraíso…

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xavier-dolan_cineastaO longa do diretor Xavier Dolan trata, neste novo argumento, também de juventude transviada, e já começa avisando: “Esta é uma obra de ficção”, e eu continuo: Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. É bem verdade, a trama é de fato uma obra de ficção e se passa no Canadá onde uma lei permite que pais, que tem algum filho com o comportamento problemático, o próprio país se encarrega de interná-lo em um hospital psiquiátrico e tratá-lo.

mommy_2014_02E logo na apresentação das personagens o diretor exibe ela, Diane ou Die, no jardim do Éden, colhendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabe-se que ela está viúva e tem um filho ‘aborrecente’ de quinze anos. O narrador foi maldosamente perspicaz ao utilizar-se de uma metáfora contundente para mostrar o caminho da interpretação que ele quer dar a esta história. E como toda historia é uma viagem, prepare a bagagem e o passaporte!

mommy_2014_01Na verdade o jovem Steve sofre de DDA, ou Distúrbio de déficit de Atenção. Quem é professor sabe bem o que é isso, pois quando se depara com determinada situação, é um deus nos acuda, ter em uma turma de 40 alunos, por exemplo, e um que sofra desse mal, dessa disfunção neurológica, dar aula torna-se impraticável, e o mestre, além de ter que se desdobrar em pelo menos uns dez, tem que ser bem criativo.

E aqui me fez lembrar o ditado: “Ser mãe é padecer no paraíso”, pois a personagem que tem um filho diagnosticado com DDA, difícil de ser tratado, terá que conviver para sempre com problemas e consequências que esse transtorno de muitos sintomas herdado geneticamente, será capaz de ser paciente, talvez abandonar o emprego, abrir mão de outros laços afetivos e também do lazer. Enfim, cada um com a sua cruz…e se alguém for capaz de dizer a essa pobre senhora: – Está com pena, talvez seja capaz de ouvir como resposta algo que não queira do tipo: “- Se está, leve para casa!”. Lamentável, porque até a mãe é meio desregrada. Ou não?

Bem o filme foi super elogiado pela crítica, levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, mas não sei, não conseguiu me seduzir, peço desculpas. E Cannes também pode se enganar, ou por isso o prêmio ficou pela metade e a outra parte foi para o “Adeus à Linguagem” de Jean-Luc Godard.

Não senti firmeza na atuação do ator, Antoine-Oliver Pilon achei meio apelativo, e ele me transmitia certa insegurança e parecia não estar tão à vontade no papel escrito para viver o adolescente problemático.

mommy_2014_03E para quem ainda não assistiu, atente à personagem de Suzanne Clément como Kyla, a vizinha, super prestativa que ajuda ambos, a mãe e o filho, e perguntas surgem sobre a sua vida e como seu destino pode estar ligado a Die e Steve. E Kyla que na história tem dificuldade com a fala, e toda a explicação básica, fatos e acontecimento em torno dessa misteriosa pessoa é revelado aos poucos no decorrer da narrativa.

Confesso que me identifiquei mais com a história dela, desta personagem, gostei! Fica como sugestão ao roteirista que crie uma história tendo ela como protagonista.

Ah! Esqueci um detalhe: o que mesmo significa PADECER?
E.B.

Mommy (2014)

mommy_2014xavier-dolan_cineastaXavier Dolan tem pouco mais de vinte anos e já conseguiu fazer uma obra-prima: Trata-se da direção do pungente filme Mommy que foge dos padrões chorosos e piegas já conhecidos ao contar a conturbada relação de Diane (Anne Dorval) com o filho problemático Steve (Antoine-Olivier Pilon) que ela defende e ama como uma verdadeira leoa.

Steve acaba de ser expulso da escola por conta do seu gênio incontrolável e agressivo. Diane o acolhe e acaba perdendo o emprego com problemas relacionados com o filho adolescente. Viúva e desamparada, é obrigada a fazer faxina e enfrentar novas crises de violência. A enigmática vizinha Kyla (Suzanne Clément) está disposta a ajudar e tudo parece entrar nos eixos até que surgem novas dificuldades.

mommy-2014_anne-dorval_e_antoine-olivier-pilonAlém de um roteiro primoroso e um elenco de primeira, Xavier lançou mão de um recurso que alguns diretores já começam a explorar: A maleabilidade da própria tela para expressar emoções. No caso, o mundo de Steve se mostra oprimido num formato de película curto e apertado que pode causar estranheza ao espectador, para se expandir em poucos e precisos momentos até chegar à tela larga padrão que representa a liberdade que o rebelde jovem precisa atingir para superar seus conflitos. Tudo colorido e amparado por uma trilha sonora deliciosa que inclui “On Ne Change Pas” cantada por Celine Dion num belo e antológico momento de descontração e “Born to Die” de Lana Del Rey nos créditos finais deste que pode ser considerado um dos melhores filmes do ano.

Carlos Henry

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz. 2011)

Entre o Amor e a Paixao_2011Zapeando a grade de programação da televisão um título me levou a saber mais detalhes do filme. Então encontro que quem assina a Direção é Sarah Poley. O que já seria suficiente para assistir. Mas tendo também como casal de protagonista Michelle Williams e Seth Rogen carimbava de vez. Era assistir e conferir.

Sarah Polley além de conquistar espaço como uma atriz (A Vida Secreta das Palavras) também o faz para um universo ainda dominado por homens: o da Direção de Filmes. Seu primeiro longa “Longe Dela” adentra no universo feminino numa maturidade já avançada pelo olhar de um personagem masculino e por sentir a perda da esposa para um outro amor, mas por conta do Alzheimer. Aí nem da para pesar como traição. Vale muito a pena ver! Se nesse primeiro ela divide o Roteiro. Já em “Entre o Amor e a Paixão” ela ousa e o faz sozinha. E…

Em “Entre o Amor e a Paixão” temos como pano de fundo o drama de jovens e não tão mais jovens donas de casas. Com 5, 10, 30 anos de casadas… cujas histórias se repetem. O que muda é a maneira de encarar o tédio nessa vida de casada. Acontece que tendo Michelle Williams como uma dessas donas de casa a vivenciar esse drama me levou a pensar num outro filme, o Namorados Para Sempre“. Até porque em ambos os filmes os maridos aos seus próprios jeitos são bem resolvidos materialmente, como também emocionalmente. Dai pesou a escolha dessa atriz me levando a pensar se com uma outra se eu também teria feito essa associação. Por ambas as personagens pela insatisfação vividas quiseram achar uma saída. Sem saber do porque escolheram essa atriz era tentar não pensar mais no outro filme e continuar prosseguindo com esse aqui.

Em “Entre o Amor e a Paixão” temos Seth Rogen fazendo um Chef de Cozinha, o Lou, se dedicando a um livro de receitas. Entre Molhos e Anotações Lou acaba não colocando mais, ou o mesmo tempero no relacionamento dos dois. Pior! Tratando a esposa como um biscuit, uma menininha. Acontece que nesse cozimento em banho-maria, tinha uma dona de casa numa panela de pressão e em ebulição. Margot (Michelle Williams) se encontrava sedenta de paixão. Desejando muito ser uma mulher sedutora, mas cuja timidez a impedia de ser essa outra mulher.

Margot sonhava também em ser uma escritora. Não sei se de algum modo fora esse um dos fatores que aproximara os dois: Margot e Lou. Até porque a história do filme a pega às vésperas de completar 5 anos de casamento. Não sei ao certo se o sentimento que lhe pesava por esses dias antes da comemoração das bodas. Se melancolia, tédio, insatisfação consigo mesma. Agravada por nem conseguir imaginar esses fogosos romances para colocar num livro. Nem percebeu um sinal nudez das mulheres no vestiário feminino. Se dedicasse mesmo a pelo menos ao lado prático até teria como válvula de escape o livro desejado. Com observações somado as imaginações alguma coisa teria para escrever. Até com um ingrediente novo: o pecado morando em frente. Com isso nessas Bodas Margot teria que tomar uma decisão: continuar com o casamento ou ir viver a paixão que estava no outro lado da rua.

Ao mesmo tempo que fica parecendo que Sarah Polley leu muitos romances de Barbara Cartland, também fica a sensação de que faltou colocar esses devaneios na protagonista. É que o filme até nos leva a assistir até o final, sem querer desistir, mas não encanta de todo. A mim não deixou uma vontade de rever. Agora, continuarei na torcida para que Sarah Polley siga em frente em Direção. Pois está no caminho certo. Precisamos de mais mulheres nesse universo. Valeu seu trabalho na Direção! Faltando algo mais a Roteirista. Pelo conjunto da obra dou nota 07 para “Entre o Amor e a Paixão“.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz. 2011). Canadá. Direção e Roteiro: Sarah Polley. Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 116 minutos.

O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World. 2010)

scott-pilgrim-contra-o-mundo_capaScott Pilgrim Contra o Mundo é um filme que vale o ingresso. Na verdade, o ingresso se paga nos primeiros vinte segundos do filme, mas não insista, meu compromisso de não entregar filmes não me permite revelar mais do que isso. [*] O resto do filme é um bônus de boa qualidade.

Scott-Pilgrim-Contra-o-MundoScott (Michael Cera) é um cara esquisito que vive em Toronto que, por algum motivo que quem assiste o filme não consegue entender, atrai fatalmente várias mulheres – testemunhamos pelo menos quatro delas. Um fenômeno semelhante acontece com os namorados da irmã de Scott (Anna Kendrick), mas isso é outro lance. A conquista mais recente, Ramona (Mary Elizabeth Winstead), consegue roubar o coração de Scott, mas a um preço elevado: para ficar com ela, ele precisa vencer em lutas mortais sete ex da femme fatale.

Fiel à sua origem nos quadrinhos, o diretor Edgar Wright consegue mostrar de forma quase realista (se é que isso é uma boa descrição) os embates em todo seu visual – e lógica – de HQ/ game.

Há pelo menos dois pontos altos no filme: a atuação de Michael Cera [**], perfeito como o jovem sem noção, e o bom humor, que passa por um bom uso de elementos gráficos na tela, ousa num momento Seinfeld e vai ao extremo da sátira ao ridicularizar os vegans. O ponto baixo – admito que é questão de gosto – são as músicas…

PacMan_Animation1Não espere um filme autoral, nem altas discussões filosóficas. Mas pode se preparar para rir um pouco e aprender algo “útil” sobre o PacMan.

[*] a menos que tua curiosidade te obrigue a clicar neste link.

[**] Cera já mostrou a que veio em Superbad e Juno.

Por Robert Vonnegut.